2 – A Enfermeira e Segunda Esposa


Com o falecimento de Dora Alencar Vasconcellos em 1973, Cruz Cordeiro casou-se em 05 de dezembro de 1973 com Angelita Silva, companheira de longa data com a qual viveu até o dia do seu falecimento em 16.07.1984. Angelita Silva, com o casamento, passou a se chamar Angelita Silva da Cruz Cordeiro.

Angelita nasceu na Bahia, em 22 de junho de 1910, filha de Canuto Silva Laureano e de Martinha Costa Maranhão. Da união entre José e Angelita nasceram quatro filhos: Márcio (19.02.1943), Antônio José (23.l2.l944), Mário Eduardo (29.07.1949), e Ricardo (26.06.1951). Márcio Silva da Cruz Cordeiro, divorciado de Eliane Bastos Cordeiro, faleceu em 18 de setembro de 1995, aos 52 anos, em seu apartamento, em Botafogo.

Angelita formou-se em enfermagem pela Cruz Vermelha Brasileira, conhecendo Cruz Cordeiro na condição de enfermeira num Hospital de Cirurgia no Rio de Janeiro.

Angelita e Dora tornaram-se amigas no Hospital de Cirurgia, e Dora, após acompanhar o marido durante a existência de sua prolongada enfermidade, seguiu o seu destino, a sua ambição, a sua carreira. Angelita, depois de ter sido uma das enfermeiras de Cruz Cordeiro no Hospital, abandonou a profissão de enfermagem e se tornou a sua companheira definitiva.

Em seu único romance que escreveu, intitulado Uma Sombra que Desce, Cruz Cordeiro fala sobre a dedicação da esposa Dora (Elza), no capítulo XII, Enfermeiras, Médicos...

No romance, a personagem de Dora recebe o nome de Elza, e o escritor o nome de Jorge:

“Elza assistia sempre aos curativos do marido. Da sua presença dependia o ânimo dele. Ela era de uma constância absoluta ao lado de Jorge no hospital, mau grado a assistência de enfermagem”.


E no final do capítulo IX, intitulado Febre:

“São duas horas da madrugada do oitavo dia que ele está com febre alta. Há uma semana que Elza passa as noites em claro, de luz acesa, observando o marido, procurando alimentá-lo”.

“Agora, com toda certeza, ele está muito além da estratosfera, com alma e tudo”.

“A sua cabeça inchou mais do que o resto do corpo. A cabeça inchou tanto que formou um grande balão à parte, desprendendo-se do corpo e sobe como uma flecha louca. A estratosfera não existe mais. A velocidade do novo balão é fantástica, alucinante..."

“- Fique quieto, meu amor, fique quieto... Beba... Nem que seja só um gole, beba um pouco deste leite, beba..."

“Elza chora. As lágrimas escorrem, sem acanhamento, faces a baixo, e pingam, lentas, no peito do marido, molham o rosto dele... Elza beija Jorge na testa”.


A amizade entre Dora e Angelita, cuja a personagem no livro recebe o nome de Jurema, é relatada por Cruz Cordeiro, no final do capítulo XIV, Perna Quebrada:

“Jorge não via com bons olhos a amizade cada vez mais crescente de Elza e Jurema. É que a esposa já começava a dedicar vários momentos do dia à outra. O almoço de Elza e, muitas vezes, o jantar, passara também a ser feito em companhia de Jurema no refeitório comum. Sem motivo aparente para os outros, Jorge começou a implicar com a nova amiga de Elza. Mas ele sente profunda melancolia por se surpreender assim, mais uma vez, estupidamente egoísta. Procura todavia, fugir à depressão, ao sentimento inferior, imaginando o que já pensara: a doença o vai afastando cada vez mais da vida, dos outros, e ele não podendo ir atrás da vida, ir como os outros pela vida, procura prender ao menos os que lhe são caros junto dele, tentando se sentir assim menos doente...Devia ser isso...”


Angelita abandonou a profissão de enfermagem para dedicar-se ao companheiro, aos quatro filhos e à vida doméstica, falecendo em 21 de março de 2005, aos 94 anos, na UTI da Clínica de São Gonçalo S.A, em Niterói.

Letra do samba-canção Amor Compaixão, autoria de Cruz Cordeiro: “Este amor/Que você me tem/Não tem por me querer bem/É amor de compaixão/Saudades de outro bem/Este amor/Que você me tem/Se tem, não tem por querer/É amor saudade/É amor tristeza/Amor, vaidade de amar/É amor sem dor,/É amor sem calor,/Amor que se tem de outro bem/Saudades sim/De outro bem/De outro quem/Não te quis bem/Arrependida/Sem amor na vida/Você me quer/Sem me querer bem.

Angelita, a segunda formanda da esquerda para a direita, na primeira fila.
Outras fotos de Angelita
Acima, José e Angelita, no Sanatório em Correias, RJ.
Ao lado, a enfermeira Angelita com seus pacientes, no Sanatório em Correias.
O irmão Humberto, visitando
o irmão José, durante a sua permanência no Hospital.
Recuperação da saúde
no sanatório em Correias.
Recuperação da saúde
no sanatório em Correias.

Fotos de Angelita em Correias

A alegre Angelita com a sua fantasia de Carnaval

Angelita com turbantes, em moda na época, devido ao estilo Carmem Miranda.

Numa das estrofes do poema Apelo ao Farol, transcrito na íntegra no botão O Poeta, junto com demais poemas, Cruz Cordeiro, inspirado em sua companheira, escreveu:

“- Ei ! farol/ vê se me vês ! Vê se vês a mulher que amo agora,/Se escutas a agonia de sua alma/Que não queria ser minha,/Mas que afinal se entregou, com/O sacrifício de tudo que sonhara na terra/E até de tudo com o que sonhara no céu,/No abandono de quem se viu necessária ao/Amparo da minha existência,/Ao consolo do meu sofrimento,/De quem se sentiu minha companheira”.

 

Ainda, inspirado na companheira fiel, Cruz Cordeiro, como letrista e compositor, criou o inspirado bolero Angelita.

Letra do bolero Angelita:

“Carinho de passarinho tem/As tuas mãos./Macio como a plumagem é/Teu coração./Toda encanto e ternura és mulher,/Favo cheio de mel./Teus seios belos e formosos são/Uma paixão./Mas se encantas assim, oh mulher,/Alto preço te fazes pagar:/ Acorrentas a teus pés esta alma,/De quem soube te amar./Exclusiva te tornas assim,/Da vida que passa,/Do amor que renasce,/Do mundo que sonho,/De tudo que quero,/De tudo que vive em mim./”
Uma poesia, escrita e assinada por Angelita, sem data, intitulada “Teu Coração”.