4 – A PHONO-ARTE E A RCA VICTOR
1928-1931
Cruz
Cordeiro, editor e redator, com SÉRGIO
ALENCAR VASCONCELLOS, da PHONO-ARTE,
a “Primeira
Revista Brasileira do Phonographo”, noticiosa e crítica,
com apoio das gravadoras e representantes de discos e de músicas
impressas, havendo assim inaugurado a crítica sistemática
da música popular e erudita impressa ou gravada no Brasil, numa
publicação especializada e pioneira. Nela iniciou-se também
comentários sobre filmes musicados do então chamado “cinema
falado”, logo que começou o filme sonoro no cinema.
A PHONO-ARTE
foi publicada com sucesso até o número 50 (cinqüenta).
Para consultas, existem coleções completas no Museu
da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, na Sede da Lapa, na Rua
Visconde de Maranguape, nº 15, 2º andar, quase ao lado da
Sala Cecília Meireles. Tels: 22248461/22248501.
1931-1936
Cruz Cordeiro
ingressou na RCA VICTOR BRASILEIRA
INC., então recém-fundada no Brasil, onde exerceu
cargo de publicidade e orientador artístico da empresa, na qual,
por motivo de moléstia, aposentou-se prematuramente. Foram os
áureos tempos de compositores como Lamartine Babo, João
de Barro (Braguinha), Almirante, Joubert de Carvalho e artistas como
Carmem Miranda, Mário Reis e muitos outros, havendo aumentado
muito a venda de discos nacionais no seu período, venda essa
que controlava em fichários adequados.
A grave moléstia, que levou Cruz
Cordeiro à aposentadoria prematura, mas não à
inatividade, foi relatada em seu único romance “Uma
Sombra que Desce”. O romance foi publicado em 1939, tendo
feito sucesso e merecido uma extensa crítica na época,
conforme registrado no botão “O Romancista”.
Assim o escritor inicia o romance, no primeiro
capítulo intitulado “Nervosismo”:
“Largara o emprego antes da hora do
almoço. Caminhara apressado pela Rua-do-Ouvidor e estacara,
surpreso, como si estivesse diante de panorama inédito, na
esquina com a Avenida Rio Branco.”
“Um letreiro “Ipanema” e ele se precipita em meio
de transeuntes para tomar o ônibus”.
“Devia almoçar. Tinha de voltar à tarde. Mas
havia passado pelo bar onde habitualmente comia sem entrar. Uma
sensação de perigo iminente o impelia a procurar abrigo
seguro. Fazia-o ir para casa”.
“Custou a achar o dinheiro da passagem dentro da ampla carteira,
cheia de níqueis. Presente de Elza (Dora). Para que não
continuasse a furar os bolsos com o peso dos níqueis. Não
fora bem um presente. A lembrança remoída no espírito
como um ressentimento. A esposa lhe dissera que não podia
levar a vida a tapar buracos de fundo de bolso. E ele jamais se
lembrava de comprar uma carteirinha. Até que no dia de seu
aniversário, ela lhe fizera presente daquela”.
“O ar fresco da praia de Copacabana tira-o das cogitações.
O ônibus acabara de entrar na Avenida Atlântica”.
“Com antecedência exagerada deu o sinal. O ônibus
parou na esquina da rua transversal, o motorista olhando para trás.
Não pediu licença ao companheiro de banco para passar
e enveredou, pouco firme, pelo estreito corredor. Tropeçou
numa perna gorda fora do alinhamento dos bancos. Quase tonto pingou
a moeda na caixa. Saltou imaginando uma praga do motorista”.
“No asfalto fumegante da soalheira ficou imóvel e teso
como si estivesse na entrelinha de dois bondes que se cruzam. Viu
passar sonolento caminhão de feira-livre. Resolveu-se. Atravessou
a rua deserta. Morava logo ali.”.
“Em casa estaria mais apto a se defender daquela coisa estranha
que apenas o ameaçava”.
“Não almoça e nem volta mais ao emprego. Soca-se
no quarto sem dizer palavra. Olhar vago. Profundamente distraído”. |
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