7 - O ROMANCISTA

(1938)

Cruz Cordeiro escreveu o seu romance “Uma Sombra Que Desce”, durante a fase de recuperação da sua saúde já numa residência alugada no Leblon, por sugestão de sua dedicada companheira e ex-enfermeira Angelita. O parceiro falava com freqüência sobre as experiências sofridas desde o surgimento da doença até a descoberta da sua verdadeira causa.

Abaixo, fotos de Cruz Cordeiro durante a sua convalescença no ambiente doméstico, escrevendo o seu romance “Uma Sombra que Desce” sobre uma mesa improvisada, tendo ao lado na 1ª foto a sua querida, dedicada e incentivadora companheira Angelita.
O livro foi prefaciado pela amiga Cordélia de Angelita, de Correias, com o texto datado de 19 de Junho de l938.

PREFÁCIO

“Angelita”,

“a leitura do livro do Sr Cordeiro, deixou-me uma impressão funda, dolorida, porque desde o primeiro encontro com Jorge, naquela manhã de súbita e inexplicável angústia, acompanhei-o interessadamente na peregrinação estafante e inútil por todos os consultórios, todos os médicos, todas as operações, vivendo com ele e com Elza – esse tipo magnificamente vivido nas páginas do romance – as dolorosas peripécias desses meses de sofrimento e de dor...”

“Não lhe posso esconder que, vezes sem conta, chorei amargurada pelo sofrimento vivo que essas duzentas e tantas páginas nos fazem sentir. Que livro humano ! Que livro real ! E que livro belo, apesar de doloroso – e talvez por isso mesmo – é esse romance ! Imagino que seu sucesso será uma grande recompensa ao trabalho do sr. Cordeiro. Porque estou absolutamente convencida de que será um livro de grande sucesso, vivendo um assunto diferente, original, descrito tão ao vivo, com tanta singeleza, ao alcance de qualquer mentalidade, mas com o poder extraordinário de nos fazer vibrar, sofrer, acompanhando essa vítima indefesa das prepotências do Destino...”

“Magníficos os capítulos: “Psicanálise”, “Bisturi”, “Insônia”, “Dor” e “Chateação”... “Psicanálise”, parecerá forçado, um tanto absurdo, para quem não enfrentou nunca um médico psicanalista. Mas eu enfrentei, e, por isso mesmo, pude ainda verificar o maravilhoso poder de interpretação do sr.Cordeiro”.

“Um único senão, que pode ser interpretado como puritanismo ou preconceito passadista, é uma ou outra expressão mais crua que eu modificaria si estivesse encarregada de o fazer... Mais nada. Tudo tão bom ! Tão natural ! Que até é difícil escolher páginas.”

“Você está encarregada de transmitir ao sr. Cordeiro, os meus cumprimentos pelo seu trabalho, que eu não acredito ser uma estréia. É bem verdade que minha opinião nada vale, pois represento, no caso, a mentalidade medíocre que procura no livro apenas o desfecho. Aliás eu sei bem do intuito seu, ao me mandar os originais desse romance: procurar me distrair um pouco do estado de atordoamento em que andei. De qualquer jeito, sou-lhes muita grata pelas horas agradáveis e sentidas que me proporcionaram”.

“Sua Cordélia”.


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Pela editora paulista Cultura Moderna, com seu nome literário CRUZ CORDEIRO , foi publicado “Uma Sombra que Desce”, romance que obteve grande êxito logo ao sair em 1939, havendo sido, posteriormente (1942) traduzido por Bráulio Sánches Saéz em espanhol, e editado na Argentina pela Editorial Araújo (Buenos Aires), na sua “Colección Universal”, com o título de “Peregrinos Del Dolor”.

São os seguintes os capítulos do livro: I – Nervosismo. II – Fígado. III – Injeções. IV – Dentes. V – Nutrição. VI – Esquizofrenia. VII – Amídalas. VIII – Psicanálise. IX – Febre. X – Bisturi. XI – Delírio. XII – Enfermeiras, médicos XIII – Pus. XIV – Perna Quebrada. XV – Diatermia. XVI – Insônia. XVII – Visitas. XVIII – Bíblia. XIX – Um novo médico. XX – Dor. XXI – Coruja. XXII – Dinheiro. XXIII – O Professor. XXIV – Laboratório. XXV – Transfusão de Sangue. XXVI – Chateação. XXVII – Mais um Diagnóstico. XXVIII – O Último Médico. XXIX – Solidão.


No capítulo X, “Bisturi”, nos 3 (três) primeiros parágrafos, a descoberta da verdadeira causa do estado doentio prolongado do paciente, depois de muitas operações e diagnósticos médicos equivocados:

“ - Vamos”

“A ordem era enérgica, decidida, embora a voz fosse de mulher. A enfermeira do Dr. Péricles acabava de encostar o carrinho branco ao lado da cama de Jorge no quarto 10 do Hospital-de-Cirurgia. A outra cama do quarto era para Elza. Juntando a palavra à ação, a enfermeira, resoluta, toma o doente nos braços, qual uma criança enorme. Ele se deixa carregar, mole, sem vontade, os braços, as pernas, pendentes”.

“Tinha chegado fraquíssimo ao hospital. Deram-lhe uma injeção para que dormisse bem. Agora ia ser operado. Ao meio dia do dia seguinte à sua chegada. Até esse momento mal percebia que se transportava para sofrer nova operação. Desta vez em lugar bem diferente, bem distante do da primeira. As suas nádegas tinham virado panelas de pus durante os dias de febre. O enorme abscesso vinha afinal, e por si mesmo, a furo”.

“Dr. Péricles ao examinar Jorge, que fora penosamente levado a seu consultório, pelo pai e por Elza, dissera:”

“- É um abscesso alto, interno, abraçando o reto, pelo cóccix, em forma de ferradura... Já rebentou. Perfurou o reto. É tarde para operar. Não me entusiasma fazer uma operação. Em todo caso levem ele para o Hospital-de-Cirurgia, onde opero. Lá veremos o que fazer.”

 

Abaixo, o Jornal Dom Casmurro, de 15 de julho de 1944, referindo-se ao lançamento do romance Uma Sombra que Desce na Argentina, com o título de “Peregrinos Del Dolor”. O artigo publicado é do próprio tradutor da obra para o espanhol Bráulio Sánchez Sáez.

Poucos autores dessa nova geração se iniciam e se propagam de forma tão ampla e aberta para o exterior, sendo traduzida sua obra inicial, e consagrado quase geralmente pela crítica mais severa do seu país.

Cruz Cordeiro, que publicou em 1939 sua primeira obra “Uma Sombra Que Desce”, já em 1942 vê sua tradução para o espanhol editada pela importante Editorial Araújo Argentina, e a imprensa aceitando, com o mesmo entusiasmo na edição espanhola, de forma idêntica a verificada no Brasil, o livro de estréia nas letras desse alto valor da juventude brasileira.

Se bem que a personalidade de Cruz Cordeiro já fosse conhecida, em virtude de seus trabalhos, publicados nas mais importantes publicações do Rio e de São Paulo, particularmente uma série de ensaios filológicos publicados pelo semanário “Dom Casmurro” do Rio de Janeiro, evidencia-se uma personalidade dedicada e severa, não somente no idioma, como também no conceito filosófico e humanístico da vida atual.

Entre as opiniões mais autorizadas, devemos consignar a de Mário de Andrade, que o compara com Cronnin, por suas agudas concepções psicológicas, e o que constitui já uma opinião digna de ser levada em conta, pois que da noite para o dia, o jovem escritor adquire uma personalidade de cotejo com os maiores autores de nosso tempo. Outras opiniões, como a de Alfonso Hernandez Cata, ainda nos diz que seu livro é “uma das obras mais destacadas de nosso tempo”, opinião de um mestre na novela, na qual se pode considerar como um dos valores mais penetrantes e ricos em matizes e profundezas espirituais.

Muitas outras opiniões poderíamos ainda evidenciar, como as de Antônio Constantino, Lucia Miguel Pereira, Tristão de Ataíde e Araújo Nabuco, todas elas encomiosas e promissoras, relativamente ao merecimento do jovem novelista.

Na versão castelhana sua novela tem o título de “Peregrinos Del Dolor” e, com efeito por seu realismo cru, pela espantosa tragédia vivida pelo protagonista, é na realidade uma triste e desolada peregrinação, na qual surge a figura doente e acabrunhada de um enfermo que, não tendo nada mais do que um princípio de aguda neurose, é levado pelos médicos, com seus pedantescos e falsos exames, a ser um triste e perpétuo número de hospital.

O estilo de Cruz Cordeiro, frio, esquemático, quase diálogo puro, nos vai mostrando, em cenas quase cinematográficas, o triste calvário de um homem que, por ser simples e sem uma vontade forte capaz de se opor ao labor dos charlatões da medicina, oferece seu corpo e sua bondade à fria e volúvel ação de um facultativo que, para não passar por ignorante age a custa de um pobre ser sem forças para reagir diante do diplomado.

Livro doloroso, que nos deixa no coração uma tristeza infinita, ao mesmo tempo que o sentimento de muita violência. É tanta a paixão e a realidade fixada nas suas páginas que o lemos de um só fôlego, para saber, finalmente, até onde chega a maldade e a suficiência dos homens...

Esperemos uma nova obra de Cruz Cordeiro, pois quando um autor se inicia dessa maneira tão cabal e penetrante no mundo que o circunda, essa nova produção nos enche de interesse, para ver até onde chegou sua penetração dentro das multidões, pois a atmosfera de “Peregrino Del Dolor” é um rico presente, do qual devemos esperar obras consagratórias e definitivas.

Como tradutor para o espanhol dessa feliz promessa, não me é permitido dizer mais do que já disse no prefácio da tradução.

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No Jornal Dom Casmurro, de 10.06.1939, o crítico literário da época Wilson de A. Lousada, na seção O Livro Nacional, fez uma extensa, inspirada e pungente crítica, transcrita a seguir na íntegra:


“Uma agradável surpresa literária este romance do Sr. Cruz Cordeiro. Depois de tantas histórias sociológicas e descritivas; depois de tão profundos mergulhos introspectivos em busca de Deus, aparece-nos um livro cheio de realismo e vigor. É uma pausa entre as narrativas fatigantes do nordeste, com suas misérias econômicas, sociais e políticas, e o panorama denso e espesso dos romances subjetivos, à Dostoiewsky e à Proust. É necessário, todavia, frisar que não estamos contra essas duas modalidades de romance. Todos os seus valores, entre nós, permanecem integrais, autênticos, realmente indispensáveis ao estudo das diversas correntes em que se dividiu o moderno romance brasileiro. Queremos dizer, apenas, que “Uma Sombra que Desce” proporciona um repouso, um estado de reação contra o esgotamento progressivo da nossa capacidade de assimilar esses temas do homem em luta com a terra, com o próprio homem ou com o espírito negativo do mal, que se alastra pelo mundo. O romance do Sr. Cruz Cordeiro, aliás, não representa um estado de ânimo otimista do autor, nem as criaturas que nele vivem são mais felizes, mais despreocupadas ou mais puras que alguns tipos literários já fixados em nossa imaginação ou nas páginas de um Érico Veríssimo, Geraldo Vieira, Marques Rebelo, Lins do Rego ou Graciliano Ramos. Pelo contrário. Há um mundo de amarguras e sofrimentos em todos os seres do livro. Parece que todos eles esperam, cheios de angústia, que a sombra, a grande sombra venha descendo sobre seus olhos cansados e implorativos. Jorge, Elza, Albuquerque, Jônatas, são as figuras isoladas do que há de trágico no romance. Cada um dele representa um pouco desse imenso fatalismo que envolve todo o ambiente do livro. Parecem vidas arrastadas, confundidas na mesma engrenagem de sofrimento e desespero. Vidas que se estiolam, que se debatem, que vão aos poucos desaparecendo sob o lento caminhar da sombra que desce. Que está sempre próxima de nós, que nos sufoca, que nos põe nos olhos uma luz diferente de calma resignação, ou de irremediável e inútil amargura. Que o homem nunca afasta inteiramente de si. Mas que procura recalcar no fundo da memória. Esmagando, dominando o medo primitivo e cheio de visões terríveis que nem mesmo a serenidade religiosa consegue apagar em seu espírito. E essa dolorosa tristeza que impregna todo o ambiente do romance, que vai de página em página acompanhando o sofrimento físico de Jorge pelos hospitais, parece também revelar uma intensa experiência do próprio autor. O livro foi escrito e vivido, profundamente, dramaticamente. Não procuramos saber se foi “por completo”, isto é, na realidade. A maneira incisiva usada pelo romancista na composição das cenas e dos capítulos; a linguagem direta, clara, sem rodeios que obscureçam o pensamento do escritor, tudo revela uma história contada sem artifícios e com um mínimo de recursos literários. O romance não tem mesmo quase literatura. É todo ele essencialmente objetivo, prático, imediato. O Sr. Cruz Cordeiro não usa abstrações, não compõe o livro à maneira dos romancistas hábeis, conhecedores de todas as sutilezas do gênero. Desta ausência de literatura, decorrem todos os defeitos e qualidades do livro. Mais qualidades do que defeitos. Sóbrio na linguagem, na ação do romance, no perfil psicológico dos personagens, o Sr. Cruz Cordeiro perde-se, às vezes, em minúcias, em detalhes mais ou menos técnicos sobre uma transfusão de sangue, um curativo pós-operatório, etc. Sacrifica , assim, o ambiente psicológico, humano, ao ambiente descritivo, ao cenário onde se desenrolam as fundas misérias da luta contra a morte. Não se pode dizer que “Uma Sombra que Desce” seja um romance de grande unidade literária de composição densa e cerrada como um só bloco de vida, visto em todas as suas dimensões. Mas é um livro de revolta, de pungente revolta contra as sórdidas mistificações dos homens que se propuseram a lutar pela vida de todas as criaturas. Não desfigura a realidade do que todos nós podemos constatar”.

“Para uma crítica simplesmente literária, que investigasse processos de composição, firmeza psicológica do escritor, densidade dos personagens, “Uma Sombra que Desce” daria, talvez, motivo para algumas censuras. O romance não chega a fixar verdadeiros episódios. Não deixa no leitor a marca significativa do tempo, do tempo que é uma preocupação constante no homem que nunca pode parar, que está sempre em movimento, caminhando para o fim de todas as suas lutas e inquietações. O romance é feito de cenas, de quadros que se acumulam uns sobre os outros. Dá mesmo a impressão dos recursos cinematográficos. É um filme vivo, humano, cheio de cenas banais e simples que acontecem na vida de todos nós. Jorge no consultório do Dr. Mercúrio, Jorge em Teresópolis. Jorge no consultório do Dr. Cardoso, no hospital, na mesa de operações. A ação do livro passa-se quase toda nos ambientes médicos. E assistimos, então, vagamente inquietos, ao lento evoluir daquela misteriosa enfermidade, que vai destruindo as energias do personagem central, o que o vai tornando cada vez mais apático, mais um joguete do seu corpo doente e dos médicos que não sabiam curá-lo, que dele faziam apenas um ótimo campo de análises e experiências. É um drama silencioso, cortado de desespero, de dúvidas, de esperanças logo malogradas. Drama que é mais vivido que mesmo descrito sob a luz forte das análises interiores. O Sr. Cruz Cordeiro não desenrola panoramas introspectivos. Sua psicologia é mais exterior, mais superficial. Não se desdobra ao infinito, não desce às análises intensamente cerebrais, que recentemente, Edmond Jaloux afirmava estar prejudicando, por excessiva, o romance moderno em todo o mundo. Os personagens do Sr. Cruz Cordeiro são bem humanos e vivos. Porém, muitos se perdem, são como que absorvidos pelo drama central, fazem de simples figurantes. Mas isto pelo vigor dos traços com que o romancista quis desenhar o seu tipo mais bem composto – Jorge. Este, na sua luta silenciosa, sacudido e violentado por tantos golpes, chega a perder um pouco das sensações do homem que pensa, que vibra, que se emociona ao mesmo tempo em que se vê caminhando para um fim próximo, empurrado por mãos invisíveis e más. O destino transformou-o numa criatura que parece não raciocinar. Ele é apenas um enfermo, um corpo doente retalhado pelo bisturi, revolvido pela psicanálise, torturado pelos doutores e por si mesmo. Pois não seria menor a sua luta íntima, que pouco percebemos. Há momentos em que a criatura se vê pequenina e humilde, desamparada e sozinha em face do mundo. Perto bem perto caminham e falam e se agitam outros seres, outros desejos, outras ambições, outras esperanças. O enfermo desdobra-se em duas vidas: pertence a si mesmo e à doença, e pertence aos outros que ali estão, à esposa, ao filho, ao pai. Laços invisíveis unem seus pensamentos. Mas a solidão parece maior e mais funda. Em Jorge, por exemplo, não sentimos a presença carinhosa de Elza, sempre amiga e constante. Ele como que se isola num grande egoísmo que tem muito de apatia, de indiferença. Egoísmo natural num corpo enfermo, num espírito envolvido pela solidão, pelo vazio das longas noites de insônia e delírio em que só os gritos de sofrimento ou os ruídos de um batuque lhe faziam companhia. Por um momento, por um rápido instante a solidão desaparece. Albuquerque estava morto. Nunca mais voltaria ao hospital, nunca mais sua figura tranqüila encheria a meia luz do quarto triste. Uma dor maior aniquila o seu isolamento, o silêncio que vivia nele. Esse é talvez o único momento em que o romancista estabelece um verdadeiro laço entre Jorge e os outros personagens. Laço mais forte que as misérias do corpo. Absorvido, apaixonado pela sua criatura principal, o Sr. Cruz Cordeiro deixou um pouco de sombra, excetuando-se Dr. Péricles e Elza, as demais figuras do livro. O romancista vive no seu personagem, dá-lhe toda a força de suas qualidades mais vivas. Entretanto, mesmo essa redução de perfis a um só, não consegue prejudicar a beleza da obra vista em conjunto. O romance está assentado em bases sólidas. Suas imperfeições não diminuem o talento do autor. Pelo contrário. Dão-nos a certeza de que ele ainda poderá ir além do que já atingiu...”

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Mesmo quando está adoentado sem poder dormir no Quarto 10, do Hospital-de-Cirurgia, o personagem Jorge do romance correspondente ao escritor Cruz Cordeiro, tem a sua atenção sem rumo voltada para um batuque num morro atrás do hospital. O processo de ensaio de uma bateria no morro e da criação inspirada de um novo samba são descritos no capítulo XVI do romance intitulado Insônia, como se mesmo em meio à dor, à tristeza e ao sofrimento, ainda estivesse presente no doente o prazer, a alegria e a felicidade.

Jorge ficou até contente ao notar o fato: o morro atrás do hospital estava em festa. Os foguetes cortavam o ar frio da noite de Junho. Teria assim qualquer coisa de menos desagradável a lhe ocupar a atenção sem rumo de mais aquelas horas sem sono. Si tinha alguém passando mal ele não notava. Os tiros e os foguetes rebentados no espaço ecoam, estrondosamente, no pátio interno do hospital.

Há muito que o morro ensaiava seu batuque, “tirava” seus sambas novos. O treino, o preparo, Jorge os achou curiosos, cheios de engenhosidade, mas sem artifícios.

Muitas noites passara o morro ensaiando, afiando os ritmos da sua bateria pesada, de grosso calibre: os tão-tãos, os omelês, os “surdos”:

Ta-tá-tão tão-tão

E o doente se lembra do rancho passando em frente à casa-de-saúde do conhecido de Dr. Marcúrio, e onde ficaram suas amídalas...Será que teriam reposto na porta a chapinha com o número 3 ?..

O ensaio do morro se limitou, vários dias, ao acertamento e justeza do ritmo daquela bateria maior. O pessoal se mantinha silencioso no terreiro e o

Ta-tá-tão tão-tão

reboava pela encosta, ao sabor das brisas, mais ou menos intenso, até o pátio do hospital.

Pareceu a Jorge certa vez, que essa parte da bateria chegara ao máximo de perfeição em matéria de justeza de ritmo. Com efeito, dias depois êle notou ensaio, em separado, de um grupo de tamborins, reco-reco, pandeiros, cuícas, representantes da bateria de menor calibre. O mesmo processo adotado para percussão maior aqui foi também observado. Mais alguns dias e Jorge ouviu a bateria completa em ação. Tãos-tãos e tamborins a marcar, em maravilhosas síncopes e contratempos, os mais deliciosos ritmos que jamais escutara.

E agora, na cama, estirado, ele acompanha com o pé, instintivamente, a marcação nítida e entusiástica da percussão no morro. Aquêles instrumentos primitivos e que só deveriam marcar ritmos, tinham alma, tinham vida, cantavam na mão daquela gente. As palavras e a melodia se imaginava, desenham-se no espaço. Qualquer letra, qualquer cantiga que Jorge concebesse no espírito embalado por aquêle ritmo feiticeiro, se enquadraria nele. E era isso realmente o que estavam fazendo. O doente começa a ouvir a voz de um ou outro solista. Nota que um qualquer do grupo, tão inspirado quando ele poderia estar si em lugar de estar na cama estivesse no morro, se sai de vez em quando puxando melodias indecisas, improvisando palavras, ao léu do sentimento com que canta. O resto do grupo responde a mesma coisa em côro. Estão procurando aprender o refrão do samba que está sendo criado. Mas o resto do grupo entoa o canto que ouve improvisar sòmente quando êste agrada, quando parece viável, pois muitos solistas viram sem eco suas inspiração de momento.

Durante várias noites já persistiam as tentativas frustradas. O pessoal se mantinha frio diante das múltiplas improvisações aparecidas.

Naquela noite, porêm, devido talvez à intensidade desusada do batuque, cujos executantes pareciam nêle procurar aquecimento para o frio de uma das noites mais frias do ano, um samba estava com geito de sair. O solista insistia na frase achada porque o coro já lhe responde várias vezes com agrado:

A orgia...é o diploma que o malandro tem...

E aí ficou algum tempo a bossa do improvisador. O coro ficou repetindo a frase, esperando, animando-o. As vozes de mulher casam bem na harmonia do conjunto cuja dolência em alguns trechos, é quase religiosa. Mas o cantor solista retoma o fio da inspiração:

...quando arranja uma mulher...pensa logo que está bem...

Êsse seguimento ele o entoou em tom mais abaixo. E o coro logo o repetiu com entusiasmo. Depois de alguma indecisão, o guia solista cantou forte o resto do refrão, que, de súbito, encontrara em meio da sua inspiração:

...ê le jurou... Nunca mais amar ninguém...

Embora tal resto de palavras fosse um tanto disparatado do sentido inicial, enquadrava-se na sua conclusão melódica, saborosa e popular, dentro dos sincopados eletrizantes da batucada. E assim ficaram cantando, vibrantes, o refrão inteiro do novo samba que o Rio iria consagrar no próximo Carnaval. O morro presenteava a cidade com mais um pedaço da sua vida.

Os foguetes cortam o ar e o eco dos tiros dos foguetes rebentados no espaço reboa no pátio interno do hospital.

O ritmo pesado e surdo dos tão-tãos, dos omelês... O ritmo saltitante e alegre dos tamborins, dos pandeiros... O coro misto de vozes nostálgicas, dolentes, sensuais, com ecos imprevistos nos refrãos dominantes:

Ele jurou... ôô..

Nunca mais amar ninguêm.. êm..

Era isso o samba, só isso, e Jorge ouviu, sentiu intensamente o samba ecoar dentro da noite.
Uma enfermeira anotou no livro do plantão:

“...Quarto 10 –O doente passou a noite relativamente calmo, a-pesar-de não ter dormido. Tomou um copo de leite. Febre: 37,5. Pulso: 100. Não quis tomar calmante...”


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