Na edição nº 11 (novembro/dezembro 1955),
da Revista da Música
Popular, nas páginas 12 e 13 do exemplar, e nas págs.
572 e 573 do livro da coleção,
Cruz Cordeiro escreveu o excelente artigo “PROBLEMAS
DUM “SHOW” FOLCLÓRICO”, transcrito a
seguir na íntegra:
“A Conferência Mundial da Energia, na sua Reunião
Parcial do Rio de Janeiro (julho-agosto de 1954), tinha programado,
na sua parte social, um “Espetáculo de Folk-lore na boite
do hotel Quitandinha”, em Petrópolis. Fazíamos parte
da equipe de tradutores e correspondentes do Comitê brasileiro,
realizador do certame, e, visto que nossos chefes vieram a saber que
entendíamos algo do assunto, ficamos encarregados da organização
do “show” folclórico anunciado”.
“Logo nos opusemos a qualquer exibição do que hoje,
em nosso meio rádio-discográfico, se chama de “cartazes”,
pois de folclore nada daí podia sair além do risco de
oferecermos ao estrangeiro uma versão melhor ou pior do que já
se conhecia de “boites”, rádios e teatros mais ou
menos convencionais e padronizados em qualquer lugar”.
“Com efeito aqueles ilustres engenheiros e cientistas que, das
mais diversas e variadas partes de todo o mundo – da Índia
como da Rússia, da Grécia como da Islândia, do Egito
como dos Estados Unidos, da Inglaterra como do Japão –
só podiam querer conhecer, de fato, arte do nosso povo, do nosso
próprio país”
“Recorremos, então, a uns velhos conhecidos, que sabíamos
enfronhados no assunto, Waldomiro Machado e Láudio José,
os quais desgarrados do antigo e sensacional “Teatro Folclórico
Brasileiro” (Rio, 1949), fundavam o “Grupo Brasileiro de
Arte Popular”, então em ensaios preparatórios. Inteiramente
à vontade, assistimos, primeiramente, a diversos ensaios. E com
a experiência que já tínhamos do assunto, não
nos foi difícil observar, através daquele grupo de artistas
100% nativos, e seu corpo de baile negro e mestiço, o seguinte:”
“1. Por ser mais rica, atual e popular, o elemento da folcmúsica
afro-brasileira predominará, por enquanto, pelo menos, em qualquer
espetáculo folclórico brasileiro”.
“2. Há uma arte espontânea e criadora na população
mestiça e de cor em nosso país (arte ignorada e impraticável
pelos brancos), a qual deseja interpretar, além disso, manifestações
folclóricas brasileiras outras: autos, reisados, frêvo,
côco, baião, modinha, lundus, etc., tal como vimos no seio
do próprio “Grupo” em questão”.
“3. Há um amor e consciência perfeitos pelos nossos
temas originais de folclore em tal população, inclusive
no seio do nosso povo anônimo, cujos elementos apareciam no “Grupo”
em apreço ao menor anúncio de jornal, revelando talentos
excepcionais”.
“4. Sem conhecimentos técnicos do “ballet”
profissional dos brancos, clássico ou acadêmico, do “ballet”
convencional, enfim, nossos artistas do povo têm uma escola própria
e original, na qual só falta a parte de ginástica física
tecnicamente orientada, sendo prejudicial para arte deles, não
só a técnica como as criações do “ballet”
clássico (convencional ou internacional), do mesmo modo que qualquer
intromissão da técnica da música culta ou erudita,
inclusive no seu instrumental ou percussão.”
“Com efeito, vimos, por exemplo, que a intromissão de professor
de “ballet” convencional em agrupamentos autênticos
de arte popular como esse, desnorteia seus elementos, tira dêles
a naturalidade, e a graça, além de sofisticar e “estandardizar”
o espetáculo até o seu completo desinterêsse. Assim,
então, o que é preciso é saber-se os fundamentos
para um “ballet” de fato folclórico, isto é,
baseado em princípios dêle próprio e não
encaixados nele ou a ele estranhos”.
“O mesmo se dá na parte rítmica e musical. Vimos
a simples intromissão dum cavaquinho, num dos ensaios, desnortear
e transtornar a notável marcação de atabaques,
dança e côro num samba e num côco. Se fôr o
caso duma orquestra qualquer querendo acompanhar, então o desastre
será o mais completo possível, ninguém mais se
entendendo no côro, na dança ou na marcação”.
“Com tais observações e experiência, foi fácil
para nós darmos, pro “Grupo”, as diretrizes pro “show”
do Congresso na “big boite” de Quitandinha”:
“a) Feita a necessária minutagem, pois que há tendência
para uma monótona e indefinida repetição em folclore,
os números escolhidos ficariam entregues aos diretores e artistas
do “Grupo Brasileiro de Arte Popular”, que ficaram inteiramente
à vontade em suas criações, ensaios e até
improvisações. A improvisação, como no “jazz”
do negro norte-americano, é um dos talentos e privilégios
desses nossos artistas populares”.
“b) Foi estabelecida a eliminação de qualquer instrumento
musical pròpriamente dito, de corda ou sopro, nos seus números
baseados apenas em ritmo e percussão , de dança e côro
ou vozes. De fato, só pro frêvo (com a notável bailarina
negra Fausta da Conceição), admitimos o instrumental metálico
apropriado sob a regência do maestro Kolman, dos áureos
tempos do Cassino da Urca (Rio), e que estava também em Quitandinha.
Foi o mesmo maestro, ainda, que nos forneceu instrumental apropriado
pro número final de Carnaval, com várias gradações
de marchas populares em apoteose final”.
“c) Pras “cortinas”, inevitável em espetáculos
como esse, admitimos algumas apresentações pròpriamente
populares (trio vocal Tamoio e a acordeonista Jacira Guedes da Rosa),
além dum mais característico: o maracatu “Calunga”,
de Capiba, cantado por Oswaldo Santos (bela voz quente e abaritonada)
com encenação, ritmo e côro”
“Outro ponto que observamos foi o do guarda-roupas, dos figurinos
do “show”. Deixamos ao inteiro critério dos diretores
e artistas do “Grupo”. E aqui, mais um vez, notamos como
o espírito de arte folclórica ou popular se distancia
dos guarda-roupas ou indumentárias dos “shows” de
“boites” ou de teatros de revista musicada, tipo norte-americano
ou parisiense mais ou menos internacionalizados hoje. Nossos artistas
não perdem, com todas as fantasias que eles próprios engendram,
aquêles característicos de simplicidade e de autenticidade
que definem bem o folclore. Veja-se, por exemplo, nas ilustrações
destas notas, a verossimilhança da fantasia dêles no “cocô-baião”
autêntico que trouxeram lá das bandas de Sergipe e Alagoas.
O mesmo se pode dizer do “samba-capoeira” com a roda do
côro e as disputas dos sambistas de morro. A cenarização
do Carnaval carioca, por outro lado, não foi menos feliz”.
“Existe, pois, um vasto campo a ser estudado, cientificamente,
para fundação real, efetiva e técnica da arte do
povo brasileiro na sua mais legítima e autêntica expressão,
fora do espírito “boitístico” ou de rádio
que, no momento, desordenadamente impera em nosso populário.
Podemos reafirmar isto ainda agora aqui, diante do pleno êxito
alcançado pelo “show” folclórico do Congresso
Mundial da Energia a que nos referimos, através de impressões
que, no dia seguinte ao espetáculo, tivemos ocasião de
colhêr, direta ou indiretamente, dos participantes da Conferência
que, sem qualquer exclusão, tinham comparecido em sua totalidade
ao referido “show””.
Observação: A foto acima,
escolhida por Cruz Cordeiro na época para ilustrar a sua seção
na Revista da Música Popular, não foi uma foto feliz para
ser afixada na seção de sua competência.