8 - OUTRAS ATIVIDADES


O COLUNISTA, O LINGÜISTA, O FILÓLOGO E O FOLCLORISTA

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1939 - Na revista “Cine-Rádio Jornal”, de Celestino Silveira (Rio), colaborou, freqüente e animadamente, na seção “Fala o Amigo Fan”, com seu nome literário CRUZ CORDEIRO e, posteriormente, sob o pseudônimo de Tupiniquim, sempre em defesa da música brasileira popular, de que se tornou um dos seus melhores conhecedores e críticos.

09.03.1940 - No famoso jornal crítico-literário de Brício de Abreu, “Dom Casmurro”, estreou com um trabalho de Lingüística e Filologia, que passariam a ser a sua principal especialidade desde então, intitulado “A Ortografia dos Vocábulos Indígenas e Afro-negros”. No mesmo periódico seguiu colaborando longo tempo até, praticamente, sua extinção.

1941 - Colaborou com artigos para “Diretrizes”, publicação de Samuel Vainer e de projeção na época.
Passou a ser um dos colaboradores efetivos da “Revista Filológica”, publicação mensal sob a direção de Rui Almeida, que publicou até 1944.
Ainda, tornou-se colaborador da “Revista do Arquivo Municipal”, publicação do Departamento de Cultura de São Paulo, onde se publicaram trabalhos seus como “Os Fundamentos Econômicos nas Origens dos Nomes BRASIL e AMÉRICA” (vol.LXXVIII de agosto-setembro 1941) e “Terminações Mineralógicas” (vol. CII, 1945).

Tornou-se colaborador do conceituado suplemento literário do “Diário de Notícias”, do Rio, sob a direção de Raul Lima, tendo sua colaboração sido variada, focalizando de preferência, porém, temas lingüísticos, filológicos e de música popular e folclórica brasileira.

Janeiro de 1942 – A “Revista do Brasil” (Ano V, 3a. fase, nº 43) publicou seu importante trabalho “A Língua Brasileira”.

1945 - Ingressa como colaborador dos “Diários Associados”, de Assis Chateaubriand, em constante colaboração através do suplemento literário do seu órgão líder no Rio: “O Jornal”, de preferência sobre assuntos de lingüística, filologia, folclore e música popular brasileira.

1955/1956 – Convidado por Lúcio Rangel, criador da Revista da Música Popular, Cruz Cordeiro escreve sobre folcmúsica e música popular brasileira, e apresenta uma discografia mensal da indústria brasileira.

1957 - Passa a colaborar também no suplemento literário do “Jornal do Comércio”, do Rio, órgão que se incorporou à cadeia dos “Associados” referidos.

 

Cruz Cordeiro passou a colaborar com a Revista da Música Popular a partir do nº 7, de maio e junho de 1955, participando da publicação até o n° 13, de junho de 1956.
Na sua estréia, assim a Revista se referiu ao novo colaborador Cruz Cordeiro: “Neste número da REVISTA DA MÚSICA POPULAR apresentamos aos nossos leitores a “discografia da Produção Nacional”, trabalho como nunca se fez outro igual em nosso meio. Organizada por Cruz Cordeiro, romancista, filólogo e crítico musical, a iniciativa está destinada ao mais franco sucesso, possibilitando ao discófilo, aos estudiosos, aos vendedores das lojas especializadas, um completo panorama de tudo que se publicou no Brasil em matéria de discos. Com uma simples referência, com a mais rudimentar informação, o leitor encontrará facilmente todos os detalhes referentes à sua música predileta ou ao seu cantor preferido. É um trabalho gigantesco que o nosso novo colaborador vai empreender mensalmente e que temos o maior orgulho em apresentar aos nossos leitores do Brasil”.


Co-edição da Bem-Te-Vi Produções Literárias e Funarte. Edição completa em fac-símile dos 14 (quatorze) exemplares da Revista da Música Popular –
Setembro de 1954 – Setembro de 1956. Rio de Janeiro – ano de 2006.

E sobre a produção e impressão do livro no verso da última página: “Este livro foi produzido na cidade do Rio de Janeiro pela Fundação Nacional de Artes – Funarte, co-editado com a Bem-Te-Vi Produções Literárias, e impresso na Sermograf – Artes Gráficas e Editora, em Petrópolis-RJ, no quarto trimestre de dois mil e seis, com arquivos digitais fornecidos pela Funarte.

E num parágrafo do texto da própria Bem-Te-Vi Produções Literárias, intitulado RPM: teor de documento e prazer do texto: “Ao co-editá-la agora com a Funarte, estamos dando continuidade a uma das nossas linhas editoriais de preferência, que é a da recuperação e do registro da memória cultural brasileira, como atestam nossos Diários, de Joaquim Nabuco (1883-1910), e a Correspondência entre Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade (1924-1945)”.

Fundação Nacional de Artes – Funarte: Rua da Imprensa, 16 – Centro – 20030-120 – Rio de Janeiro – RJ. Tel: (21) 2279-8053 / (21) 2262-8070. numep@funarte.gov.br.
Produção Editorial: José Carlos Martins. Produção Gráfica: João Carlos Guimarães. Assistentes Editoriais: Naduska Mário Palmeira e Sonia Pinto. Projeto Gráfico e Capa: José Carlos Martins. Arte-Final Digital: Carlos Alberto Rios e Robson Lima. Ilustrações: Lan (Cedidas gentilmente – páginas 14, 15 e 4ª capa). Supervisão do Índice: Suzana Martins. Digitalização de Imagens: Daniela Camargo. Gerência Operacional/Centro de Programas Integrados: Anagilsa Franco, Adriana Machado e Roberta Castro.

 

Bem-Te-Vi Produções Literárias – Av. Presidente Wilson, 231 –10º andar – Centro – 20230-021 – Rio de Janeiro – RJ –Tel: (21) 3804-8678. bem-te-vi@bem-te-vi.net
Editoras Responsáveis: Vivi Nabuco e Lucia Almeida Braga. Editora Executiva: Lélia Coelho Frota. Assessor Especial: Fernando Pedreira. Assessoria Jurídica: Manoel Nabuco. Conselho Consultivo da Bem-Te-Vi: Anna Letycia, Armando Feitas Filho, Gilberto Velho, Luiz Paulo Horta, Márcio Carneiro, Moacir Werneck de Castro, Ricardo Cravo Albin, Sérgio Augusto, Sérgio Rodrigues e Silviano Santiago.

 

 

 

 

Na edição nº 11 (novembro/dezembro 1955), da Revista da Música Popular, nas páginas 12 e 13 do exemplar, e nas págs. 572 e 573 do livro da coleção, Cruz Cordeiro escreveu o excelente artigo “PROBLEMAS DUM “SHOW” FOLCLÓRICO”, transcrito a seguir na íntegra:

“A Conferência Mundial da Energia, na sua Reunião Parcial do Rio de Janeiro (julho-agosto de 1954), tinha programado, na sua parte social, um “Espetáculo de Folk-lore na boite do hotel Quitandinha”, em Petrópolis. Fazíamos parte da equipe de tradutores e correspondentes do Comitê brasileiro, realizador do certame, e, visto que nossos chefes vieram a saber que entendíamos algo do assunto, ficamos encarregados da organização do “show” folclórico anunciado”.

“Logo nos opusemos a qualquer exibição do que hoje, em nosso meio rádio-discográfico, se chama de “cartazes”, pois de folclore nada daí podia sair além do risco de oferecermos ao estrangeiro uma versão melhor ou pior do que já se conhecia de “boites”, rádios e teatros mais ou menos convencionais e padronizados em qualquer lugar”.

“Com efeito aqueles ilustres engenheiros e cientistas que, das mais diversas e variadas partes de todo o mundo – da Índia como da Rússia, da Grécia como da Islândia, do Egito como dos Estados Unidos, da Inglaterra como do Japão – só podiam querer conhecer, de fato, arte do nosso povo, do nosso próprio país”

“Recorremos, então, a uns velhos conhecidos, que sabíamos enfronhados no assunto, Waldomiro Machado e Láudio José, os quais desgarrados do antigo e sensacional “Teatro Folclórico Brasileiro” (Rio, 1949), fundavam o “Grupo Brasileiro de Arte Popular”, então em ensaios preparatórios. Inteiramente à vontade, assistimos, primeiramente, a diversos ensaios. E com a experiência que já tínhamos do assunto, não nos foi difícil observar, através daquele grupo de artistas 100% nativos, e seu corpo de baile negro e mestiço, o seguinte:”

“1. Por ser mais rica, atual e popular, o elemento da folcmúsica afro-brasileira predominará, por enquanto, pelo menos, em qualquer espetáculo folclórico brasileiro”.

“2. Há uma arte espontânea e criadora na população mestiça e de cor em nosso país (arte ignorada e impraticável pelos brancos), a qual deseja interpretar, além disso, manifestações folclóricas brasileiras outras: autos, reisados, frêvo, côco, baião, modinha, lundus, etc., tal como vimos no seio do próprio “Grupo” em questão”.

“3. Há um amor e consciência perfeitos pelos nossos temas originais de folclore em tal população, inclusive no seio do nosso povo anônimo, cujos elementos apareciam no “Grupo” em apreço ao menor anúncio de jornal, revelando talentos excepcionais”.

“4. Sem conhecimentos técnicos do “ballet” profissional dos brancos, clássico ou acadêmico, do “ballet” convencional, enfim, nossos artistas do povo têm uma escola própria e original, na qual só falta a parte de ginástica física tecnicamente orientada, sendo prejudicial para arte deles, não só a técnica como as criações do “ballet” clássico (convencional ou internacional), do mesmo modo que qualquer intromissão da técnica da música culta ou erudita, inclusive no seu instrumental ou percussão.”

“Com efeito, vimos, por exemplo, que a intromissão de professor de “ballet” convencional em agrupamentos autênticos de arte popular como esse, desnorteia seus elementos, tira dêles a naturalidade, e a graça, além de sofisticar e “estandardizar” o espetáculo até o seu completo desinterêsse. Assim, então, o que é preciso é saber-se os fundamentos para um “ballet” de fato folclórico, isto é, baseado em princípios dêle próprio e não encaixados nele ou a ele estranhos”.

“O mesmo se dá na parte rítmica e musical. Vimos a simples intromissão dum cavaquinho, num dos ensaios, desnortear e transtornar a notável marcação de atabaques, dança e côro num samba e num côco. Se fôr o caso duma orquestra qualquer querendo acompanhar, então o desastre será o mais completo possível, ninguém mais se entendendo no côro, na dança ou na marcação”.

“Com tais observações e experiência, foi fácil para nós darmos, pro “Grupo”, as diretrizes pro “show” do Congresso na “big boite” de Quitandinha”:

“a) Feita a necessária minutagem, pois que há tendência para uma monótona e indefinida repetição em folclore, os números escolhidos ficariam entregues aos diretores e artistas do “Grupo Brasileiro de Arte Popular”, que ficaram inteiramente à vontade em suas criações, ensaios e até improvisações. A improvisação, como no “jazz” do negro norte-americano, é um dos talentos e privilégios desses nossos artistas populares”.

“b) Foi estabelecida a eliminação de qualquer instrumento musical pròpriamente dito, de corda ou sopro, nos seus números baseados apenas em ritmo e percussão , de dança e côro ou vozes. De fato, só pro frêvo (com a notável bailarina negra Fausta da Conceição), admitimos o instrumental metálico apropriado sob a regência do maestro Kolman, dos áureos tempos do Cassino da Urca (Rio), e que estava também em Quitandinha. Foi o mesmo maestro, ainda, que nos forneceu instrumental apropriado pro número final de Carnaval, com várias gradações de marchas populares em apoteose final”.

“c) Pras “cortinas”, inevitável em espetáculos como esse, admitimos algumas apresentações pròpriamente populares (trio vocal Tamoio e a acordeonista Jacira Guedes da Rosa), além dum mais característico: o maracatu “Calunga”, de Capiba, cantado por Oswaldo Santos (bela voz quente e abaritonada) com encenação, ritmo e côro”

“Outro ponto que observamos foi o do guarda-roupas, dos figurinos do “show”. Deixamos ao inteiro critério dos diretores e artistas do “Grupo”. E aqui, mais um vez, notamos como o espírito de arte folclórica ou popular se distancia dos guarda-roupas ou indumentárias dos “shows” de “boites” ou de teatros de revista musicada, tipo norte-americano ou parisiense mais ou menos internacionalizados hoje. Nossos artistas não perdem, com todas as fantasias que eles próprios engendram, aquêles característicos de simplicidade e de autenticidade que definem bem o folclore. Veja-se, por exemplo, nas ilustrações destas notas, a verossimilhança da fantasia dêles no “cocô-baião” autêntico que trouxeram lá das bandas de Sergipe e Alagoas. O mesmo se pode dizer do “samba-capoeira” com a roda do côro e as disputas dos sambistas de morro. A cenarização do Carnaval carioca, por outro lado, não foi menos feliz”.

“Existe, pois, um vasto campo a ser estudado, cientificamente, para fundação real, efetiva e técnica da arte do povo brasileiro na sua mais legítima e autêntica expressão, fora do espírito “boitístico” ou de rádio que, no momento, desordenadamente impera em nosso populário. Podemos reafirmar isto ainda agora aqui, diante do pleno êxito alcançado pelo “show” folclórico do Congresso Mundial da Energia a que nos referimos, através de impressões que, no dia seguinte ao espetáculo, tivemos ocasião de colhêr, direta ou indiretamente, dos participantes da Conferência que, sem qualquer exclusão, tinham comparecido em sua totalidade ao referido “show””.

Observação: A foto acima, escolhida por Cruz Cordeiro na época para ilustrar a sua seção na Revista da Música Popular, não foi uma foto feliz para ser afixada na seção de sua competência.