5 - A ENTREVISTA A SÉRGIO CABRAL


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O jornalista, crítico e escritor SERGIO CABRAL entrevistou CRUZ CORDEIRO em 1976 na sua residência, sendo a entrevista publicada no Jornal O Globo, em 22/07/76, com o título CRUZ CORDEIRO – O Primeiro Colunista de Discos do Brasil.

Abaixo, a foto onde Cruz Cordeiro exibe o último número da Revista Phono-Arte, na sua residência na Rua General Góis Monteiro, nº 88, aptº 303, em Botafogo, durante a histórica entrevista.


A grande reportagem também foi publicada no livro ABC DO SÉRGIO CABRAL – Um Desfile dos Craques da MPB (Editora – Codecri -Rio – 1979).
Abaixo, o sumário do livro de Sérgio Cabral, de A a Z.

Ferreira Gullar, uma figura ímpar em nossa cultura brasileira, sensibilidade, inteligência e humanidade extraordinárias, crítico de artes plásticas, escritor de várias obras sobre o assunto, poeta moderno, inspirado e profundo, e ex-apresentador de um programa na TV Educativa sobre a Terceira Idade, prefaciou o livro de Sérgio Cabral:

PREFÁCIO

Pra ver como são as coisas: às vezes um cara decide escrever um livro, bola o assunto, planeja os capítulos, realiza tudo com cuidado e capricho – e no fim o que sai é um livro chato. Você recebe o volume, folheia, passa os olhos numas páginas, boceja e põe o dito cujo na estante para nunca mais abri-lo... Já o Sérgio Cabral, que nunca pensou em escrever este livro, nos entrega – talvez por isso mesmo, a nós, leitores – um volume de textos saborosos: a gente mal termina de ler um capítulo tem vontade de sair contando pros outros o que acabou de aprender ali.

E isso não é por acaso. Se este volume reúne artigos escritos ao longo dos anos para jornais e revistas brasileiras, guarda, a par da variedade, uma unidade que não vem só do jeito de escrever do Sérgio, mas de seu jeito de viver: a matéria deste livro – a música popular brasileira, seus criadores, seus mártires, seus intérpretes; o carnaval, o disco, o rádio, as escolas de samba – não são apenas matérias jornalísticas que o autor manipula e organiza: são o elemento vital de que ele se alimenta, o universo cultural em que ele habita e ajuda a fecundar. De fato, Sérgio Cabral escreve, assim, a seu modo, a história da cidade do Rio de Janeiro e de nossa cultura urbana. Uma história cujo personagem central é o povo que se expressa através de sua música e de suas festas.

Mas que o leitor não se assuste. Sérgio não é historiador mas jornalista e um jornalista aberto ao que há de engraçado, poético e humano nos temas que aborda. E que o leitor também não se iluda: esse Sérgio bem-humorado e soltão é um feroz defensor de nossos valores culturais. Tocou nisso, ele briga e briga feio.

E briga porque esses valores, ele os entende como expressão de sua própria vida e da vida de sua gente desamparada. E Sérgio, menino de subúrbio, continua ligado ao subúrbio, sobretudo nos dias da grande confraternização que é o carnaval. Nesses dias, indo por lá, “você ainda encontrará muita gente, inclusive um gordinho, de olheiras, bermudas e camisa do glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama (recebida do zagueiro Fontana, depois de uma memorável vitória sobre o Botafogo), um carioca, enfim, que se assina Sérgio Cabral”.

Abaixo, Cruz Cordeiro, aos 71 anos, fotografado em sua residência, durante a entrevista. A mesma foto da reportagem publicada no Jornal O Globo, transferida para o livro ABC DO SÉRGIO CABRAL – um desfile dos craques da MPB, na letra P referente à Phono-Arte.

A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA
Elogiou o primeiro disco de Mário Reis, criticou Francisco Alves e sustentou que “Jura”, de Sinhô, “caiu no gosto do público”. Soube ver, no começo, a beleza de “Com que roupa”, de Noel. E foi o responsável pelo lançamento de “O teu cabelo não nega” na RCA.

Cruz Cordeiro é um pernambucano de 71 anos que nunca se desligou da música popular mesmo depois do fechamento de sua revista, a “A Phono-Arte”, em fevereiro de 1931. A revista durou apenas dois anos e meio, mas foi a primeira especializada em música.

Cordeiro e Sérgio Vasconcelos criticaram em “Phono-Arte” os primeiros discos de Mário Reis, Carmem Miranda, Dircinha Batista. E as primeiras gravações feitas no Brasil pela RCA Victor, Columbia e Brunswick foram registradas e criticadas naquela revista.

-Além de fazermos a revista com muita arte e muito amor, éramos independentes porque tínhamos muitos anúncios. Quando saíam os discos, dizíamos quais eram os melhores e ninguém chiava.

Cruz Cordeiro foi um dos primeiros organizadores do suplemento da RCA Victor (uma espécie de diretor artístico), colaborador da “Revista da Música Popular”, de Lúcio Rangel, nos anos 50, escreveu em vários jornais sobre música e é atualmente membro do Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som. É atento não só ao movimento musical de hoje como às modificações da linguagem popular:

Acho Paulinho da Viola um barato.

Talvez tenha sido ele o primeiro colunista de discos do Brasil, pois antes de 1928 já se ocupava do assunto no jornal “O País”, ao lado de Sérgio Vasconcelos (que , mais tarde, seria diretor da Rádio Nacional). Além de falar de discos, escrevia também uma seção intitulada “De tudo”, assinando-a com o pseudônimo “De Nada”.

As atividades em “O País” levaram os dois a idealizar o lançamento da “Phono- Arte”, onde foi registrado um dos períodos mais férteis da história da música popular brasileira: as gravadoras haviam trocado o antigo processo mecânico de gravação de disco pelo processo elétrico; as estações de rádio adquiriram mais potência e o aparelho receptor passou a ser um sinal de “status” da classe média; três dias antes de ser fundada a revista, nascia no bairro do Estácio de Sá a primeira escola de samba, a Deixa Falar; uma nova geração de compositores e cantores (Mário Reis, Noel Rosa, Almirante, Carmem Miranda, Ismael Silva, Ari Barroso e outros) surgia naquela fase; nasciam novas gravadoras e novas estações de rádio e, pela primeira vez, era gravado um samba com instrumentos de baterias de blocos e escolas de samba, o “Na Pavuna”, de Candoca da Anunciação (Homero Dornelas) e Almirante.

No número dois da “Phono-Arte”, Cruz Cordeiro criticava o primeiro disco de Mário Reis, da Parlophon, que apresentava duas músicas do compositor Sinhô (José Barbosa da Silva):

“Esse é o primeiro disco de Mário Reis, o simpático amador, que canta a primeira peça de modo muito original. Dono de uma interpretação digna de nota, o artista realiza uma espécie de canto sincopado muito expressivo que, se à primeira vista nos impressiona mal, pouco depois agrada-nos imensamente. O acompanhamento ao violão de Donga e Sinhô muito brilho dá ao conjunto. Gravação excelente”.

Pouco depois Cruz Cordeiro falava do samba “Ranchinho Desfeito” de Donga e Castro de Souza:

“O popular Donga parece que possui o segredo do sentimento e do ritmo da nossa música popular. Ele é sem dúvida um dos nossos melhores compositores de música típica, sendo um especialista em maxixe e samba. Música delicada, harmoniosa, sentimental, bem ritmada e sumamente típica. É uma composição que agrada facilmente. Cremos mesmo ser “Ranchinho Desfeito” uma das melhores composições do nossa popular autor. Gostamos imensamente”.

Depois, ele espinafrou “A Voz do Violão”, de Francisco Alves e Horácio Campos:

“Francisco Alves, nosso cantor, não foi muito feliz em sua peça, pois a música nos pareceu pobre. Música sem grande interesse, com introdução e duas partes, sendo a primeira melhor, pois a segunda é um tanto forçada. Letra apenas interessante”.

Cruz Cordeiro justifica a crítica dizendo que tinha se baseado apenas na edição da música, mas que mudou de opinião depois que ouviu em disco.

Depois de comentar o segundo disco de Mário Reis, na edição número cinco da revista (de 15 de outubro de 1928), elogiando o seu “esquisito e agradável modo de cantar”, Cruz Cordeiro falou da terceira gravação de Mário, a que apresentou, de um lado, “Jura”, e do outro, “Gosto que me enrosco”, ambos de Sinhô:

“Jura” é o samba da moda. Caiu no gosto do público. Quem procura a coleção de sambas que o distinto “gentleman” tem cantado encontrará aqui o seu melhor disco”.

Em novembro de 1928, Cruz Cordeiro publicou uma das suas mais famosas críticas, a que acusou Pixinguinha e Donga de americanizados. Depois de comentar três discos feitos pela Orquestra Pixinguinha-Donga (recomendando-os aos leitores), escreveu:

“O quarto disco contém dois choros: um de Pixinguinha, “Lamentos”, outra de Donga, “Amigo do Povo”, sobre os quais não podemos deixar de notar que em suas músicas não se encontra um caráter perfeitamente típico. A influência das melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é, nesses dois choros, bem evidente. Este fato nos causou sérias surpresas porquanto sabemos que os compositores são dois dos melhores autores da música típica nacional. É por esse motivo que julgamos esse disco o pior dos quatro que a Orquestra Pixinguinha-Donga ofereceu nesta quinzena”.

A mesma coisa Cruz Cordeiro diria mais tarde, na edição de 30 de novembro de 1930 (número 32), observando influência norte-americana em nada mais nada menos do que “Carinhoso”.

“O disco 12.877 da Parlophon apresenta a Orquestra Pixinguinha-Donga. De um lado o maxixe de Peri, “Não diga não”. Excelente música, muito típica, sentimental, bem ritmada e dançada. No complemento, vamos encontrar um choro de Pixinguinha, “Carinhoso”. Parece que o nosso popular compositor anda muito influenciado pelo ritmo e pela melodia da música de jazz. É o que temos notado desde algum tempo, mais de uma vez. Nesse seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot, apresenta em seu decorrer combinações da música popular yankee. Não nos agradou”.

Cruz Cordeiro afirma que não se arrepende das críticas que fez a Pixinguinha, pois o próprio músico reconheceu em conversa com ele que, realmente, andava na época influenciado pela música norte-americana, principalmente nas orquestrações.

- Mas foi uma influência muito eventual, ocasional – justifica o jornalista

“Phono-Arte registrou no número 14 o êxito de “Ai Yoyô”, música considerada como o primeiro samba-canção e que, apesar do andamento, “no último carnaval foi um dos mais ruidosos sucessos”. No número 19 assinalou o êxito do compositor Ismael Silva, que “ocupa atualmente um lugar de destaque”, chamando a atenção dos leitores para o seu samba “Novo Amor”, gravado por Mário Reis.

No número 32, a “Phono Arte”, que vendia “dois mil e pouco” exemplares por edição falou do sucesso do samba “Na Pavuna” e, em sua edição nº 46, de dezembro de 1930, fala do aparecimento de uma nova cantora, de apenas oito anos de idade, chamada Dircinha de Oliveira, que não é outra senão a mais tarde famosa Dircinha Batista:

“É filha de Batista Junior a criança que já sabe cantar com desenvoltura. Não é preciso apresentá-la pois ela se apresenta numa das faces do disco nº 5.247 (Columbia), onde canta uma canção de autoria de seu pai, “Borboleta Azul”, dizendo: “Alô, pessoal. Eu me chamo Dircinha de Oliveira. Sou filha de Batista Junior. Tenho apenas oito anos e esse é o meu primeiro disco.Espero que todos gostem de mim”. No complemento (era como Cruz Cordeiro chamava a face B do disco) ela canta “Dircinha”, outra composição de autoria de seu pai. Os acompanhamentos são feitos por Gaó, Jonas e Zezinho”.

No mesmo número, Cruz Cordeiro escreveu sobre o samba “Com que roupa”:

“Noel Rosa, que pertence ao já popular Bando dos Tangarás, aparece como autor do samba “Com que roupa”, cantado por ele, com acompanhamento de regional, na primeira faixa do disco nº 13.245, da Parlophon.

“Esse samba desde logo projetou-se como um dos grandes sucessos, apresentando-se como um dos prováveis êxitos do carnaval que aí vem. Ao nosso ver, esse samba que todo o Rio já sabe de cor, é excelente pela originalidade da letra e o sabor esquisito do ritmo, dentro do qual a letra esta magnificamente bem enquadrada. Reparem os amadores como caem bem dentro da música e do ritmo as rimas conduta, luta, fruta, sopa, roupa, estopa. Enviamos daqui os nossos parabéns a Noel Rosa pela originalidade do seu samba, que ele próprio canta com graça e especial sabor, acompanhado por adestrado regional. No complemento, aparece o samba “Malandro medroso”, peça que não se mostra digna companheira do que está gravado no outro lado”.

No número 50, a “Phono-Arte” acabou. Por que ?

- Eu e Sérgio Vasconcelos preferimos partir para outros tipos de atividades que nos assegurassem um dinheiro certo. Eu fui para a RCA Victor e o Sérgio montou uma empresa de distribuição.

Um dos orgulhos de Cruz Cordeiro no tempo em que trabalhou na RCA Victor foi o sucesso de “O teu cabelo não nega”, gravado por Castro Barbosa que formava com Jonjoca uma dupla que a gravadora criou para enfrentar a fortíssima dupla da Odeon, Francisco Alves e Mário Reis. A famosa marchinha de Lamartine Babo e dos irmãos Valença foi escolha pessoal dele e foi ele que promoveu o seu lançamento nos salões do Fluminense, com a presença de uma orquestra de 18 figuras comandadas por Pixinguinha e da qual fazia parte o famoso pistonista e compositor Bonfiglio de Oliveira.

- Foi um escândalo. Houve sócios do Fluminense que se indignaram tanto com a presença de artistas na sede do clube que se retiraram do salão e foram embora. Em compensação, os que ficaram não conseguiram permanecer sentados nas mesas. Mal a música começou formaram cordões e dançaram a noite toda. O sucesso de “O teu cabelo não nega” começou naquela noite no salão do Fluminense.

Lamartine Babo é uma das admirações de Cruz Cordeiro:

- Uma vez, ele me fez uma confissão, mas não acreditei muito no que dizia. De qualquer maneira é da responsabilidade dele, que Deus o tenha. É que toda a sua inspiração vinha de óperas. Que nada! Era uma camarada genial, que criava na hora, como eu vi muitas vezes. Era um gênio.

Apesar das críticas contrárias às gravações de “Carinhoso” e “Lamentos”, outra grande admiração de Cruz Cordeiro é por Pixinguinha:

- Nossa mãe, que músico!

Cruz Cordeiro o tem em alta conta como compositor, instrumentista, arranjador e regente.

- Foi um dos maiores regentes que vi. Ele só perdia a atenção dos músicos quando era gravação de Carmem Miranda. É que quando Carmem começava a cantar, marcava o compasso com as cadeiras, naquele requebrado maravilhoso. Aí, os músicos não olhavam mais para as mãos de Pixinguinha: era o gingado de Carmem Miranda que orientava os músicos no andamento que deveriam dar às suas execuções.

- Me lembro um dia em que apareceu um crioulinho muito humilde, querendo falar comigo por indicação de Carmem Miranda. Era para mostrar uma samba que Carmem tinha ouvido e gostado, mas que só gravaria se eu gostasse também, e cantou: “Coração/Governador da embarcação do amor/Coração/Meu companheiro na alegria e na dor”. Aí, eu falei: “Diga a Carmem que pode gravar”. Foi assim que conheci o compositor Sinval Silva.

- Todos os revendedores da Victor tinham uma cota mensal certa de discos. Mas a pedido deles mesmos, a cota era aumentada sempre que havia discos de Carmem Miranda. Era um sucesso aquela mulher.

Cruz Cordeiro trabalhou três anos na RCA Victor e outro orgulho do tempo em que lá esteve é de ter passado as vendas de três mil discos por mês para 35 mil. Fala também com saudades das amizades que fez não só na “ Phono-Arte” como na RCA Victor. Uma delas foi com Villa-Lobos, que freqüentava muito a redação da revista:

- Eu me lembro muito do Villa, a gente andando pela Rua do Ouvidor e ele parava de repente, quando ouvia um disco popular tocando na loja A Melodia. Dizia assim: “Isso é bom, hem!”

E agora, Cruz Cordeiro ?

- Estou aposentado. Meu “hobby” no momento é partir para a Língua Brasileira.


Edição FUNARTE – Rio de Janeiro - 1978

Apresentação

Embora existam obras importantes sobre a música popular, não há no Brasil uma bibliografia vasta sobre o assunto. Consciente do problema, a FUNARTE resolveu instituir uma série de concursos de monografias sobre a obra de artistas que marcaram presença valiosa na história da MPB.

O primeiro nome escolhido foi o de Pixinguinha, e a vitória coube à pesquisa de Sérgio Cabral, que concorreu sob o pseudônimo de Quincas Laranjeiras, cujo trabalho abre a Coleção MPB da FUNARTE.

Temos a esperança de que os concursos que se seguirão possam, de um lado, prosseguir seu caminho de revelarem ao público a obra de pesquisadores de valor, e de outro, servir como símbolo de permanente respeito ao músico brasileiro.

Roberto D. M. Parreira
Diretor Executivo da FUNARTE