6 - A CARTÃO DE LEITOR E J. R. TINHORÃO

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Carta de Cruz Cordeiro, publicada no Jornal do Brasil, no Caderno Especial, em 26.01.1975, referindo-se às análises de caráter sociológico do historiador e crítico José Ramos Tinhorão, relativas aos compositores e letristas da nossa música popular brasileira.

 

Fato Social e Fato Artístico

Desde a definição do sociólogo francês Emilio Dukheim (1858-1917), sabe-se que o fato social é coercitivo, exterior ao indivíduo e a ele se impõe. A língua, por exemplo, é um fato social e coletivo, porque se impõe a todos os indivíduos de uma comunidade idiomática, que a falam obrigatoriamente, sob pena de não se entenderem.

O fato artístico, pelo contrário, é individual, livre e arbitrário, podendo o artista efetuar sua obra por padrões estabelecidos ou não e até, com isso, criar novos estilos.

Na formação da arquitetura moderna, por exemplo, o estilo barroco proveio das contorções e alterações de formas introduzidas pelo arquiteto italiano Francisco Borromini (1599-1667), um dos que mais exageraram nesse sentido, mas com notável sentimento decorativo.

Em nossa música popular, por exemplo, na década de 30, Mário Reis, cognominado o “gentleman do samba”, em razão da high society que então representava, com estilo próprio mais de dizer do que de cantar, promoveu sucessos populares com os sambas Jura, de J. B. da Silva (Sinhô), e A Tua Vida é um Segredo, de Lamartine Babo.

Lamartine Babo, enquanto isso, jamais dependeu de sua classe social, ou de suas condições socioeconômicas, para sua versatilidade absoluta em marchas e sambas: Aí Heim ?, Boa Bola, Moleque Indigesto, História do Brasil, Ridi Palhaço, O Sol Nasceu para Todos. Tão criadora foi sua versatilidade, que sua adaptação de motivos da marcha Mulata, dos Irmãos Valença de Recife, resultou no Teu Cabelo Não Nega, que se tornou uma espécie de hino no carnaval brasileiro. De parceria com João de Barro (Braguinha) produziu ainda a excelente marcha Uma Andorinha Não Faz Verão.

Braguinha, apesar do seu nível universitário, pois se preparava para seguir Arquitetura, e independente de sua classe social, não é menos versátil e popular em, por exemplo: Pastorinhas,Touradas em Madri, Laura, Copacabana, Chiquita Bacana.

E se Lamartine fazia Linda Morena se libertando da mulata num carnaval, Braguinha noutro lhe retrucava com Linda Lourinha, duas marchas populares de completo êxito. A propósito se note que Braguinha cometeu o crime de fazer uma letra para o choro Carinhoso, de Pixinguinha, obra essencialmente flautística e instrumental, para atender contingências de um show beneficente programado pela Casa do Pequeno Jornaleiro, como ele mesmo esclareceu (Fatos e Fotos de 18-02-74), porém dizendo ao mesmo tempo que “sempre fez música com o coração.”

Chico Buarque de Holanda, que também se expressa mais dizendo do que cantando, desde logo se popularizou com sua A Banda, e sem qualquer pretensão social ou demagógica, também é autor daquelas maravilhosas letra e música de Construção, flagrante sentimental e trágico da vida operária, no qual o artista maravilhoso cadencia com a música e ritmo não menos maravilhosos, as palavras proparoxítonas sistemáticas finais da sua marcação melódica.

Mas para J. R. Tinhorão, Chico apenas “é o maior compositor da moderna classe média de nível universitário” (JB, 20-12-1974). Ao leitor de J. R. Tinhorão constrange, assim, vê-lo sempre preocupado em enquadrar artistas e compositores em classes sociais e até em opções sociológicas, misturando alhos com bugalhos, fato social, coercitivo e coletivo, com fato artístico, individual, livre a arbitrário.