9 - O P O E T A


1941-1942-1943-1944

 

Nos seus números de agosto 1941, novembro-dezembro de 1942, janeiro 1943 e janeiro-fevereiro 1944, a revista de culturaA Ordem”, sob a direção de Alceu Amoroso Lima, revela CRUZ CORDEIRO como poeta, publicando seus poemas: Regresso, História de Jangadeiro, Aquele Velho, Luz e Sombra, Prece e O Problema do Poeta. Junto aos poemas publicados acima, muitos outros poemas do autor são transcritos a seguir. O poema Aquele Velho não foi localizado nos guardados do escritor.
O PROBLEMA DO POETA
Anonimamente e/Na intimidade de cada pouso,/Silenciosamente e/No indevassável de cada alma,/Tudo vai tendo o seu próprio desconhecido/No concerto da beleza universal.
E assim somos como os búzios,/Que não falam: a vida em nós,/Como nas conchas diante do mar profundo,/É ressonância que a palavra,/Embora dom milagroso,/Jamais traduz exatamente.
E se tudo é silêncio e anonimato,/Se tudo ressoa sem palavras,/Se tudo é harmonia e beleza,/Por que então fazer poemas,/Que pedem títulos,/Que levam palavras e que/Se endereçam à alma de todas as criações ?
LUZ E SOMBRA
E essas gaivotas tão lindas, /Acima desse mar tão azul,/ Voando por esse céu tão radioso:/ Onde elas morrem e se enterram ?/ Por onde passam os seus coches ?/ Onde estão seus cemitérios ?/
INDAGAÇÃO
Será que a alma dos filhos/Criminosamente abortados/Não continuam por aí/Reclamando seu direito à vida ?/
LUZ
Há uma grande luz no sofrimento,/Luz que vem do fundo do universo/E que deve ser a luz da morte,/A luz da vida eterna./
ENTONAÇÃO
Quero me libertar das entonações/Baixas e regulares da tristeza,/Dos tons melancólicos e monótonos do desânimo,/Ou das inflexões bruscas e extremadas dos alienados./
Quero entoar o meu canto em tonicidades gerais,/Transbordar minhas ânsias em modulações universais,/E poder perguntar ao desconhecido/Com elevações tônicas decisivas./
DEGRADAÇÃO
Quando o amor se acabou/ Quando a alegria de viver se foi/ Quando tudo passou/Quando todo o ideal foi perdido,/ quando tudo falhou/ Quando veio a descrença,/ Quando o desamparo chegou,/ Quando o impossível surgiu,/Quando o suicídio foi pressentido,/ Apareceu o poeta com seus versos,/Com sua degradação./
HISTÓRIA DO JANGADEIRO
No verde-azul do oceano, /A vela branca./ Nos poucos troncos da jangada,/Pés na água e cabeça ao tempo,/Ele perigando a cada ondular de vaga,/Mas nunca deixando refletir,/Na placidez estóica do seu olhar,/A traição eterna das ondas do mar./
Na terra,/A mulher que não dormiu noites/Pensando nele,/Que ficou dias inteiros investigando/Pela linha enigmática do horizonte./
Depois de semanas de espera sem fim,/Os entes queridos do jangadeiro, que,/Ao chão das areias desertas,/Se atiraram chorando e/Continuaram a ouvir,/No farfalhar dos coqueiros ao vento,/A voz do que não mais voltou,/Numa saudade imensa, interminável./
PRECE
Estou cansado de presenciar fatos consumados,/De ter notícia de desgraças ou de vitórias,/Acabei por detestar os acontecimentos.
Queria que Deus me desse a pré-ciência/O dom divinatório e a mais absoluta vidência,/Que me fizesse entrar no espírito de todas as coisas,/Que me coordenasse com a essência universal e/me concedesse, desde logo,/A paz imensa que pressinto no infinito./
CREDO
Creio no cosmos,/Porque criou todos os átomos e,/Da minha primeira molécula,/Produziu isso que sou:/Um corpo com infinidade de órgãos,/Simultaneamente vivendo,/No milagre do equilíbrio perfeito,/Em meio de todos os demais corpos./
Creio no cosmos,/Porque nele me sinto flutuar,/Inconsistente,/Ingovernado, por mim mesmo/Independente de/Minha personalidade humana/
Creio no cosmos/Porque é implacável/Determinante/Impreterível,/Irrevogável./
Creio no cosmos/Porque me vejo subjugado por suas/Variações mais à-toa,/No deslocar do seu mais tênue grão de pó,/Dentro da poeira imensa de átomos que/Se perderam enchendo,/Formando a massa universal/Moldando a alma e o espírito de todas as criações,/ Modelando o vácuo, os astros e os seres./
Creio na poeira do cosmos,/Na poeira dos séculos que nos domina,/Onipotentemente,/Em todas as noites e dias desses séculos,/No passado, no presente e no futuro./
PEREGRINAÇÃO
Daqueles dias tristes em diante,/Depois dos anos que tornaram tristes aqueles dias,/Eu dei para ir de novo às igrejas./Nelas procurei o aconchego antigo,/A certeza daquele velho abrigo,/Que pensei pela vida encontrar sempre comigo,/Quando aprendi Catecismo, História Sagrada,/Paixão e Morte do Senhor,/Quando acreditei no Anjo da Guarda./Mas tudo me pareceu agora agoniado:/Os altares, os santos, em filas,/Os braços abertos dos Cristos,/O silêncio interno das capelas,/O ruído dos sinos lá fora,/Lá no alto das torres inacessíveis./
E os repiques dos sinos lá de fora me levaram,/Depois que abandonei o seio aflito dos templos,/Para os apitos gritantes das fábricas./Desejei ver gente suada, estafada,/Gente tão preocupada com trabalho,/Com luta pela vida,/Que não pudesse pensar no silêncio dos santuários,/Sentir a nostalgia dos badalares distantes./Mas diante das filas de operários,/Tão honestas e tão dignas,/Divisei um vazio estranho na labuta humana,/Porque era também em filas,/Filas de operários, de santos,/E a existência continuou em mim agoniada/Como o seio dos templos de onde acabara de sair./
Talvez que outras filas tivessem mais aconchego,/Espiritual ou material, já nada mais importava/À minha fuga da dor, à minha ânsia de libertação./Nas horas de alegria, de movimento e de multidões,/Misturei-me por isso no meio delas,/Das horas e das multidões/Horas inteiras, filas de horas./Observei o casario que prende o homem,/As filas de construções,/Fui de novo aos cinemas, aos teatros,/Aos cabarés, a todos os lugares aonde ia/Antes daqueles dias tristes./Olhei filas de pares dançando,/De orquestras tocando,/De gente com cara alegre e não alegre,/De gente comprando entrada para diversões/E acompanhando enterros, em filas./
Pelos jornais, sobre filas intermináveis,/De palavras angustiadas,/Meus olhos se fartaram por fim,/Em notícias de guerra./Através da História dos séculos,/Meu pensamento completou a cadeia das/Guerras de ontem com as de hoje./Meu coração sentiu a desolação das retiradas,/Dos civis bombardeados,/Das investidas dos soldados alucinados,/Por terra, por mar, pelo ar, em filas./
E tudo me pareceu mais dolorido,/Mais acorrentado,/Porque a vida era agora em filas,/Tudo em filas/Quando eu, antes dos anos/Que tornaram tristes aqueles dias,/Jamais notara essas cadeias,/Essas correntes,/Essas filas./
Os peregrinos andam assim,/Atrás de Buda, de Maomé, de Jesus ou de Satanás,/Vão aos lugares santos e não santos,/Mas em filas, sempre filas.../
Eu sou um peregrino e só agora,/Depois daqueles dias tristes/E daqueles anos que tornaram tristes aqueles dias,/Percebi o trágico da minha peregrinação pela vida:/Em fila, escravo de meu destino humano./

Observação: A poesia acima foi publicada no Quinzenário de Cultura, Planalto, (São Paulo-Brasil), em 15 de Dezembro de 1941 – Ano I - Número 15 –Diretor: Orígenes Lessa.
INDAGAÇÃO SOBRE A MORTE
E quando eu fechar os olhos para sempre,/Através da imagem banal da vela que se apaga,/Ficarei na terra morto ou/Coches terei que me conduzam pelo eterno,/Pelo universo sem cemitérios ?/
RELÓGIO
Venho vivendo todas essas horas,/Minutos e segundos,/Todos esses instantes da vida,/Esperando pelo momento/Deles se realizarem no tempo,/Porque uma vez realizados,/Acontecidos no espaço,/Fico, de novo, esperando por eles./
E é de esperar eles que vivo,/Numa corrida de doido,/Atrás dos dias, das horas, dos minutos,/Em busca de todos os instantes que,/Para que eu viva, se vão realizar,/E que logo se vão para que,/Novamente, eu fique esperando,/Sem nunca poder precisar o momento exato/Em que acontecem, ou em que acontecerão,/E ainda menos saber se chegarão a acontecer,/Qualquer dos instantes de minha vida./
Já meditaste, amigo, nesta coisa fabulosa/Da vida, das horas: jamais saberes o que/Te pode acontecer, daqui a um milésimo/De segundo, que seja ?
Por que, então julgas somente mistério a morte,/Que pode ocorrer justo em cima dum desses/Milésimos seguintes de vida,/Tão desconhecidos como a própria vida,/Tão misteriosos como a própria morte ?
Não te parece, amigo,/Que a morte é igual à vida ?/Não vês que tanto a morte, como a vida,/Dependem, sempre, dum depois ?
E por que será mistério só o que vem depois,/Na vida ou na morte,/E não, também, o que já veio ?/O que já vivemos;/O que esperávamos e o que falhou;/O que já morreu dentro de nós, em vida;/O que já se perdeu na obscura memória da infância;/O que nunca vimos vir e que deve ter vindo,/Em nós mesmos, antes de nascidos;/O que terá vindo do antes,/Do muito antes de todos nós, de tudo ?
E não te parece, também, amigo,/Que dessas simples cogitações,/Diante dum simples relógio,/Sairam coisas espantosas,/Tão espantosas e misteriosas/Quanto as horas que hão de vir no mostrador,/Que jamais nele virão,/Ou que antes, nele, vieram ou não ?
ESPELHO
Me olho no espelho como a um estranho ser,/Não me encontro e não me ajeito nele,/E não vejo outro modo de me ver,/Não consigo me ver tal como sou feito./
MEMÓRIA
A memória do som que ficou no surdo./A memória da visão que ficou no cego./A memória do que sente a perna amputada./A memória do sexo que ficou no velho./Oh! Desgraçada memória,/Razão da nossa existência./
PREOCUPAÇÃO
E o que preocupa a gente é /Achar o caminho da morte,/Porque o da vida está com a gente,/E o do nascimento/Alguém já se encarregou dele./
A ÂNSIA DE ESCREVER
Tenho uma ânsia eterna de traduzir/Todo o meu íntimo, todo o meu ser,/Todo o mundo obscuro ou iluminado que me cerca,/Em palavras que tomem forma impressa/E na esperança dum prolongamento gráfico da existência:/Pelas edições sucessivas dos livros e dos volumes,/Através dos salvados-de-incêndio das/Bibliotecas que pegaram fogo/Ou que os homens transformaram em fogueiras,/Do exemplar raro que escapou ao bicho ou ao verme,/E que foi vendido pelo alfarrabista generoso./
Quero deixar algo escrito meu,/Porque vislumbro na mais ligeira nota,/No mais solto dos meus pensamentos,/Na mais particular das minhas conclusões,/E até na poesia que me vem das coisas,/Um detalhe útil para o que ficar,/Num anseio incontido de ajudar,/Numa compensação exótica/Pela grande falta de informação, de auxílio,/Que me acompanha desde o meu princípio:Através das civilizações que se perderam/Nas erupções das guerras, dos vulcões e dos terremotos,/Dos povos que se afogaram/Nas enchentes ignoradas dos oceanos ou/Nos vestígios insuficientes/Para nos dizerem algo do que foram./
Anseio por uma tela imensa e branca de papel,/Por uma imprensa universal e sem censura,/Onde eu projeto o mais insignificante do meu eu,/Na estranha procura da certeza de que vivo/E de que vivi, de que tive, sendo meus,/Todos os pensamentos e sentimentos que,/Vistos e revistos, lidos e relidos,/Lembrados e relembrados depois por mim mesmo,/Já não me parecem meus, já não são mais meus,/Pertencem a outros entes que em mim viveram,/Foram escritos por outros seres que em mim sentiram,/Que em mim pensaram ou que comigo confabularam em outras eras./
É preciso que eu diga, escrevendo,/O que não me souberam dizer,/Que eu conte, por escrito,/Tudo o que ficou no temor das consciências,/Nos entraves do pudor,/Na falta de meios ou de palavras para ser escrito,/Ou, apenas, tudo o que se teve medo ou/Se foi proibido de escrever./
Espero fixar em tinta e qual um náufrago,/O filme relâmpago do mundo que passa diante/Dos meus olhos e dentro do meu próprio ser,/Que se estraçalha numa dilaceração constante de vida./Num tão trágico desperdício de imagens,/De tempo e de projeções,/Que me indago porque todos os homens,/Desde o começo do princípio,/Dos primeiros machados à máquina-de-escrever,/Da pedra à linotipo e por inexorável imposição atávica,/Não se viram obrigados a escrever,/A escrever, sempre a escrever.../
ADEUS PRA CIDADE
Adeus, cidade,/Cidade maravilhosa, adeus,/Que eu me vou, de novo,/Pras montanhas./
E me vou, porque não posso mais,/Novamente, respirar teus odores,/Os odores das tuas ruas, e das tuas habitações,/Dos teus bares, dos teus restaurantes,/Das tuas casas de pasto, dos teus cafés,/Dos teus mictórios, freqüentados pelas/Multidões, nos intervalos da tua vida trepidante,/Adeus, cidade,/Que eu me vou, de novo,/Pras montanhas./
E me vou,porque meu olhar, novamente cansado,/Não pode gozar mais teu eterno mostruário que,/Sob o sol, ou sob as luzes noturnas,/Ilumina homens, mulheres e coisas,/Se oferecendo, sempre, uns pros outros,/Nas tuas ruas e nos teus lugares./
Adeus, cidade,/Que eu me vou, porque já me é impossível,/Novamente, suportar as delícias de tua/Vida trepidante: o ronco do avião que,/Lá no alto, sobrevoa; a buzina, ou a fumaça,/Do automóvel último modelo que, aqui em baixo,/Chamou meu olhar, minha atenção, e que,/Depois de prender meu ouvir, por um instante,/Me sufocou para, logo depois, sentir desentupido/Meu nariz, numa rajada de vento menos impuro,/E que me faz gozar, assim, o ritmo contínuo desses/Teus contrastes sensuais !/Adeus, cidade,/Que eu me vou, de novo,/Pras montanhas,/
E vou porque meu organismo, mais uma vez,/Repele a tua trepidação deliciosa de/Toxinas: gente, sexo, ruído, ritmo, música,/Jornais, televisão, teatro, cinema, stress/Cheiro de comidas, de bebidas, de fumantes,/De gente limpa e suja,/De bêbados, mendigos, de gente pura e impura,/Que impregna o teu ambiente de arranha-céus/De cidade, cidade maravilhosa,/Adeus, que eu me vou, de novo,/Pras montanhas.
APELO AO FAROL
Escondido no fundo da noite,/Lá longe, muito longe da praia,/O farol pisca projetando/Branco, vermelho,/Pisca, pisca,/Com jatos de luz,/Escondido no fundo da noite./
Branco, vermelho, pausa,/O olho do farol pisca,/Escondido no fundo da noite/Como mistério pra decifrar./
- Ei !, farol !/Viste aquelas nuvens baixas/Que passaram rente ao mar,/Aí pelo meio-dia ?/O sol em cima delas brilhava/Como por cima de flocos de neve/Que desejasse fecundar./Por causa de sombra delas,/O mar ficou verde-escuro, emocionado./Tu estavas com tua cabeça de um olho só/Em meio delas,/E até refletias as cores do arco-íris/Que o astro produzira no firmamento espectral./Mas tu não piscavas como agora, farol,/Tu não vias, vias ?... Me dizes, farol,/Ei !, vê se me vês, escuta,/Quero falar contigo dessa solidão ancestral:/Viste meu pai que se foi ?/Minha velha mãe que se extingue penando ?/A esposa que perdi ou que jamais encontrei ?/O filho que é meu e que não me pertence ?/O menino que não estou podendo criar ?/Aquele que se fará homem amanhã como eu e sem mim ?/Viste as sombras dos meus desejos irrealizados/Que rondam, como fantasmas, por essa escuridão aí !/Vistes as dores que me vão consumindo e/Desolando a vida ?/
- Ei !, farol !/Vê se me vês !/Vê se vês a mulher que amo agora,/Se escutas a agonia de sua alma/Que não queria ser minha,/Mas que afinal se entregou, com/O sacrifício de tudo o que sonhara na terra/E até de tudo com o que sonhara no céu,/No abandono de quem se viu necessária ao/Amparo da minha existência,/Ao consolo do meu sofrimento,/De quem se sentiu minha companheira./
- Ei ! farol !/Foi a luz do teu pisca-pisca/Que me atraiu para essa praia deserta,/Mas continuo lutando contra a noite escura/Que ameaça meu mundo interior e que,/Qual extensão de mim mesmo,/Vejo ameaçar todo o mundo./Vê se me vês, vê se me enxergas:/Perdido ao relento da noite,/Ouvindo o choro monstro do mar,/Com ânsias de me afundar na sua inquietação/Sem fim, porque é a minha própria inquietação./
- Vês farol ?/Viste ?/Ei ! , farol !/Vê se me indicas uma rota amena qualquer,/Um caminho alentador,/O porto duma lareira acolhedora,/Vê se me vês !/
- Não, tu não viste nada, tudo nada vês.../Tu és como um boneco tolo: piscas, piscas.../Tu és como os indiferentes: branco, vermelho, pausa,/Branco, vermelho, sem fixação.../
TOADA TRISTE
Como é triste quando encontro,/Em minha casa, aqui e ali,/Distraidamente,/Algo que foi teu, ou que/Voltou pro meu poder,/Pro meu convívio,/Por causa da nossa separação !
Como é triste estar encontrando,/De vez em quando,/Por esquecimento e sem querer,/Restos mortais desse amor que/Teve um fim, porque talvez nunca/Tivesse tido um princípio !/
Como é triste encontrar dedicatórias/Esquecidas: “Pro meu amor,/Com todo meu afeto...”,/ “Pro meu grande e único amor,/A minha vida...” !/
Como são tristes as relíquias, abandonadas,/Dum amor que findou, como são tristes !/Tão tristes que, por vezes, infantilmente imagino/Dar vida para algumas delas, ou, pelo contrário,/Reduzir elas todas a cinzas, em algum/Forno crematório escondido de todos,/Num último pudor por aquilo que a vida,/Abertamente, incinerou./
Como são tristes as relíquias, abandonadas,/Dum amor que teve um fim,/Como são tristes, como são tristes !/Mais tristes que o mais fúnebre cortejo,/A marcha fúnebre mais triste,/A mais desoladora presença de cadáver./
A GRANDE PIANISTA
Eu gostava era do piano da minha vizinha em frente,/Do outro lado de minha rua de arrabalde,/E do seu repertório a meu gosto:/Beethoven, Chopin, De Falla,/Granados, Scriabin, Rachmaninoff e/Tantos outros que ela me parecia tocar bem,/Porque era naquele piano que eu sentia todos os pianos/Nos silêncios das tardes da minha rua deserta de arrabalde./
Também é certo que nunca mais suportei ouvir,/Ainda que pelos maiores artistas do teclado,/Em discos, no rádio ou fora deles./As músicas que ouvia por minha vizinha em frente,/Naquelas tardes tranqüilas da minha rua deserta de arrabalde./
E quando ela, mulher como as outras,/Passou a esperar criança,/Senti a rua deserta sem os ecos do seu piano que,/Ao fim de alguns meses, silenciou,/Nas tardes da minha rua deserta de arrabalde./
CARTILHA
Do primeiro afastamento do seio materno,/Nutriente e protetor,/A inquietação que me fez chorar,/Na desolação da primeira distância e/Na dilaceração da primeira separação.
Da primeira namorada,/Da sua frieza de virgem incontrolada,/Da sua recusa a meus primeiros desejos de puberdade,/A primeira sensação de grande repulsa,/As lágrimas do meu amor próprio ofendido./
Dos primeiros estudos,/Nas primeiras provas de saber humano,/Na opressão do mando e dinheiro paternos,/A compensação das alegrias dos bancos colegiais,/As primeiras sensações de solidariedade humana,/Os sustos dos primeiros pecados/E a delícia dos primeiros amores de verdade./
A PERDIÇÃO IMENSA
Naquela cidade imensa,/Procurando um amor sincero,/Eu tive mil amores./
Naquela cidade imensa,/Sôfrego, como um beija-flor,/Beijei todas as flores lindas que achei,/Quantas belas flores pude beijar./
Naquela cidade imensa,/Suguei, com ânsia,/Todos os lábios:Lábios moços, frementes,/Como eram os meus;/Lábios cautelosos, moderados,/Como ficaram os meus;/Lábios indiferentes, frios,/Como findaram por ser os meus./
E só quando tudo para mim acabou,/É que descobri a perdição imensa/Daquela cidade imensa:/Ninguém se incomodou com a minha dor./
FEBRÃO
A febre alta e as dores no meu corpo,/Me invadem o organismo antes são.
E agora te vejo em sonhos febricitantes,/Sem sensualidade, sem nervos,/Sem doces abraços e sem carícias carnais.
Teus seios redondos e maduros,/Que já nutriram seres,/São frutos saborosos de néctares/Agora inatingíveis./
Tuas ancas formosas,/Tuas pernas esguias e belas,/Que contra mim imprimem tanto ardor/Em cada momento de amor,/Agora são frias colunas enluaradas/De antigos templos perdidos no tempo./
Mas te sinto o aperto de mão de companheira,/Que em volta do meu leito luta, comigo,/Como sempre ,contra a morte,/Pela vida, pela existência, pelo amor./
Oh ! doce bem:/O febrão e as dores não me vencerão ainda,/Meus sonhos febricitantes deixarão o cérebro,/Voltarão em sonhos a todo o corpo,/Voltarei à vida, mais uma vez,/Com tua ajuda de mulher e companheira./
ESTUDANTE
No frescor da madrugada,/Ao amanhecer,/Com o som da passarada,/No arvoredo,/Eu te vejo sempre ali,/Naquela esquina,/Esperando condução pro teu destino./
Paixão ainda não conheces,/Teu lar, teus pais é o que tu amas./
Estudante nos teus livros/Não se ensina que a vida/Tem angústia, tem espera/E tem muita ilusão./
Mas quando despertares,/Da tua vida encantada,/Estudante, eu te peço,/Olhes para mim, que estou aqui,/Deste lado, apaixonado./
Um anel eu quero te dar,/Carinhos e amor sem par,/Estudante um bebê,/Pra completar o nosso lar,/Que depois vá estudar,/Ele mesmo, em teu lugar./
DEUSA DO TANGO
Nessa queda de tango,/Que lança e balança,/Que vai e que vem,/Em suave esquivança,/Eu me lembro de ti,/Dançarina querida,/Das festas, dos “dancings”,/Das luzes do amor./
Mocidade longínqua,/Saudades que ficam,/De tudo que vi e/Que dançou em ti,/És tu minha deusa de arte,/Encantados quadris,/Dos volteios do tango./
Minha deusa do tango,/Visão deslumbrante,/Cadência de dança,/Que não acabou,/Porque estás sempre viva,/Bailando eternamente,/Bem dentro de mim,/Pisando meu coração,/És a deusa dos meus sonhos,/Dançarina querida,/Dos volteios do tango,/Que não voltam mais./
JARDIM PINTADO
Jardim de flores lindas/Que assim nunca se viu,/Jardim que tem nas flores/Toda as cores do pincel./
Jardim que eu pintei/Pra por você no meu jardim,/Bela flor, meu bem,/Linda flor que você é./
Canteiro vou lhe dá/Só pra você,/Porque você é flor/Vaidosa e rara, meu amor./
Eu vou pintar você,/Com linda cor,/Com a cor mais bela/De todo o jardim./
Depois vou lhe contar/Como ficou, no coração,/O amor desse jardim em flor./