| 1ª
foto: Em casa do filho, Estrada Velha da Pavuna, Rio de Janeiro, outubro
de 1972. 2ª foto: Acima, os Batutas viajando pelo Brasil, e abaixo,
na casa do filho, Estrada Velha da Pavuna, Rio de Janeiro, outubro de
1972. 3ª foto: O músico na casa de Alfredo, seu filho, Estrada
Velha da Pavuna, Rio de Janeiro, outubro de 1972. As fotos e os textos
foram extraídos do livro de Sérgio Cabral, Pixinguinha Vida
e Obra (Mec/Funarte).
Lamentavelmente, o crítico de música
popular brasileira Cruz Cordeiro ficou mais conhecido pelas suas críticas
desfavoráveis às gravações dos choros “Lamentos”
e “Carinhoso” de Pixinguinha, feitas lá pelos longínquos
anos de 1928 e de 1930.
O jornalista Sérgio Cabral após entrevistar Cruz Cordeiro
em sua residência, teve a sua grande reportagem publicada pelo Jornal
o Globo em 22.07.76, destacando logo na abertura da reportagem com letras
maiores em negrito as críticas favoráveis do ilustre entrevistado,
e uma crítica contrária: “Elogiou
o primeiro disco de Mário Reis, criticou Francisco Alves e sustentou
que “Jura”, de Sinhô, “caiu no gosto do
público”. Soube ver, no começo, a beleza de “Com
que roupa”, de Noel Rosa. E foi o responsável pelo lançamento
de “O teu cabelo não nega” na RCA”.
Mais adiante, na reportagem, Sérgio Cabral registra as duas mais
conhecidas críticas aos choros “Lamentos” e “Carinhoso”
de Pixinguinha.
“Em novembro de 1928, Cruz Cordeiro publicou uma das suas mais famosas
críticas, a que acusou Pixinguinha e Donga de americanizados. Depois
de comentar três discos feitos pela Orquestra Pixinguinha-Donga
(recomendando-os aos leitores), escreveu”:
“O quarto disco contém dois choros: um de Pixinguinha, “Lamentos”,
outro de Donga, “Amigo do povo”, sobre os quais não
podemos deixar de notar que em suas músicas não se encontra
um caráter perfeitamente típico. A influência das
melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é,
nesses dois choros, bem evidente. Este fato nos causou sérias surpresas
porquanto sabemos que os compositores são dois dos melhores autores
da música típica nacional. É por esse motivo que
julgamos esse disco o pior dos quatro que a Orquestra Pixinguinha-Donga
ofereceu nesta quinzena”.
“A mesma coisa Cruz Cordeiro diria mais tarde, na edição
de 30 de novembro de 1930 (número 32), observando influência
norte-americana em nada mais nada menos do que em “Carinhoso””.
“O disco 12.877 da Parlophon apresenta a Orquestra Pixinguinha-Donga.
De um lado o maxixe de Peri, “Não diga não”.
Excelente música, muito típica, sentimental, bem ritmada
e dançada. No complemento, vamos encontrar um choro de Pixinguinha,
“Carinhoso”. Parece que o nosso popular compositor anda muito
influenciado pelo ritmo e pela melodia da música de jazz. É
o que temos notado desde algum tempo, mais de uma vez. Nesse seu choro,
cuja introdução é um verdadeiro fox-trot, apresenta
em seu decorrer combinações da música popular yankee.
Não nos agradou”.
Se Cruz Cordeiro em suas críticas usava expressões tais
como “caráter perfeitamente típico” ou “música
típica nacional”, sabendo reconhecer o caráter rítmico
e melódico nacional das composições populares de
sua época, por que o crítico não iria reconhecer
o genuíno caráter brasileiro dos 2 (dois) belos choros naqueles
idos anos de 1928 e 1930 ?
E depois de ter comentado os três discos anteriores gravados pela
Orquestra-Pixinguinha-Donga, e de ter recomendado as três gravações
aos leitores da revista Phono-Arte, por que Cruz Cordeiro no quarto disco
não iria recomendar as gravações dos choros “Amigo
do Povo” de Donga e “Lamentos” de Pixinguinha ?
E depois de registrar a influência da música norte-americana
nos dois choros, o crítico faz uma ressalva em relação
aos dois compositores e que não pode deixar de ser destacada: “Este
fato nos causou sérias surpresas porquanto sabemos que os compositores
são dois dos melhores da música típica nacional.”
E se no mesmo disco onde estava gravado “Carinhoso” de Pixinguinha,
o crítico reconheceu o maxixe de Peri “Não diga não”
como uma música excelente, típica e sentimental, por que
Cruz Cordeiro não iria identificar a excelência, a tipicidade
e o lirismo do choro “Carinhoso” gravado no outro lado ?
Por que o crítico além de comentar que “o nosso popular
compositor anda muito influenciado pelo ritmo e pela melodia da música
de jazz”, também afirmou que o choro em sua introdução
“é um verdadeiro fox-trot” e que “apresenta em
seu decorrer combinações da música popular yankee”
? O que o crítico musical quis dizer ao falar em “combinações
da música popular yankee” ?
Pela melodia de uma composição pode se perceber o seu caráter
típico nacional, ou o caráter de uma melodia pode soar de
acordo com a sua embalagem instrumental, harmônica e interpretativa?
Uma melodia brasileira não pode parecer americana com instrumentos,
harmonias e interpretações típicas do jazz ? Uma
melodia brasileira não pode parecer uma melodia japonesa, se for
orquestrada com harmonias e instrumentos típicos do Japão
e interpretada com o genuíno sentimento japonês ? E uma melodia
americana tocada em ritmo de choro, com instrumentos, harmonias e interpretações
típicos do gênero, não parecerá uma autêntica
melodia brasileira ?
Os principais choros “Lamentos” e “Carinhoso”
de Pixinguinha gravados em 1928, considerados na época americanizados
por Cruz Cordeiro devido aos antigos arranjos com influências da
música de jazz, hoje em dia são considerados como o que
há de mais puro, autêntico e verdadeiro em nossa música
popular brasileira.
Quem hoje em dia não reconheceria o genuíno caráter
brasileiro do choro “Lamentos” de Pixinguinha, ouvindo a magnífica
gravação instrumental de Jacob e seu conjunto Época
de Ouro, com bandolim, violões, cavaquinho, pandeiro e ritmista
?
A flauta original do arranjo de Pixinguinha foi substituída pelo
bandolim de Jacob com o seu sensível virtuosismo de executante
agilíssimo, que interpreta o genial choro com uma dinâmica
expressiva como se fosse uma mini peça de câmera erudita,
com nuances de rallentandos, accelerandos, decrescendos e crescendos e
variações improvisadas em torno da melodia lírica.
Num ponto culminante da improvisação livre em torno da inspirada
melodia chorosa, o executante aciona as regiões mais agudas do
seu bandolim em contraponto aos registros mais graves dos violões,
alcançando com a sua interpretação refinadíssima
um excepcional clímax melódico de elevado nível transcendental.
A gravação foi realizada nos estúdios da RCA Victor,
no Rio de Janeiro, no inverno de 1967; o antigo LP recebeu o expressivo
título de Vibrações, com a participação
de 7 (sete) músicos de altíssimo nível profissional:
Jacob (bandolim) , Dino (violão de 7 cordas), César (violão),
Carlinhos (violão), Jonas (cavaquinho), Gilberto (pandeiro) e Jorginho
(ritmista). O antigo LP já foi transferido para o moderno CD, na
série intitulada Acervo Especial, do arquivo da BMG Ariola/RCA,
com as gravações originais remasterizadas pelo sistema digital.
A inesquecível crítica de Cruz Cordeiro aparece registrada
incompleta até no verso do LP, relacionada à Face “B”,
da Faixa 7 (sete) do disco, nos comentários relativos ao choro
“Lamento” de Pixinguinha, escritos pelo próprio Jacob
do Bandolim, com pontos de exclamação no final, como se
a crítica fosse um grande equívoco: “...nessa música
não se encontra um caráter perfeitamente típico.
A influência das melodias e mesmo do ritmo da música dos
norte-americanos é, nesse choro, bem evidente. Esse fato nos causou
surpresa, porquanto sabemos o compositor um dos melhores autores de música
típica nacional. É por este motivo que julgamos este disco
o pior dos quatro que a Orchestra Pixinguinha-Donga oferece-nos esta quinzena!!!”
“Foi assim que a revista “Phono-Arte”, de 30.11.1928
(nº 8, pág. 24) apreciou o lançamento deste choro em
disco Parlophon nº 12.867-a. Pobre Pixinguinha, jazzificado! Todavia,
em junho de 1951, tentei sua divulgação na RCA – disco
80.0767/A - e, apesar de vendidos 11.137 discos, não despertou
a atenção pública que se interessou mais pela outra
face, uma polca. Mas como o que é bom atravessa os séculos,
surgiu uma letra, embora só para a 1ª parte. Foi o suficiente.
Graças a Deus e a Vinicius de Moraes, tomou-se conhecimento do
“pior” choro de Mister Pixinguinha. Antes assim. E contando
com a proverbial tolerância do autor, aqui oferecemos um novo aspecto
de “Lamento”.
Não foi o crítico de música
popular brasileira Cruz Cordeiro que jazzificou os choros “Lamentos”
e “Carinhoso” de Pixinguinha, mas foi o próprio compositor
que jazzificou os dois choros com as orquestrações originais
contendo influências bem evidentes da música
norte-americana. E "Graças a Deus" e a "Vinicius
de Moraes" foi feita uma letra "só para a 1ª parte"
de "Lamentos", mutilando a estrutura original do choro em duas
partes instrumentais, pois a 2ª parte musical do choro não
era adequada para a colocação de uma letra.
E os dois choros não ficaram populares
pelas sofisticadas versões instrumentais originais jazzificadas
de Pixinguinha, mas pelas versões com as simples letras que lhes
foram acrescentadas bem mais tarde por João de Barros e Vinicius
de Moraes. Enquanto as sofisticadas versões instrumentais dos choros
“Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha possibilitam
novas interpretações e improvisos criativos em torno das
músicas, as versões dos dois choros com a pobreza das letras
numa moldura literária rígida impossibilitam a riqueza variada
de interpretações e improvisos.
As letras simples de Vinicius de Moraes para “Lamentos” e
de Braguinha para “Carinhoso” deixaram as sofisticadas versões
instrumentais num segundo plano, com a colaboração, concordância
e participação do próprio compositor Pixinguinha
ao aceitar as letras. As versões instrumentais ficaram relegadas
a um segundo não só pela inserção das duas
bonitas letras, mas também pelas dificuldades de penetração
em nosso meio da música instrumental brasileira.
Letra de Vinicius de Moraes, para Lamentos:
Morena, tem pena/Mas ouve o meu lamento/Tento
em vão/Te esquecer?Mas, olhe, o meu tormento é tanto/Que
eu vivo em pranto e sou todo infeliz/Não há coisa mais triste,
meu benzinho/Que esse chorinho que eu te fiz
Sozinha, morena/Você nem tem mais pena/Ai, meu bem/Fiquei tão
só/Tem dó, tem dó de mim/Porque estou triste assim
por amor de você/Não há coisa mais linda neste mundo/Que
meu carinho por você.
Letra de Braguinha, para Carinhoso:
Meu coração...não sei porque/Bate
feliz...quando te vê/E os meus olhos ficam sorrindo/E pelas ruas
vão te seguindo/Mas mesmo....foges de mim . Ah se tu soubesses/Como
eu sou tão carinhoso/E muito muito que te quero/E como é
sincero meu amor/Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem...Vem sentir o calor dos lábios meus/À
procura dos teus/Vem matar esta paixão/Que me devora o coração/E
só assim então/Serei feliz, bem feliz.
Em Carta de Leitor publicada no Jornal
do Brasil, no Caderno Especial, em 26
de Janeiro de 1975, intitulada “Fato Social
e Fato Artístico”, questionando as análises
de caráter sociológico do historiador José
Ramos Tinhorão, com referência às criações
de nossos compositores populares, Cruz Cordeiro escreveu sobre a letra
de Braguinha: (...) “A propósito se note que Braguinha cometeu
o crime de fazer uma letra para o choro Carinhoso, de Pixinguinha, obra
essencialmente flautística e instrumental (grifei), para
atender contingências de um show beneficente programado pela Casa
do Pequeno Jornaleiro, como ele mesmo esclareceu (Fatos e Fotos de 18-02-74),
porém dizendo, ao mesmo tempo, que “sempre fez música
com o coração”.
Em outubro de 1936, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro apresentava o
espetáculo “Parada das Maravilhas”, promovido pela
primeira dama do país Darcy Vargas, tendo a participação
especial da atriz e cantora convidada Heloisa Helena. A cantora precisava
de uma canção nova que tornasse marcante a sua presença
no palco, e solicitou-a ao seu amigo Pixinguinha que na ocasião
não possuía nenhuma canção inédita.
Aceitando a sugestão da sua amiga cantora, Pixinguinha concordou
em que se colocasse uma letra no seu choro “Carinhoso” para
o show beneficente. E Braguinha relembra: “Procurei imediatamente
o Pixinguinha, que me mostrou a melodia num dancing (O Eldorado) onde
estava atuando; no dia seguinte entreguei a letra a Heloísa, que
muito satisfeita, me presenteou com uma gravata italiana”.
Depois que os excelentes letristas Braguinha e Vinicius colocaram os textos
simples nos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de
Pixinguinha, criados pelo genial músico para serem executados em
termos instrumentais com conteúdos musicais diversos dos literários,
e depois que afinal os dois choros se tornaram populares junto a um grande
público com as duas letras, o espírito crítico desapareceu
frente às iniciativas de popularização dos choros
mesmo com danos artísticos para obras em sua essência instrumentais.
Diga-se que a brasilidade indiscutível dos dois choros foi mais
reconhecida após a colocação das duas românticas
letras, e após as incontáveis gravações feitas
por inúmeros intérpretes masculinos e femininos de nossa
música popular nacional, do que depois das muitas gravações
instrumentais dos choros feitas com arranjos, improvisos e interpretações
nem sempre de genuíno caráter brasileiro.
E Pixinguinha com sua sensibilidade de artista como terá se sentido
ao perceber que os seus dois choros mais inspirados, ficaram mais conhecidos
pelos conteúdos dos simples versos consagrados, do que pelos conteúdos
das sofisticadas versões instrumentais ignoradas?
No Dicionário Houaiss Ilustrado da Música
Popular Brasileira, de criação e supervisão
geral de Ricardo Cravo Albin, editado pelo Instituto
Antônio Houaiss e concebido pelo Instituto
Cultural Cravo Albin, as relembradas críticas aparecem de
novo na pg. 593, na letra P, relativa ao nome de Pixinguinha: “Em
1922, a Orquestra Pixinguinha gravou os choros “Lamento” e
“Carinhoso”, na época considerados jazzificados pelo
crítico Cruz Cordeiro”.
Apesar das famosas críticas terem sido mais uma vez lembradas no
texto referente a Pixinguinha, o nome da Phono-Arte ou de Cruz Cordeiro
não aparece em nenhum dos verbetes do grosso dicionário
ilustrado de 1.155 páginas e de 5.322 verbetes. A Orquestra Típica
Pixinguinha-Donga gravou os dois choros em 1928, e não em 1922,
embora um tenha sido lançado no ano de 1928, e outro no ano de
1930.
Sérgio Cabral, em seu livro Pixinguinha,
Vida e Obra, no capítulo Influência
do Jazz, nos esclarece à respeito das duas gravações:
“Carinhoso” foi gravado na mesma época de “Lamentos”,
mas a Parlophon só o lançou para o público dois anos
depois. Por isso, só na edição de novembro de 1930
da “Phono-Arte” é que Cruz Cordeiro se ocupou dele”.
Na discografia de Sérgio Cabral no final do livro, o choro Lamento
foi gravado na matriz 2046, disco 12.867/A, em 11/1928, e o choro Carinhoso
na matriz 2048, disco 12.877, em 12/1928, ambos interpretados pela Orquestra
Típica Pixinguinha-Donga.
Espero que na próxima edição
revista e ampliada do Dicionário Houaiss Ilustrado – Musica
Popular Brasileira, a Revista Phono-Arte, Sérgio Vasconcellos e
Cruz Cordeiro sejam incluídos no verbete Classe A de texto maior,
“reservado para os grandes nomes da história da nossa música”.
Ainda, sobre o choro “Carinhoso”,
Pixinguinha em seu depoimento dado ao Museu da Imagem e do Som do Rio
de Janeiro em 1968, esclareceu: “Eu fiz o “Carinhoso”
em 1917. Naquele tempo o pessoal nosso da música não admitia
choro assim de duas partes (choro tinha que ter três partes). Então,
eu fiz o “Carinhoso” e encostei. Tocar o “Carinhoso”
naquele meio! Eu não tocava...ninguém ia aceitar.“Carinhoso”
era uma polca, polca lenta. O andamento era o mesmo de hoje e eu classifiquei
de polca ou polca vagarosa. Mais tarde mudei para chorinho”.
E lá está de volta de novo incompleta a propalada crítica
desfavorável à gravação do choro “Carinhoso”,
ocupando com letras maiores, de tipos bem diferentes e com aspas grossas
em negrito, o amplo espaço entre o título do artigo com
o nome do autor e o início do grande texto introdutório:
“Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos
rythmos e melodias da música de jazz. É o que temos notado,
desde algum tempo e mais uma vez nesse seu choro, cuja introdução
é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações
da pura (grifei) música popular yankee. Não
nos agradou.”
E no primeiro parágrafo, o início do enorme texto introdutório
do crítico Tárik de Souza ao livro
“Coleção – Revista da Música Popular”,
tendo como título da apresentação “Revista
da Música Popular – A bossa nova da imprensa musical”.
“O pequeno trecho acima, publicado sem assinatura na parte de miniresenhas
da revista Phono-Arte de 15 de Janeiro de 1929, tornou-se uma lenda. Atribuída
ao crítico J. Cruz Cordeiro Filho, co-diretor da primeira publicação
influente de música no país, que circulou entre 1928 e 1931,
a diatribe alveja nada menos que “Carinhoso”, obra-prima de
Alfredo da Rocha Viana Filho (1897-1973), o Pixinguinha (que a revista
chama de Pexinguinha), ainda sem a letra célebre de João
de Barro, o Braguinha. Phono-Arte também desceu a lenha em “Lamento”,
do mesmo “Pexinguinha” (posteriormente letrada com sucesso
por Vinicius de Moraes). Sua “influência das melodias e mesmo
da música dos norte-americanos é bem evidente”. Para
o analista, aquele era “o peor disco da Orquestra Pexinguinha-Donga”.
De curta, mas intensa participação na era dos “phonographos”
também chamados “machines falantes”, a Phono-Arte não
dava só bola fora. Ao comparar as gravações de Vicente
Celestino e de Mário Reis do samba de Sinhô, “De que
vale a nota sem o carinho da mulher”, optou pela segunda, reconhecendo
que o estilo sincopado de Mário era bem mais adequado que o do
bel cantante tenor, “cuja voz muito possante tem dado trabalho aos
técnicos da Odeon”.
Por desconhecer o significado da estranha palavra diatribe, consultei
o novo Dicionário Aurélio: “ Diatribe: S.f. Crítica
acerba, escrito ou discurso violento e injurioso”. E a palavra acerbo
quer dizer “severo, duro, áspero: Suas críticas foram
por demais acerbas”.
Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Alfredo da
Rocha Viana Filho falou sobre o seu apelido:
“- O meu apelido não era Pixinguinha e sim Pizinguin. Pizinguin
foi dado pela minha avó africana. Segundo Almirante, quer dizer
“pequeno bobo”. Já Pixinguinha surgiu porque eu contraí
bexiga, na época da epidemia. Começaram então me
tratar de Bexiguinha e depois de Pexinguinha. Houve essa confusão
toda e eu não sei porque fiquei como Pixinguinha. Minha família,
contudo, ainda me trata de Pizinguim”.
Sérgio Cabral, no livro Pixinguinha, Vida e Obra (Mec/Funarte),
donde retirei o depoimento do compositor, ainda esclarece sobre o apelido:
“Deve ter levado muito tempo mesmo para que o apelido de Pixinguinha
se fixasse. Até meados dos anos 20, tanto nos jornais como nas
etiquetas dos discos, lemos “Pechinguinha”, “Pichinguinha”,
“Pexiguinha”, etc. Um anúncio publicado na revista
“Careta”, de 25 de dezembro de 1915, recomendando a venda
na Casa Editora Carlos Werhs (Rua da Carioca, 32) do tango “Dominante”,
dava o nome do autor da seguinte maneira: Alfredo da Rocha Viana (Pizidin)”.
Ainda, na discografia do livro de Sérgio Cabral, do ano de 1911
ao ano de 1977, durante quase todo o ano de 1928, Alfredo da Rocha Viana
Filho ainda aparece com o apelido de Pexinguinha, surgindo sempre o nome
artístico de Pixinguinha a partir do ano de 1929.
A crítica contrária à gravação de “Lamentos”
foi feita em 30.11.1928, no nº 8 da revista, na página 24
(Sérgio Cabral e Jacob do Bandolim). A crítica desfavorável
a gravação de “Carinhoso” ora é registrada
em 15.01.1929, no nº 11 da Phono-Arte (Tárik de Souza e Dárcio
Fragoso), ora na edição de 30 de novembro de 1930 (número
32), conforme Sérgio Cabral na reportagem sobre Cruz Cordeiro e
na obra sobre Pixinguinha.
Logo, considerando-se as datas de 30.11.1918, 15.01.1929,
ou mesmo de 30.11.1930, a Revista Phono-Arte ao registrar o nome artístico
de Pexinguinha, não o fez por ignorância, por displicência
ou por desconsideração ao artista, mas pelos motivos
expostos por Sérgio Cabral em sua premiada monografia sobre Pixinguinha.
A monografia do escritor Sérgio Cabral foi eleita vitoriosa no
concurso de monografias sobre o artista instituído pela Fundação
Nacional de Arte (FUNARTE).
E mais adiante Tárik de Souza transcreve um pequeno trecho de apresentação
do exemplar nº 1, da Revista da Música Popular, de Lúcio
Rangel (1914-1979): “Ao estamparmos na capa do nosso primeiro número
a foto de Pixinguinha, saudamos nele, como símbolo, ao autêntico
músico brasileiro, o criador e verdadeiro que nunca se deixou influenciar
pelas modas efêmeras ou pelos ritmos estranhos ao nosso populário”.
E logo no parágrafo seguinte: “Parece uma resposta à
Phono-Arte. E o mais curioso é que “entre os melhores especialistas
no assunto”, escalados pela revista, como promete o editorial, lá
estará, mais adiante, o referido Cruz Cordeiro, das farpas atiradas
em “Carinhoso” e “Lamento”. A cavaleiro de uma
bela e rara foto do Bando dos Tangarás (Noel, Almirante, Braguinha,
Luperce Miranda) ele estréia com grande pompa no número
7, apresentado como “romancista, filólogo e crítico
musical”. Além de compilar um alentada “Discografia
da produção nacional”, ele discorre a respeito de
“folcmúsica e música popular brasileira”, por
trás de óculos de aros grossos e empertigados terno e gravata,
num visual à Ely Azeredo. Mais curioso ainda é Sérgio
Porto, de quem não se pode dizer que foi convocado por ser sobrinho
do diretor, logo no primeiro número da revista tece uma ode a “Lamentos”
(já acrescido do “s”), numa gravação
“de mais de 20 anos”. Próxima, portanto, da execrada
pelo mesmo Cordeiro”.
Assim, a Revista da Musica Popular apresentou Cruz Cordeiro em sua estréia,
a partir da publicação nº 7, de maio e junho de 1955,
“com grande pompa”, “a cavaleiro de uma bela e rara
foto do Bando dos Tangarás”, e “por trás de
óculos de aros grossos e empertigados terno e gravata”:
“Neste número da REVISTA DA MÚSICA POPULAR apresentamos
aos nossos leitores a “discografia da Produção Nacional”,
trabalho como nunca se fez outro igual em nosso meio. Organizada por Cruz
Cordeiro, romancista, filólogo e crítico musical, a iniciativa
está destinada aos mais franco sucesso, possibilitando ao discófilo,
aos estudiosos, aos vendedores das lojas especializadas, um completo panorama
de tudo que se publicou no Brasil em matéria de discos. Com uma
simples referência, com a mais rudimentar informação,
o leitor encontrará facilmente todos os detalhes referentes à
sua música predileta ou ao seu cantor referido. É um trabalho
gigantesco que o nosso novo colaborador vai empreender mensalmente e que
temos o maior orgulho em apresentar aos nosso leitores do Brasil”.
Lembro-me que um dia comentei com o meu pai Cruz
Cordeiro sobre a pequena foto infeliz afixada na sua seção
na Revista da Música Popular, quando ele observou que a foto era
a única mais recente que ele tinha naquele momento para ilustrar
a seção de sua competência. Entretanto, comentar sobre
uma foto infeliz de um colaborador existente em alguns exemplares numa
seção da Revista da Música Popular, tem um sentido
bastante diverso daquele afirmando de modo depreciativo que o colaborador
na foto está “por trás de óculos de aros grossos
e empertigados terno e gravada”. E “entre os melhores especialistas
no assunto”, lá estará, mais adiante, o referido Cruz
Cordeiro, das farpas atiradas em “Carinhoso e “Lamento”,
apresentado “como romancista, filólogo e crítico musical”,
com os dizeres entre aspas lançando farpas irônicas de evidentes
sentidos depreciadores, diminuidores, desvalorizadores, demolidores.
O artigo de Sérgio Porto é de setembro de 1954, data de
lançamento do primeiro exemplar da Revista da Música Popular,
e uma gravação de 20 anos atrás foi feita no ano
de 1934, dentre as muitas gravações que Pixinguinha
fez dos seus choros preferidos, com arranjos, interpretações,
harmonias, sons, improvisos e instrumentos diferentes em cada gravação.
Transcrevo os 3 (três) parágrafos iniciais do artigo de Sérgio
Porto sobre a gravação de “Lamentos”:
“Tenho escutado, e cada vez com maior prazer, o disco que a Rádio
Record me ofereceu por ocasião do Festival da Velha Guarda, realizado
em São Paulo. São dois chorinhos de Pixinguinha, gravados
há mais de 20 anos e dos quais a citada emissora tirou cópias
em acetato para oferecer aos jornalistas convidados do festival”.
““Lamentos”, de um lado, e “Chorei”, do
outro, são dois dos mais autênticos números do famoso
flautista de outrora, hoje encantando a todos os que o ouvem soprando
o sax-tenor, instrumento a que se dedica atualmente”.
“Gosto, sobretudo, de “Lamentos”, em que se destaca
o trompete com surdina executado pelo falecido Bonfiglio de Oliveira.
À riqueza melódica do chorinho, junta-se a perfeição
com que os músicos tocam, todos eles inspiradíssimos, não
fosse das maiores figuras da nossa música popular. A flauta de
Pixinguinha, num maravilhoso contracanto, e o ritmo das cordas (provavelmente
Nelson, no cavaquinho, e Donga, no violão) emprestam uma tal beleza
a “Lamentos”, que – repito – não me canso
de ouvir esta gravação, tão antiga e, ao mesmo tempo,
tão linda e (porque não?) atual”.
O primoroso livro Coleção Revista da Música
Popular, de 775 páginas, contém a coleção
completa em fac-símile dos 14 (quatorze) exemplares da revista
de setembro de 1954 a setembro de 1956. E sobre a produção
e impressão do livro no verso da última página: “Este
livro foi produzido na cidade do Rio de Janeiro pela Fundação
Nacional de Artes – Funarte, co-editado com a Bem-Te-Vi
Produções Literárias, e impresso na Sermograf
– Artes Gráficas e Editora, em Petrópolis-RJ, no quarto
trimestre de dois mil e seis, com arquivos digitais fornecidos pela Funarte.
As farpas são de Tárik de Souza atiradas em Cruz Cordeiro,
e não farpas atiradas por Cruz Cordeiro em “Carinhoso e “Lamentos”,
pelas análises justas que o crítico musical fez com
carinho às antigas gravações dos dois principais
choros de Pixinguinha.
O crítico Tárik de Souza ao enxergar uma diatribe na crítica
justa de Cruz Cordeiro, acaba cometendo várias diabruras com seu
tridente analítico cheio de pontas afiadas, escrevendo que “a
diatribe alveja nada menos que “Carinhoso”, que o crítico
“também desceu a lenha em Lamento” e que Cruz Cordeiro
atirou farpas em “Carinhoso” e “Lamentos” de “Pexinguinha”.
Na realidade foi Tárik de Souza que desceu a lenha em Cruz Cordeiro
e que alvejou o crítico musical da Phono-Arte com paus, farpas,
diatribes e diabruras, com o execrado colaborador da Revista da Música
Popular “por trás de óculos de aros grossos e empertigados
terno e gravata”.
Exceto na transcrição equivocada do crítico Tárik
de Souza, nas demais transcrições do famoso trecho “apresenta
em seu decorrer combinações da música popular yankee”,
não existe a palavra pura antes da expressão
música popular yankee, inserida para ressaltar
ainda mais uma imaginada diatribe na crítica acertada de Cruz Cordeiro.
Também, ao deixar de transcrever todo o texto analítico
de Cruz Cordeiro relativo ao choro “Carinhoso” de “Pexinguinha”,
o crítico Tárik de Souza reduziu o texto completo ao “pequeno
trecho acima, publicado sem assinatura na parte de miniresenhas da revista
Phono-Arte”, como se Cruz Cordeiro não assinasse e não
assumisse as críticas que fazia em sua época na revista
pioneira.
Quer dizer, além de não assinar e assumir as suas “miniresenhas”
na Revista Phono-Arte, o crítico Cruz Cordeiro ainda se esconde
“por trás de óculos de aros grossos e empertigados
terno e gravata” na Revista da Musica Popular. A crítica
musical de Cruz Cordeiro à gravação do choro "Carinhoso"
de Pixinguinha só se tornou uma lenda para os analistas descuidados
que não procuraram pesquisar a autoria da crítica, o texto
analítico completo e o contexto jazzístico da época.
No afã leviano de se encontrar uma diatribe, uma injúria,
uma violência ou uma injustiça nas críticas musicais
de Cruz Cordeiro aos dois choros de Pixinguinha, quase sempre os dois
textos críticos mais conhecidos do analista não são
transcritos em sua totalidade, sendo que um crítico se diferencia
do outro pela sua postura ética no campo artístico que lhe
diz respeito.
Qualquer supressão da parte de um texto crítico, qualquer
transcrição incompleta de suas palavras ou qualquer modificação
do texto analítico original, impedem a avaliação
correta, íntegra, honesta e verdadeira do seu conteúdo.
No caso do choro “Lamentos”, omite-se a parte inicial do texto
onde Cruz Cordeiro nota também a influência da música
norte-americana no choro “Amigo do povo”, de Donga; e no caso
do choro “Carinhoso”, suprime-se o trecho inicial onde o crítico
reconhece a excelência, a tipicidade e o sentimentalismo do maxixe
“Não diga não” de Peri.
Num dos primeiros números da Phono-Arte, Cruz Cordeiro elogiou
a música “Ranchinho Desfeito” de Donga e Castro de
Souza: “O popular Donga parece que possui o segredo do sentimento
e do ritmo da nossa música popular. Ele é sem dúvida
um dos nossos melhores compositores de música típica, sendo
um especialista em maxixe e samba. Música delicada, harmoniosa,
sentimental, bem ritmada e sumamente típica. É uma composição
que agrada facilmente. Cremos mesmo ser “Ranchinho Desfeito”
uma das melhores composições do nosso popular autor. Gostamos
imensamente”.
Da mesma maneira que os demais críticos em suas áreas específicas
de atuação, Cruz Cordeiro também cometeu erros de
avaliação crítica no campo da música popular
brasileira, como ocorreu no caso em que “ele espinafrou “A
Voz do Violão”, de Francisco Alves e Horácio Campos”.
“Francisco Aves, nosso cantor, não foi muito feliz em sua
peça, pois a música nos parece pobre. Música sem
grande interesse, com introdução e duas partes, sendo a
primeira melhor, pois a segunda é um tanto forçada. Letra
apenas interessante”.
Entretanto, com humildade, Cruz Cordeiro reconsiderou a sua crítica
musical na entrevista dada ao jornalista Sérgio Cabral:
“Cruz Cordeiro justifica a crítica dizendo que tinha se baseado
apenas na edição da música, mas que mudou de opinião
depois que ouviu em disco”.
Os leitores internautas podem observar a maneira como Cruz Cordeiro escreveu
sobre os compositores e cantores que foram objetos de suas análises
musicais a favor ou contra. O modo de escrever do crítico expressa
em seus textos muito bem escritos a delicadeza, o carinho, o respeito
e a admiração pelos valores da sua época no campo
da música popular nativa.
Até no movimentado, bonito e caprichado site romântico de
Dárcio Fragoso na Internet, aparece de novo incompleta, desta vez
a meu ver num local inadequado, a crítica de Cruz Cordeiro ao choro
Carinhoso de Pixinguinha, onde a letra de Braguinha por seu romantismo
aparece com destaque em letras maiores no site em movimento: “Sobre
essa gravação, um crítico pouco versado em jazz publicou
o seguinte comentário na revista Phono-Arte (nº 11, de 15.01.1929):”
“Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos
ritmos e melodias do jazz. É o que temos notado, desde algum tempo,
e mais uma vez neste seu choro, cuja introdução é
um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações
de música popular yankee. Não nos agradou”.
Embora não tenha identificado o nome do autor da crítica
musical, o criador do site se referiu ao crítico não mencionado
como “um crítico pouco versado em jazz”, donde se conclui
que o autor do site romântico é um crítico muito versado
em jazz.
Como crítico de música popular brasileira, Cruz Cordeiro
tinha conhecimento e percepção musicais suficientes para
discernir entre um ritmo de choro e um ritmo de fox-trot, e também
para notar as influências da música norte-americana nas obras
de Pixinguinha e Donga naquela época.
Mas como declarou Cruz Cordeiro, na entrevista dada a Sérgio Cabral:
“- Mas foi uma influência muito eventual, ocasional –
justifica o jornalista”.
E como em nossa sociedade negativista o erro se alastra mais do que o
acerto, “um crítico pouco versado em jazz” ressurge
no excelente site MPB- CIFRANTIGA, no estudo referente
ao samba-choro “Carinhoso”, tendo como fonte a obra A Canção
no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34”.
“Assim, composto na mesma época de Sofres Porque Queres (um
choro em três partes) e a valsa Rosa – gravados na Casa Edison
em 1917 -, Carinhoso só chegaria ao disco em dezembro de 1928,
interpretado pela orquestra Típica Pixinguinha-Donga, na Parlophon.
Sobre essa gravação, um crítico pouco versado em
jazz publicou o seguinte comentário na revista Phono-Arte (nº
11, de 15.01.29). “Parece que o nosso popular compositor anda sendo
influenciado pelos ritmos e melodias do jazz. É o que temos notado,
desde algum tempo e mais uma vez neste seu choro, cuja introdução
é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações
da musica popular yankee. Não nos agradou”
E, ainda no mesmo site MPB-CIFRANTINGA, num enriquecedor
ensaio sobre a origem do gênero Choro, sendo a fonte a obra Choro
– Uma música sentimental, sofisticada e muito brasileira,
de Carlos Calado, referindo-se aos “dois inovadores choros de Pixinguinha”:
“O fato de ambos terem sido feitos em duas partes, em vez de três,
foi interpretado pelo preconceituoso crítico Cruz Cordeiro como
uma inaceitável influência do jazz”.
Em suas críticas contrárias às gravações
jazzificadas dos choros “Lamentos” e “Carinhoso”
de Pixinguinha, Cruz Cordeiro não fez quaisquer comentários
sobre a estrutura dos dois choros em duas partes ao invés de três,
quanto mais perceber em tal “inovação” na estrutura
do gênero choro “uma inaceitável influência do
jazz”.
Luís Antônio Giron, musicólogo,
jornalista, escritor, pesquisador e crítico, em seu ensaio na Internet
com o título “As cifras improvisadas de Pixinguinha”,
discorre sobre a escrita musical de Pixinguinha em suas partituras: “Pixinguinha
levou à náusea o método de variação,
típico também do jazz (nesse sentido sua obra é uma
resposta brasileira à prática de New Orleans). Era um autor
intuitivo e grafou suas partituras com descuido. Muitos de suas indicações
harmônicas são esquemáticas, quando não equivocadas.
Examinar uma obra escrita do compositor pode causar constrangimento naquele
interessado que passou a vida ouvindo que Pixinguinha foi “o primeiro
arranjador brasileiro” ou coisas como “canonizá-lo
é um dever do Vaticano” (Hermínio Bello de Carvalho).
A escritura do músico é de um aluno de iniciação
à música: as indicações são as mais
simples possíveis, como compassos, ligaduras e claves. Não
existem dinâmicas ou marcações expressivas. Alguma
coisa se perdeu no translado da execução ao pentagrama.
Como uma partitura barroca, porém, sua riqueza está em outra
parte, no domínio do improviso e da interpretação.
Não há como julgá-lo pelo aspecto exclusivamente
formal. Quem o fizer e tentar defini-lo como grande mestre ao lado de
Vila-Lobos, por exemplo, comete uma improcedência. Perfilá-lo
com Radamés Gnatalli, então, seria injustiça para
com o grande metódico que foi o músico gaúcho”.
No início de um parágrafo, o musicólogo ainda observa
que “Pixinguinha foi um homem modesto, de educação
autodidata”, e no início de outro afirma que sua obra “não
contempla as aquisições da linguagem musical moderna”.
E em continuidade escreve: “Vinculada à arte improvisatória
do choro, move-se por quadraturas rudimentares. Os maestros que o sucederam
no comando de orquestras de rádio e gravadoras, como Radamés
Gnatalli, Fon-Fon, Lyrio Panicalli e Leo Peracchi, consideram-no ultrapassado,
seguidor dos procedimentos do século XIX”.
Do seu lado, Sérgio Cabral, na obra já
citada, no capítulo O Músico, expõe
a sua visão sobre o mesmo assunto: “A posição
que sempre ocupou em nossa música popular também o destacou
como pioneiro de outro campo: o da orquestração. O grande
passo tecnológico dado pelas fábricas de discos com o advento
da gravação elétrica fez com que surgisse a figura
do arranjador. Contratado por uma das nossas gravadoras, em 1929, para
exercer também esse tipo de atividade, coube a ele a tarefa de
encontrar harmonias e sons para vários gêneros musicais apresentados,
até então, da maneira mais primitiva. Dizer-se que Pixinguinha
foi o “fundador” do arranjo de música brasileira não
é nenhum exagero, é apenas a constatação de
uma verdade histórica. Sem o seu trabalho como orquestrador, a
evolução da música popular em nosso país teria
sido processada de outra maneira. Certamente, com mais vagar”.
Pelo que é escrito e reescrito sobre as duas famosas críticas
de Cruz Cordeiro, parece que os estudiosos e pesquisadores não
ouviram as duas antigas gravações da Parlophon que lançaram
na época os choros “Lamentos” e “Carinhoso”
de Pixinguinha.
Pesquisando na discoteca do Museu da Imagem e do Som,
no acervo da Rádio Nacional e no Instituto
Moreira Salles, na coleção impressionante de José
Ramos Tinhorão, não localizei os discos 12.867/A
e 12.877 com as gravações dos dois choros, da gravadora
Parlophon, ambos executados pela Orquestra Pixinguinha-Donga no ano de
1928.
Pelo escrito em seu ensaio esclarecedor, o musicólogo Luís
Antônio Giron ouviu a antiga gravação em disco do
choro “Carinhoso” de 1928, permanecendo a curiosidade em saber
onde o estudioso obteve o antigo registro musical, que podia ser revelado
pela Internet ao público interessado no assunto:
“Apesar do caráter “naif” da escritura, não
há como negar o talento contrapontístico de Pixinguinha.
Escreveu também arranjos completos, como o da “Protofonia”,
de “O Guarani” (partitura datada de 25 de julho de 1949) e
quase transforma em rapsódia a peça folclórica “Macumba
Canomblé” (1938). Realizou dois arranjos definitivos para
sua obra-prima, o samba-choro “Carinhoso”, pensada genuinamente
como obra instrumental (só em 1937 o compositor João de
Barro, mais tarde conhecido como Braguinha, colocou-lhe letra ). A prova
da afirmação pode ser obtida na gravação original
da música, pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga (Parlophon,
matriz 12.877b, gravada em 1928 e lançada dois anos depois). O
balanço instrumental, o intercâmbio dos timbres, o uso de
harmonias do jazz americano, tudo faz de “Carinhoso” um tour
de force, aliás apontada na época como fruto da “americanização”
do compositor. A observação foi do crítico Cruz Cordeiro,
em artigo publicado na revista Phono-Arte. Escreveu: “Nesse seu
choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot,
apresenta em seu decorrer combinações da música popular
yankee. Não nos agradou”. O crítico estava certo,
embora a música tivesse agradado e assinado uma das melhores incorporações
orgânicas da harmonia do jazz à música brasileira.
O músico se gabava: “Eu compus também músicas
japonesas e outras”. Dez anos depois da gravação de
“Carinhoso”, faria um arranjo sinfônico da música
para a rádio Mayring Veiga. Ele trai o esforço inútil
de Pixinguinha em se parecer a um erudito alemão. Soa bem mais
estereotipado que o arranjo original”.
Só mesmo um musicólogo sério
que teve o interesse de estudar as partituras de Pixinguinha, e a responsabilidade
de escutar a antiga gravação jazzística do choro
“Carinhoso”, poderia trazer as informações ausentes
para o entendimento correto das críticas de Cruz Cordeiro à
gravação primeira do choro de Pixinguinha.
O crítico Cruz Cordeiro se referiu ao
choro “Carinhoso” como “obra essencialmente
flautística e instrumental”, e o musicólogo
Luís Giron se referiu ao mesmo choro como "obra-prima
pensada genuinamente como obra instrumental”.
Percebo contradições nas análises de Giron no parágrafo
acima sobre o arranjo original do choro “Carinhoso” de Pixinguinha,
pois em contraposição ao “não nos agradou”
de Cruz Cordeiro, e depois da afirmação de que “o
crítico estava certo”, logo em continuidade a ressalva contraditória
do musicólogo: “embora a música tivesse agradado e
assinado uma das melhores incorporações orgânicas
da harmonia do jazz à música brasileira”. E comparando
com o arranjo sinfônico de Pixinguinha do mesmo Carinhoso para a
rádio Mayring Veiga, Luís Antônio afirma que este
arranjo ao imprimir o estilo erudito alemão “soa bem mais
estereotipado que o arranjo original”. Ora, se o arranjo sinfônico
que foi feito por Pixinguinha dez anos depois para o mesmo choro Carinhoso
“soa bem mais estereotipado que o arranjo original”, e que
“ele trai o esforço inútil de Pixinguinha em se parecer
a um erudito alemão”, como é que a música no
arranjo original estereotipado do choro pode ter “agradado e assinado
uma das melhores incorporações orgânicas da harmonia
do jazz à musica brasileira” ?
O musicólogo Giron não fez menção aos instrumentos
que fizeram parte da execução do choro “Carinhoso”
na gravação de 1928, para esclarecer entre quais instrumentos
musicais se processou o “intercâmbio dos timbres”. A
palavra timbre, segundo o Dicionário Musical de Frei Pedro Sinzig,
significa: “A “cor” dos sons ou da voz; a qualidade
que faz ser diferente uma voz da outra, a flauta do violino, a tromba
do oboé, etc.”.
Pelo Dicionário Aurélio, no sentido
musical, arranjo quer dizer “versão
diferente da original, de obra ou fragmento de obra musical, feita pelo
próprio compositor ou por outra pessoa”, e “no jazz
processo de criação que procura substituir a improvisação
pela anotação prévia”. E orquestração,
segundo o mesmo Dicionário, significa “cunho, feição,
maneira por que um compositor combina e justapõe os diversos instrumentos
de uma orquestra”. Ou seja, há muitas diferenças de
sentidos entre arranjo e orquestração, embora na maioria
das vezes os dois termos sejam usados com se tivessem os mesmos sentidos
e fossem palavras sinônimas.
E logo no parágrafo seguinte, no final do seu luminoso ensaio,
Luís Antônio Giron conclui: “A prova dos nove do legado
do músico está nas execuções, nos improvisos
que realizou no bafo do choro à flauta e ao saxofone. Este ele
adotou durante a temporada do grupo Oito Batutas no Dancing Schéhéarazade
em Paris no inverno de 1922. A maioria das suas improvisações
se perdeu nas sessões de choro do passado. Foram lembradas por
seus contemporâneos como imbatíveis, cifras descobertas ao
acaso da execução. Algumas delas foram fixadas em disco
em 1946 para Victor, com Pixinguinha ao sax-tenor e Benedito Lacerda à
flauta. A dupla gravou 34 discos entre 1946 e 1951. Nesse período,
ele vivia a tragédia da falta de embocadura na flauta. Por falta
de fôlego e pavor de errar, tinha largado o instrumento em que se
criara. O sax, de sopro mais fácil, o obrigou a tramar contrapontos
na região grave de suas composições. Com a perda
do princípio do prazer originário que lhe era proporcionado
pela flauta, tornou-se mais racional. Conforme declarou, as sessões
de improviso consistiam em catarses, eliminação dos sentimentos
por efeito do conhecimento material. O grande legado de sua arte está
nessa tentativa de produzir saber sonoro por força do raciocínio
instantâneo”.
Sérgio Cabral, no capítulo Influência
do Jazz, esclarece que a intenção de Donga e Pixinguinha,
ao criarem “uma orquestra típica”, “um conjunto
de choro bem ampliado”, era nacionalista. E, referindo-se às
duas famosas críticas de Cruz Cordeiro, observou: “Portanto,
segundo o crítico, eles não foram brasileiros exatamente
nas gravações dos dois mais famosos choros de Pixinguinha”.
Cruz Cordeiro, na entrevista concedida a Sérgio Cabral, afirmou
“que não se arrepende das críticas
que fez a Pixinguinha, pois o próprio músico reconheceu
em conversa com ele que, realmente, andava na época influenciado
pela música norte-americana, principalmente nas orquestrações
(grifei)”.
As orquestrações de Pixinguinha com a influencia da música
norte-americana devem ter transformado os dois choros em produtos musicais
híbridos, nem de genuíno caráter brasileiro e nem
de autêntico caráter americano, mescla estranha de harmonias
nacionais e estrangeiras, mistura artificial de instrumentos brasileiros
e americanos, amálgama esquisita do ritmo de choro e do ritmo de
jazz. Talvez misturando fox-trot e choro, ritmo nacional e internacional,
harmonia brasileira e estrangeira, instrumental típico e atípico,
os compositores Donda e Pixinguinha quisessem inovar em termos rítmicos,
harmônicos, melódicos e instrumentais no gênero choro,
tentando fazer uma síntese universal não bem sucedida da
música americana e brasileira populares.
De fato, nos lançamentos de dois choros numa época bem afastada
de épocas mais recentes, sem que existam outros arranjos, improvisos
e interpretações dos mesmos choros para fins comparativos,
torna-se difícil para um crítico perceber a brasilidade
de dois choros inéditos da nossa música popular genuína,
envolvidos por uma embalagem orquestral com harmonias, ritmos, sons, balanços
e instrumentos de uma famosa música estrangeira.
Quando o musicólogo Luís Antônio Giron em seu ensaio
fala sobre “ o balanço orquestral”, “o intercâmbio
dos timbres” e “o uso de harmonias do jazz americano”,
com certeza está se referindo ao modo jazzístico com que
o próprio Pixinguinha arranjou e interpretou o seu choro “Carinhoso”,
tão influenciado que estava na época pela música
norte-americana e pela formação orquestral de uma metálica
jazz-band yankee.
E relembrar que Cruz Cordeiro em suas críticas
contrárias às gravações jazzísticas
dos choros “Lamentos” de Pixinguinha e “Amigo do Povo”
de Donga, afirmou: “A influência das melodias e mesmo do ritmo
das músicas norte-americanas é, nesses dois choros,
bem evidente”. E reafirmou as suas críticas com referência
às orquestrações jazzísticas do choro Carinhoso,
não havendo dúvidas musicais por parte do crítico
Cruz Cordeiro quanto à influência da música norte-americana
nas orquestrações dos dois belos choros brasileiros.
O crítico Cruz Cordeiro de modo CARINHOSO
em suas críticas musicais foi contrário à antigas
gravações jazzificadas dos dois famosos choros, e o músico
Pixinguinha sem LAMENTOS aceitou as críticas
ao reconhecer na época a influência da música norte-americana
na sua obra. Demonstrando que não restaram mágoas e ressentimentos
em relação ao crítico musical na alma do artista
criticado, mais tarde Cruz Cordeiro e Pixinguinha juntos estarão
lançando com sucesso estrondoso a marcha “O Teu Cabelo
não Nega” de Lamartine Babo nos salões do Clube Fluminense,
no Rio de Janeiro.
As duas famosas críticas acertadas de Cruz Cordeiro, o ensaio do
musicólogo Luís Antônio Giron e as declarações
do próprio músico Pixinguinha, desdizem aquela afirmação
no editorial de apresentação da Revista da Música
Popular, de Pérsio de Moraes e Lúcio Rangel, que Pixinguinha
“nunca se deixou influenciar pelas modas efêmeras
ou pelos ritmos estranhos ao nosso populário”. E o
próprio brasileiríssimo compositor Pixinguinha ainda se
gabava: “Eu compus também músicas japonesas e outras”.
E revelando uma percepção artística-musical
muito além do seu tempo, o crítico Cruz Cordeiro soube entender
com sua fina sensibilidade logo no primeiro disco o estilo inédito
de cantar de Mário Reis com sua voz pequena , numa época
em que dominavam as grandes vozes masculinas nos intérpretes de
nossa música popular brasileira:
“Esse é o primeiro disco de Mário Reis, o simpático
amador, que canta a primeira peça de modo muito original. Dono
de uma interpretação digna de nota, o artista realiza uma
espécie de canto sincopado muito expressivo que, se à primeira
vista nos impressiona mal, pouco depois agrada-nos imensamente. O acompanhamento
ao violão de Donga e Sinhô muito brilho dá ao conjunto.
Gravação excelente”.
Sérgio Cabral, no seu livro ABC
– um desfile dos craques da MPB, no capítulo referente
à Mário Reis, na entrevista concedida
pelo artista aos 70 anos, observa que o cantor “foi
o iniciador de uma nova era para a interpretação de nossa
música, num estilo que marcou época até hoje”,
e que “não deve ser esquecido que João
Gilberto foi saudado como “um novo Mário Reis”.
O crítico Cruz Cordeiro também soube
perceber logo no começo a beleza do delicioso samba “Com
que Roupa ?”, de Noel Rosa, e o estilo
gracioso e saboroso do autor de cantar o próprio samba. A imorredoura
crítica elogiosa de Cruz Cordeiro aparece no numero 46, da Phono-Arte,
de dezembro de 1930:
“Noel Rosa, que pertence ao já popular Bando dos Tangarás,
aparece como autor do samba “Com que roupa”, cantado por ele,
com acompanhamento de regional, na primeira faixa do disco nº 13.245,
da Parlophon”.
“Esse samba desde logo projetou-se como um dos grandes sucessos,
apresentando-se como um dos prováveis êxitos do carnaval
que aí vem. Ao nosso ver, esse samba que todo o Rio já sabe
de cor, é excelente pela originalidade da letra e o sabor esquisito
do ritmo, dentro do qual a letra está magnificamente bem enquadrada.
Reparem os amadores como caem bem dentro da música e do ritmo as
rimas conduta, luta, fruta, sopa, roupa, estopa. Enviamos daqui os nossos
parabéns a Noel Rosa pela originalidade do seu samba, que ele próprio
canta com graça e especial sabor, acompanhado por adestrado regional.
No complemento, aparece o samba “Malandro medroso”, peça
que não se mostra digna companheira do que está gravado
no outro lado”.
Parece que alguns estudiosos e pesquisadores de nossa música popular
brasileira não vão esquecer nunca e não vão
perdoar jamais as críticas desfavoráveis de Cruz Cordeiro
às gravações dos choros “Lamentos” e
“Carinhoso” de Pixinguinha, realizadas no ano de 1928.
A entrevista do jornalista Sérgio Cabral
feita com Cruz Cordeiro em sua residência,
publicada com bastante destaque no Jornal O Globo
em 22/7/76, com o título CRUZ
CORDEIRO – O primeiro colunista de discos do Brasil -, ressalta
a inegável importância crítica, histórica e
cultural da Phono-Arte, de Sérgio
Vasconcellos e de Cruz Cordeiro, que foi
o pioneiro em nosso país da crítica de nossa rica música
popular brasileira.
E, com referência ao tão comentado criador Pixinguinha, mais
adiante na reportagem, Sérgio Cabral registrou as declarações
do entrevistado illustre:
“Apesar das críticas contrárias
às gravações de “Carinhoso” e “Lamentos”,
outra grande admiração de Cruz Cordeiro é por Pixinguinha:”
“ - Nossa mãe, que músico !”
“Cruz Cordeiro o tem em alta conta como compositor, instrumentista,
arranjador e regente”.
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