Poucos autores dessa nova geração se iniciam
e se propagam de forma tão ampla e aberta para o exterior, sendo
traduzida sua obra inicial, e consagrado quase geralmente pela crítica
mais severa do seu país.
Cruz Cordeiro, que publicou em 1939 sua primeira obra “Uma Sombra
Que Desce”, já em 1942 vê sua tradução
para o espanhol editada pela importante Editorial Araújo Argentina,
e a imprensa aceitando, com o mesmo entusiasmo na edição
espanhola, de forma idêntica a verificada no Brasil, o livro de
estréia nas letras desse alto valor da juventude brasileira.
Se bem que a personalidade de Cruz Cordeiro já fosse conhecida,
em virtude de seus trabalhos, publicados nas mais importantes publicações
do Rio e de São Paulo, particularmente uma série de ensaios
filológicos publicados pelo semanário “Dom Casmurro”
do Rio de Janeiro, evidencia-se uma personalidade dedicada e severa,
não somente no idioma, como também no conceito filosófico
e humanístico da vida atual.
Entre as opiniões mais autorizadas, devemos consignar a de Mário
de Andrade, que o compara com Cronnin, por suas agudas concepções
psicológicas, e o que constitui já uma opinião
digna de ser levada em conta, pois que da noite para o dia, o jovem
escritor adquire uma personalidade de cotejo com os maiores autores
de nosso tempo. Outras opiniões, como a de Alfonso Hernandez
Cata, ainda nos diz que seu livro é “uma das obras mais
destacadas de nosso tempo”, opinião de um mestre na novela,
na qual se pode considerar como um dos valores mais penetrantes e ricos
em matizes e profundezas espirituais.
Muitas outras opiniões poderíamos ainda evidenciar, como
as de Antônio Constantino, Lucia Miguel Pereira, Tristão
de Ataíde e Araújo Nabuco, todas elas encomiosas e promissoras,
relativamente ao merecimento do jovem novelista.
Na versão castelhana sua novela tem o título de “Peregrinos
Del Dolor” e, com efeito por seu realismo cru, pela espantosa
tragédia vivida pelo protagonista, é na realidade uma
triste e desolada peregrinação, na qual surge a figura
doente e acabrunhada de um enfermo que, não tendo nada mais do
que um princípio de aguda neurose, é levado pelos médicos,
com seus pedantescos e falsos exames, a ser um triste e perpétuo
número de hospital.
O estilo de Cruz Cordeiro, frio, esquemático, quase diálogo
puro, nos vai mostrando, em cenas quase cinematográficas, o triste
calvário de um homem que, por ser simples e sem uma vontade forte
capaz de se opor ao labor dos charlatões da medicina, oferece
seu corpo e sua bondade à fria e volúvel ação
de um facultativo que, para não passar por ignorante age a custa
de um pobre ser sem forças para reagir diante do diplomado.
Livro doloroso, que nos deixa no coração uma tristeza
infinita, ao mesmo tempo que o sentimento de muita violência.
É tanta a paixão e a realidade fixada nas suas páginas
que o lemos de um só fôlego, para saber, finalmente, até
onde chega a maldade e a suficiência dos homens...
Esperemos uma nova obra de Cruz Cordeiro, pois quando um autor se inicia
dessa maneira tão cabal e penetrante no mundo que o circunda,
essa nova produção nos enche de interesse, para ver até
onde chegou sua penetração dentro das multidões,
pois a atmosfera de “Peregrino Del Dolor” é um rico
presente, do qual devemos esperar obras consagratórias e definitivas.
Como tradutor para o espanhol dessa feliz promessa, não me é
permitido dizer mais do que já disse no prefácio da tradução.
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No Jornal Dom Casmurro, de 10.06.1939,
o crítico literário da época Wilson de A. Lousada,
na seção O Livro Nacional, fez uma extensa, inspirada
e pungente crítica, transcrita a seguir na íntegra:
“Uma agradável surpresa literária este romance do
Sr. Cruz Cordeiro. Depois de tantas histórias sociológicas
e descritivas; depois de tão profundos mergulhos introspectivos
em busca de Deus, aparece-nos um livro cheio de realismo e vigor. É
uma pausa entre as narrativas fatigantes do nordeste, com suas misérias
econômicas, sociais e políticas, e o panorama denso e espesso
dos romances subjetivos, à Dostoiewsky e à Proust. É
necessário, todavia, frisar que não estamos contra essas
duas modalidades de romance. Todos os seus valores, entre nós,
permanecem integrais, autênticos, realmente indispensáveis
ao estudo das diversas correntes em que se dividiu o moderno romance
brasileiro. Queremos dizer, apenas, que “Uma Sombra que Desce”
proporciona um repouso, um estado de reação contra o esgotamento
progressivo da nossa capacidade de assimilar esses temas do homem em
luta com a terra, com o próprio homem ou com o espírito
negativo do mal, que se alastra pelo mundo. O romance do Sr. Cruz Cordeiro,
aliás, não representa um estado de ânimo otimista
do autor, nem as criaturas que nele vivem são mais felizes, mais
despreocupadas ou mais puras que alguns tipos literários já
fixados em nossa imaginação ou nas páginas de um
Érico Veríssimo, Geraldo Vieira, Marques Rebelo, Lins
do Rego ou Graciliano Ramos. Pelo contrário. Há um mundo
de amarguras e sofrimentos em todos os seres do livro. Parece que todos
eles esperam, cheios de angústia, que a sombra, a grande sombra
venha descendo sobre seus olhos cansados e implorativos. Jorge, Elza,
Albuquerque, Jônatas, são as figuras isoladas do que há
de trágico no romance. Cada um dele representa um pouco desse
imenso fatalismo que envolve todo o ambiente do livro. Parecem vidas
arrastadas, confundidas na mesma engrenagem de sofrimento e desespero.
Vidas que se estiolam, que se debatem, que vão aos poucos desaparecendo
sob o lento caminhar da sombra que desce. Que está sempre próxima
de nós, que nos sufoca, que nos põe nos olhos uma luz
diferente de calma resignação, ou de irremediável
e inútil amargura. Que o homem nunca afasta inteiramente de si.
Mas que procura recalcar no fundo da memória. Esmagando, dominando
o medo primitivo e cheio de visões terríveis que nem mesmo
a serenidade religiosa consegue apagar em seu espírito. E essa
dolorosa tristeza que impregna todo o ambiente do romance, que vai de
página em página acompanhando o sofrimento físico
de Jorge pelos hospitais, parece também revelar uma intensa experiência
do próprio autor. O livro foi escrito e vivido, profundamente,
dramaticamente. Não procuramos saber se foi “por completo”,
isto é, na realidade. A maneira incisiva usada pelo romancista
na composição das cenas e dos capítulos; a linguagem
direta, clara, sem rodeios que obscureçam o pensamento do escritor,
tudo revela uma história contada sem artifícios e com
um mínimo de recursos literários. O romance não
tem mesmo quase literatura. É todo ele essencialmente objetivo,
prático, imediato. O Sr. Cruz Cordeiro não usa abstrações,
não compõe o livro à maneira dos romancistas hábeis,
conhecedores de todas as sutilezas do gênero. Desta ausência
de literatura, decorrem todos os defeitos e qualidades do livro. Mais
qualidades do que defeitos. Sóbrio na linguagem, na ação
do romance, no perfil psicológico dos personagens, o Sr. Cruz
Cordeiro perde-se, às vezes, em minúcias, em detalhes
mais ou menos técnicos sobre uma transfusão de sangue,
um curativo pós-operatório, etc. Sacrifica , assim, o
ambiente psicológico, humano, ao ambiente descritivo, ao cenário
onde se desenrolam as fundas misérias da luta contra a morte.
Não se pode dizer que “Uma Sombra que Desce” seja
um romance de grande unidade literária de composição
densa e cerrada como um só bloco de vida, visto em todas as suas
dimensões. Mas é um livro de revolta, de pungente revolta
contra as sórdidas mistificações dos homens que
se propuseram a lutar pela vida de todas as criaturas. Não desfigura
a realidade do que todos nós podemos constatar”.
“Para uma crítica simplesmente literária, que investigasse
processos de composição, firmeza psicológica do
escritor, densidade dos personagens, “Uma Sombra que Desce”
daria, talvez, motivo para algumas censuras. O romance não chega
a fixar verdadeiros episódios. Não deixa no leitor a marca
significativa do tempo, do tempo que é uma preocupação
constante no homem que nunca pode parar, que está sempre em movimento,
caminhando para o fim de todas as suas lutas e inquietações.
O romance é feito de cenas, de quadros que se acumulam uns sobre
os outros. Dá mesmo a impressão dos recursos cinematográficos.
É um filme vivo, humano, cheio de cenas banais e simples que
acontecem na vida de todos nós. Jorge no consultório do
Dr. Mercúrio, Jorge em Teresópolis. Jorge no consultório
do Dr. Cardoso, no hospital, na mesa de operações. A ação
do livro passa-se quase toda nos ambientes médicos. E assistimos,
então, vagamente inquietos, ao lento evoluir daquela misteriosa
enfermidade, que vai destruindo as energias do personagem central, o
que o vai tornando cada vez mais apático, mais um joguete do
seu corpo doente e dos médicos que não sabiam curá-lo,
que dele faziam apenas um ótimo campo de análises e experiências.
É um drama silencioso, cortado de desespero, de dúvidas,
de esperanças logo malogradas. Drama que é mais vivido
que mesmo descrito sob a luz forte das análises interiores. O
Sr. Cruz Cordeiro não desenrola panoramas introspectivos. Sua
psicologia é mais exterior, mais superficial. Não se desdobra
ao infinito, não desce às análises intensamente
cerebrais, que recentemente, Edmond Jaloux afirmava estar prejudicando,
por excessiva, o romance moderno em todo o mundo. Os personagens do
Sr. Cruz Cordeiro são bem humanos e vivos. Porém, muitos
se perdem, são como que absorvidos pelo drama central, fazem
de simples figurantes. Mas isto pelo vigor dos traços com que
o romancista quis desenhar o seu tipo mais bem composto – Jorge.
Este, na sua luta silenciosa, sacudido e violentado por tantos golpes,
chega a perder um pouco das sensações do homem que pensa,
que vibra, que se emociona ao mesmo tempo em que se vê caminhando
para um fim próximo, empurrado por mãos invisíveis
e más. O destino transformou-o numa criatura que parece não
raciocinar. Ele é apenas um enfermo, um corpo doente retalhado
pelo bisturi, revolvido pela psicanálise, torturado pelos doutores
e por si mesmo. Pois não seria menor a sua luta íntima,
que pouco percebemos. Há momentos em que a criatura se vê
pequenina e humilde, desamparada e sozinha em face do mundo. Perto bem
perto caminham e falam e se agitam outros seres, outros desejos, outras
ambições, outras esperanças. O enfermo desdobra-se
em duas vidas: pertence a si mesmo e à doença, e pertence
aos outros que ali estão, à esposa, ao filho, ao pai.
Laços invisíveis unem seus pensamentos. Mas a solidão
parece maior e mais funda. Em Jorge, por exemplo, não sentimos
a presença carinhosa de Elza, sempre amiga e constante. Ele como
que se isola num grande egoísmo que tem muito de apatia, de indiferença.
Egoísmo natural num corpo enfermo, num espírito envolvido
pela solidão, pelo vazio das longas noites de insônia e
delírio em que só os gritos de sofrimento ou os ruídos
de um batuque lhe faziam companhia. Por um momento, por um rápido
instante a solidão desaparece. Albuquerque estava morto. Nunca
mais voltaria ao hospital, nunca mais sua figura tranqüila encheria
a meia luz do quarto triste. Uma dor maior aniquila o seu isolamento,
o silêncio que vivia nele. Esse é talvez o único
momento em que o romancista estabelece um verdadeiro laço entre
Jorge e os outros personagens. Laço mais forte que as misérias
do corpo. Absorvido, apaixonado pela sua criatura principal, o Sr. Cruz
Cordeiro deixou um pouco de sombra, excetuando-se Dr. Péricles
e Elza, as demais figuras do livro. O romancista vive no seu personagem,
dá-lhe toda a força de suas qualidades mais vivas. Entretanto,
mesmo essa redução de perfis a um só, não
consegue prejudicar a beleza da obra vista em conjunto. O romance está
assentado em bases sólidas. Suas imperfeições não
diminuem o talento do autor. Pelo contrário. Dão-nos a
certeza de que ele ainda poderá ir além do que já
atingiu...”