13 - A PHONO-ARTE, “LAMENTOS” E “CARINHOSO” DE PIXINGUINHA
(Artigo do Filho em defesa do Pai)

1ª foto: Em casa do filho, Estrada Velha da Pavuna, Rio de Janeiro, outubro de 1972. 2ª foto: Acima, os Batutas viajando pelo Brasil, e abaixo, na casa do filho, Estrada Velha da Pavuna, Rio de Janeiro, outubro de 1972. 3ª foto: O músico na casa de Alfredo, seu filho, Estrada Velha da Pavuna, Rio de Janeiro, outubro de 1972. As fotos e os textos foram extraídos do livro de Sérgio Cabral, Pixinguinha Vida e Obra (Mec/Funarte).

Lamentavelmente, o crítico de música popular brasileira Cruz Cordeiro ficou mais conhecido pelas suas críticas desfavoráveis às gravações jazzísticas dos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha, feitas lá pelos longínquos anos de 1928 e de 1930.

O jornalista Sérgio Cabral, após entrevistar Cruz Cordeiro em sua residência, teve a sua grande reportagem publicada pelo Jornal o Globo em 22.07.76, destacando logo na abertura da reportagem, com letras maiores em negrito, as críticas favoráveis do ilustre entrevistado, e uma crítica contrária: “Elogiou o primeiro disco de Mário Reis, criticou Francisco Alves e sustentou que “Jura”, de Sinhô, “caiu no gosto do público”. Soube ver, no começo, a beleza de “Com que roupa”, de Noel Rosa. E foi o responsável pelo lançamento de “O teu cabelo não nega” na RCA”.

Mais adiante, na reportagem, Sérgio Cabral registra as duas mais conhecidas críticas aos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha.

“Em novembro de 1928, Cruz Cordeiro publicou uma das suas mais famosas críticas, a que acusou Pixinguinha e Donga de americanizados. Depois de comentar três discos feitos pela Orquestra Pixinguinha-Donga (recomendando-os aos leitores), escreveu”:

“O quarto disco contém dois choros: um de Pixinguinha, “Lamentos”, outro de Donga, “Amigo do povo”, sobre os quais não podemos deixar de notar que em suas músicas não se encontra um caráter perfeitamente típico. A influência das melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é, nesses dois choros, bem evidente. Este fato nos causou sérias surpresas porquanto sabemos que os compositores são dois dos melhores autores da música típica nacional. É por esse motivo que julgamos esse disco o pior dos quatro que a Orquestra Pixinguinha-Donga ofereceu nesta quinzena”.

“A mesma coisa Cruz Cordeiro diria mais tarde, na edição de 30 de novembro de 1930 (número 32), observando influência norte-americana em nada mais nada menos do que em “Carinhoso””.

“O disco 12.877 da Parlophon apresenta a Orquestra Pixinguinha-Donga. De um lado o maxixe de Peri, “Não diga não”. Excelente música, muito típica, sentimental, bem ritmada e dançada. No complemento, vamos encontrar um choro de Pixinguinha, “Carinhoso”. Parece que o nosso popular compositor anda muito influenciado pelo ritmo e pela melodia da música de jazz. É o que temos notado desde algum tempo, mais de uma vez. Nesse seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot, apresenta em seu decorrer combinações da música popular yankee. Não nos agradou”.

Se Cruz Cordeiro em suas críticas usava expressões tais como “caráter perfeitamente típico” ou “música típica nacional”, sabendo reconhecer o caráter rítmico e melódico nacional das composições populares de sua época, por que o crítico não iria reconhecer o genuíno caráter brasileiro dos 2 (dois) belos choros naqueles idos anos de 1928 e 1930 ?

E depois de ter comentado os três discos anteriores gravados pela Orquestra-Pixinguinha-Donga, e de ter recomendado as três gravações aos leitores da revista Phono-Arte, por que Cruz Cordeiro no quarto disco não iria recomendar as gravações dos choros “Amigo do Povo” de Donga e “Lamentos” de Pixinguinha ?

E depois de registrar a influência da música norte-americana nos dois choros, o crítico faz uma ressalva em relação aos dois compositores e que não pode deixar de ser destacada: “Este fato nos causou sérias surpresas porquanto sabemos que os compositores são dois dos melhores da música típica nacional.”

E se no mesmo disco onde estava gravado “Carinhoso” de Pixinguinha, o crítico reconheceu o maxixe de Peri “Não diga não” como uma música excelente, típica e sentimental, por que Cruz Cordeiro não iria identificar a excelência, a tipicidade e o lirismo do choro “Carinhoso” gravado no outro lado ?

Por que o crítico além de comentar que “o nosso popular compositor anda muito influenciado pelo ritmo e pela melodia da música de jazz”, também afirmou que o choro em sua introdução “é um verdadeiro fox-trot” e que “apresenta em seu decorrer combinações da música popular yankee” ? O que o crítico musical quis dizer ao falar em “combinações da música popular yankee” ?

Pela melodia de uma composição pode se perceber o seu caráter típico nacional, ou o caráter de uma melodia pode soar de acordo com a sua embalagem instrumental, harmônica e interpretativa? Uma melodia brasileira não pode parecer americana com instrumentos, harmonias e interpretações típicas do jazz ? Uma melodia brasileira não pode parecer uma melodia japonesa, se for orquestrada com harmonias e instrumentos típicos do Japão e interpretada com o genuíno sentimento japonês ? E uma melodia americana tocada em ritmo de choro, com instrumentos, harmonias e interpretações típicos do gênero, não parecerá uma autêntica melodia brasileira ?

Os principais choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha gravados em 1928, considerados na época americanizados por Cruz Cordeiro devido aos antigos arranjos com influências da música de jazz, hoje em dia são considerados como o que há de mais puro, autêntico e verdadeiro em nossa música popular brasileira.

Quem hoje em dia não reconheceria o genuíno caráter brasileiro do choro “Lamentos” de Pixinguinha, ouvindo a magnífica gravação instrumental de Jacob e seu conjunto Época de Ouro, com bandolim, violões, cavaquinho, pandeiro e ritmista ?

A flauta original do arranjo de Pixinguinha foi substituída pelo bandolim de Jacob com o seu sensível virtuosismo de executante agilíssimo, que interpreta o genial choro com uma dinâmica expressiva como se fosse uma mini peça de câmera erudita, com nuances de rallentandos, accelerandos, decrescendos e crescendos e variações improvisadas em torno da melodia lírica. Num ponto culminante da improvisação livre em torno da inspirada melodia chorosa, o executante aciona as regiões mais agudas do seu bandolim em contraponto aos registros mais graves dos violões, alcançando com a sua interpretação refinadíssima um excepcional clímax melódico de elevado nível transcendental.

A gravação foi realizada nos estúdios da RCA Victor, no Rio de Janeiro, no inverno de 1967; o antigo LP recebeu o expressivo título de Vibrações, com a participação de 7 (sete) músicos de altíssimo nível profissional: Jacob (bandolim) , Dino (violão de 7 cordas), César (violão), Carlinhos (violão), Jonas (cavaquinho), Gilberto (pandeiro) e Jorginho (ritmista). O antigo LP já foi transferido para o moderno CD, na série intitulada Acervo Especial, do arquivo da BMG Ariola/RCA, com as gravações originais remasterizadas pelo sistema digital.

A inesquecível crítica de Cruz Cordeiro aparece registrada incompleta até no verso do LP, relacionada à Face “B”, da Faixa 7 (sete) do disco, nos comentários relativos ao choro “Lamento” de Pixinguinha, escritos pelo próprio Jacob do Bandolim, com pontos de exclamação no final, como se a crítica fosse um grande equívoco: “...nessa música não se encontra um caráter perfeitamente típico. A influência das melodias e mesmo do ritmo da música dos norte-americanos é, nesse choro, bem evidente. Esse fato nos causou surpresa, porquanto sabemos o compositor um dos melhores autores de música típica nacional. É por este motivo que julgamos este disco o pior dos quatro que a Orchestra Pixinguinha-Donga oferece-nos esta quinzena!!!”

“Foi assim que a revista “Phono-Arte”, de 30.11.1928 (nº 8, pág. 24) apreciou o lançamento deste choro em disco Parlophon nº 12.867-a. Pobre Pixinguinha, jazzificado! Todavia, em junho de 1951, tentei sua divulgação na RCA – disco 80.0767/A - e, apesar de vendidos 11.137 discos, não despertou a atenção pública que se interessou mais pela outra face, uma polca. Mas como o que é bom atravessa os séculos, surgiu uma letra, embora só para a 1ª parte. Foi o suficiente. Graças a Deus e a Vinicius de Moraes, tomou-se conhecimento do “pior” choro de Mister Pixinguinha. Antes assim. E contando com a proverbial tolerância do autor, aqui oferecemos um novo aspecto de “Lamento”.

Na transcrição acima de Jacob do Bandolim, o conhecido texto crítico de Cruz Cordeiro, além de ser transcrito muito incompleto, já sofre bastante modificação, excluindo a crítica também feita ao desconhecido choro “Amigo do Povo” de Donga, e incluindo só a crítica feita ao famoso choro “Lamentos” de Pixinguinha. O trecho inicial da crítica, que transcrevo a seguir, é quase todo omitido: “O quarto disco contém dois choros: um de Pixinguinha, “Lamentos”, outro de Donga, “Amigo do Povo”, sobre os quais não podemos deixar de notar que em suas músicas não se encontra um caráter perfeitamente típico”.


Parece que os mais variados artifícios enganosos são considerados perfeitamente válidos, em especial os utilizados por grandes nomes da nossa música popular brasileira, para que Cruz Cordeiro entre para a história da cultura nacional como um crítico musical incompetente. Os críticos que parecem defender “o pobre” Alfredo Vianna das críticas “injustas” de Cruz Cordeiro, na realidade fazem uma tremenda média junto aos nomes mais famosos da nossa música popular, pensando que com a atitude mentirosa vão ficar muito bem na história da música popular brasileira. A palavra média, no sentido popular, brasileiro, conforme o Dicionário Aurélio, significa: “Procurar agradar, criar para si uma boa situação junto a alguém, a um grupo, etc, visando a tirar proveito.”

Não foi o crítico de música popular brasileira Cruz Cordeiro que jazzificou os choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha, mas foi o próprio compositor que jazzificou os dois choros com as orquestrações originais contendo influências bem evidentes da música norte-americana. E "Graças a Deus" e a "Vinicius de Moraes" foi feita uma letra "só para a 1ª parte" de "Lamentos", mutilando a estrutura original do choro em duas partes instrumentais, pois a 2ª parte musical do choro não era adequada para a colocação de uma letra.

E os dois choros não ficaram populares pelas sofisticadas versões instrumentais originais jazzificadas de Pixinguinha, mas pelas versões com as simples letras que lhes foram acrescentadas bem mais tarde por João de Barros e Vinicius de Moraes. Enquanto as sofisticadas versões instrumentais dos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha possibilitam novas interpretações e improvisos criativos em torno das músicas, as versões dos dois choros com a pobreza das letras numa moldura literária rígida impossibilitam a riqueza variada de interpretações e improvisos.

As letras simples de Vinicius de Moraes para “Lamentos” e de Braguinha para “Carinhoso” deixaram as sofisticadas versões instrumentais num segundo plano, com a colaboração, concordância e participação do próprio compositor Pixinguinha ao aceitar as letras. As versões instrumentais ficaram relegadas a um segundo não só pela inserção das duas bonitas letras, mas também pelas dificuldades de penetração em nosso meio da música instrumental brasileira.

Letra de Vinicius de Moraes, para Lamentos:

Morena, tem pena/Mas ouve o meu lamento/Tento em vão/Te esquecer?Mas, olhe, o meu tormento é tanto/Que eu vivo em pranto e sou todo infeliz/Não há coisa mais triste, meu benzinho/Que esse chorinho que eu te fiz
Sozinha, morena/Você nem tem mais pena/Ai, meu bem/Fiquei tão só/Tem dó, tem dó de mim/Porque estou triste assim por amor de você/Não há coisa mais linda neste mundo/Que meu carinho por você.

Letra de Braguinha, para Carinhoso:

Meu coração...não sei porque/Bate feliz...quando te vê/E os meus olhos ficam sorrindo/E pelas ruas vão te seguindo/Mas mesmo....foges de mim . Ah se tu soubesses/Como eu sou tão carinhoso/E muito muito que te quero/E como é sincero meu amor/Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem...Vem sentir o calor dos lábios meus/À procura dos teus/Vem matar esta paixão/Que me devora o coração/E só assim então/Serei feliz, bem feliz.

Em Carta de Leitor publicada no Jornal do Brasil, no Caderno Especial, em 26 de Janeiro de 1975, intitulada “Fato Social e Fato Artístico”, questionando as análises de caráter sociológico do historiador José Ramos Tinhorão, com referência às criações de nossos compositores populares, Cruz Cordeiro escreveu sobre a letra de Braguinha: (...) “A propósito se note que Braguinha cometeu o crime de fazer uma letra para o choro Carinhoso, de Pixinguinha, obra essencialmente flautística e instrumental (grifei), para atender contingências de um show beneficente programado pela Casa do Pequeno Jornaleiro, como ele mesmo esclareceu (Fatos e Fotos de 18-02-74), porém dizendo, ao mesmo tempo, que “sempre fez música com o coração”.

Em outubro de 1936, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro apresentava o espetáculo “Parada das Maravilhas”, promovido pela primeira dama do país Darcy Vargas, tendo a participação especial da atriz e cantora convidada Heloisa Helena. A cantora precisava de uma canção nova que tornasse marcante a sua presença no palco, e solicitou-a ao seu amigo Pixinguinha que na ocasião não possuía nenhuma canção inédita. Aceitando a sugestão da sua amiga cantora, Pixinguinha concordou em que se colocasse uma letra no seu choro “Carinhoso” para o show beneficente. E Braguinha relembra: “Procurei imediatamente o Pixinguinha, que me mostrou a melodia num dancing (O Eldorado) onde estava atuando; no dia seguinte entreguei a letra a Heloísa, que muito satisfeita, me presenteou com uma gravata italiana”.

Depois que os excelentes letristas Braguinha e Vinicius colocaram os textos simples nos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha, criados pelo genial músico para serem executados em termos instrumentais com conteúdos musicais diversos dos literários, e depois que afinal os dois choros se tornaram populares junto a um grande público com as duas letras, o espírito crítico desapareceu frente às iniciativas de popularização dos choros mesmo com danos artísticos para obras em sua essência instrumentais.

Alguns poderão afirmar que eu e meu pai estamos exagerando com os nossos “puritanismos” musicais, pois os choros “Lamentos” e “Carinhoso” ao invés de saírem perdendo com as respectivas letras, muito pelo contrário saíram ganhando bastante com elas, já que os choros acabaram ficando com uma versão musical-literária e outra musical-instrumental, uma versão não impossibilitando de maneira alguma a execução independente da outra versão. A letra romântica de Braguinha se encaixou à perfeição na melodia sentimental de “Carinhoso”, o que já não ocorreu tanto com a letra breve de Vinicius para “Lamentos”, como se está música fosse mais essencialmente instrumental do que a outra, tanto que foi feita uma letra só para a 1ª parte do choro.

Diga-se que a brasilidade indiscutível dos dois choros foi mais reconhecida após a colocação das duas românticas letras, e após as incontáveis gravações feitas por inúmeros intérpretes masculinos e femininos de nossa música popular nacional, do que depois das muitas gravações instrumentais dos choros feitas com arranjos, improvisos e interpretações nem sempre de genuíno caráter brasileiro.

E Pixinguinha com sua sensibilidade de artista como terá se sentido ao perceber que os seus dois choros mais inspirados, ficaram mais conhecidos pelos conteúdos dos simples versos consagrados, do que pelos conteúdos das sofisticadas versões instrumentais ignoradas?

No Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira, de criação e supervisão geral de Ricardo Cravo Albin, editado pelo Instituto Antônio Houaiss e concebido pelo Instituto Cultural Cravo Albin, as relembradas críticas aparecem de novo na pg. 593, na letra P, relativa ao nome de Pixinguinha: “Em 1922, a Orquestra Pixinguinha gravou os choros “Lamento” e “Carinhoso”, na época considerados jazzificados pelo crítico Cruz Cordeiro”.

Apesar das famosas críticas terem sido mais uma vez lembradas no texto referente a Pixinguinha, o nome da Phono-Arte ou de Cruz Cordeiro não aparece em nenhum dos verbetes do grosso dicionário ilustrado de 1.155 páginas e de 5.322 verbetes. A Orquestra Típica Pixinguinha-Donga gravou os dois choros em 1928, e não em 1922, embora um tenha sido lançado no ano de 1928, e outro no ano de 1930. As mesmas lamentáveis ausências acima também observei no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, ao pesquisar na Internet.

Sérgio Cabral, em seu livro Pixinguinha, Vida e Obra, no capítulo Influência do Jazz, nos esclarece à respeito das duas gravaçõe s: “Carinhoso” foi gravado na mesma época de “Lamentos”, mas a Parlophon só o lançou para o público dois anos depois. Por isso, só na edição de novembro de 1930 da “Phono-Arte” é que Cruz Cordeiro se ocupou dele”.

Na discografia de Sérgio Cabral no final do livro, o choro Lamento foi gravado na matriz 2046, disco 12.867/A, em 11/1928, e o choro Carinhoso na matriz 2048, disco 12.877, em 12/1928, ambos interpretados pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga.

Espero que na próxima edição revista e ampliada do Dicionário Houaiss Ilustrado – Musica Popular Brasileira, a Revista Phono-Arte, Sérgio Vasconcellos e Cruz Cordeiro sejam incluídos no verbete Classe A de texto maior, “reservado para os grandes nomes da história da nossa música”. Esperando também que sejam incluídos na Internet, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Ainda, sobre o choro “Carinhoso”, Pixinguinha em seu depoimento dado ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1968, esclareceu: “Eu fiz o “Carinhoso” em 1917. Naquele tempo o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes (choro tinha que ter três partes). Então, eu fiz o “Carinhoso” e encostei. Tocar o “Carinhoso” naquele meio! Eu não tocava...ninguém ia aceitar.“Carinhoso” era uma polca, polca lenta. O andamento era o mesmo de hoje e eu classifiquei de polca ou polca vagarosa. Mais tarde mudei para chorinho”.

E lá está de volta de novo incompleta a propalada crítica desfavorável à gravação do choro “Carinhoso”, ocupando com letras maiores, de tipos bem diferentes, com espaçamentos maiores entre as linhas e com aspas grossas em negrito, o amplo espaço entre o título do artigo com o nome do autor e o início do grande texto introdutório:

Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos rythmos e melodias da música de jazz. É o que temos notado, desde algum tempo e mais de uma vez nesse seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações da pura (grifei) música popular yankee. Não nos agradou.

E no primeiro parágrafo, o início do enorme texto introdutório do crítico Tárik de Souza ao livro “Coleção – Revista da Música Popular”, tendo como título da apresentação “Revista da Música Popular – A bossa nova da imprensa musical”.

“O pequeno trecho acima, publicado sem assinatura na parte de miniresenhas da revista Phono-Arte de 15 de Janeiro de 1929, tornou-se uma lenda. Atribuída ao crítico J. Cruz Cordeiro Filho, co-diretor da primeira publicação influente de música no país, que circulou entre 1928 e 1931, a diatribe alveja nada menos que “Carinhoso”, obra-prima de Alfredo da Rocha Viana Filho (1897-1973), o Pixinguinha (que a revista chama de Pexinguinha), ainda sem a letra célebre de João de Barro, o Braguinha. Phono-Arte também desceu a lenha em “Lamento”, do mesmo “Pexinguinha” (posteriormente letrada com sucesso por Vinicius de Moraes). Sua “influência das melodias e mesmo da música dos norte-americanos é bem evidente”. Para o analista, aquele era “o peor disco da Orquestra Pexinguinha-Donga”. De curta, mas intensa participação na era dos “phonographos” também chamados “machines falantes”, a Phono-Arte não dava só bola fora. Ao comparar as gravações de Vicente Celestino e de Mário Reis do samba de Sinhô, “De que vale a nota sem o carinho da mulher”, optou pela segunda, reconhecendo que o estilo sincopado de Mário era bem mais adequado que o do bel cantante tenor, “cuja voz muito possante tem dado trabalho aos técnicos da Odeon”.

Na transcrição acima de Tárik de Souza relativa ao choro “Lamento” de “Pexinguinha”, pouco resta do texto analítico original de Cruz Cordeiro, sendo excluída de novo a crítica também feita ao choro “Amigo do Povo” de Donga, reduzindo a famosa crítica do articulista a um mínimo textual: “Sua “influência das melodias e mesmo da música dos norte-americanos é bem evidente”. O trecho, correspondente na crítica de Cruz Cordeiro, diz respeito ao seguinte texto completo: “A influência das melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é, nesses dois choros, bem evidente”.

Por desconhecer o significado da estranha palavra diatribe, consultei o novo Dicionário Aurélio, considerado o "Pai dos Burros": “ Diatribe: S.f. Crítica acerba, escrito ou discurso violento e injurioso”. E a palavra acerbo quer dizer “severo, duro, áspero: Suas críticas foram por demais acerbas”.

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Alfredo da Rocha Viana Filho falou sobre o seu apelido:

“- O meu apelido não era Pixinguinha e sim Pizinguin. Pizinguin foi dado pela minha avó africana. Segundo Almirante, quer dizer “pequeno bobo”. Já Pixinguinha surgiu porque eu contraí bexiga, na época da epidemia. Começaram então me tratar de Bexiguinha e depois de Pexinguinha. Houve essa confusão toda e eu não sei porque fiquei como Pixinguinha. Minha família, contudo, ainda me trata de Pizinguim”.

Sérgio Cabral, no livro Pixinguinha, Vida e Obra (Mec/Funarte), donde retirei o depoimento do compositor, ainda esclarece sobre o apelido: “Deve ter levado muito tempo mesmo para que o apelido de Pixinguinha se fixasse. Até meados dos anos 20, tanto nos jornais como nas etiquetas dos discos, lemos “Pechinguinha”, “Pichinguinha”, “Pexiguinha”, etc. Um anúncio publicado na revista “Careta”, de 25 de dezembro de 1915, recomendando a venda na Casa Editora Carlos Werhs (Rua da Carioca, 32) do tango “Dominante”, dava o nome do autor da seguinte maneira: Alfredo da Rocha Viana (Pizidin)”.

Ainda, na discografia do livro de Sérgio Cabral, do ano de 1911 ao ano de 1977, durante quase todo o ano de 1928, Alfredo da Rocha Viana Filho ainda aparece com o apelido de Pexinguinha, surgindo sempre o nome artístico de Pixinguinha a partir do ano de 1929. E no disco 12.867-A, gravação de “Lamento” em 11/1928, e no disco 12.877, gravação de “Carinhoso” em 12/1928, lá está na completa discografia o nome artístico de Pexinguinha, presente também no nome da orquestra executora: “Orquestra Típica Pexinguinha-Donga.”

A crítica contrária à gravação de “Lamentos” foi feita em 30.11.1928, no nº 8 da revista, na página 24 (Sérgio Cabral e Jacob do Bandolim). A crítica desfavorável a gravação de “Carinhoso” ora é registrada em 15.01.1929, no nº 11 da Phono-Arte (Tárik de Souza e Dárcio Fragoso), ora na edição de 30 de novembro de 1930 (número 32), conforme Sérgio Cabral na reportagem sobre Cruz Cordeiro e na obra sobre Pixinguinha.

Logo, considerando-se as datas de 30.11.1928, 15.01.1929, ou mesmo de 30.11.1930, a Revista Phono-Arte ao registrar o nome artístico de Pexinguinha, não o fez por ignorância, por displicência ou por desconsideração ao artista, mas pelos motivos expostos pelo historiador Sérgio Cabral em sua premiada monografia sobre Pixinguinha. A monografia do escritor Sérgio Cabral foi eleita vitoriosa no concurso de monografias sobre o artista instituído pela Fundação Nacional de Arte (FUNARTE).

E mais adiante Tárik de Souza transcreve um pequeno trecho de apresentação do exemplar nº 1, da Revista da Música Popular, de Lúcio Rangel (1914-1979): “Ao estamparmos na capa do nosso primeiro número a foto de Pixinguinha, saudamos nele, como símbolo, ao autêntico músico brasileiro, o criador e verdadeiro que nunca se deixou influenciar pelas modas efêmeras ou pelos ritmos estranhos ao nosso populário”.

E logo no parágrafo seguinte: “Parece uma resposta à Phono-Arte. E o mais curioso é que “entre os melhores especialistas no assunto”, escalados pela revista, como promete o editorial, lá estará, mais adiante, o referido Cruz Cordeiro, das farpas atiradas em “Carinhoso” e “Lamento”. A cavaleiro de uma bela e rara foto do Bando dos Tangarás (Noel, Almirante, Braguinha, Luperce Miranda) ele estréia com grande pompa no número 7, apresentado como “romancista, filólogo e crítico musical”. Além de compilar um alentada “Discografia da produção nacional”, ele discorre a respeito de “folcmúsica e música popular brasileira”, por trás de óculos de aros grossos e empertigados terno e gravata, num visual à Ely Azeredo. Mais curioso ainda é Sérgio Porto, de quem não se pode dizer que foi convocado por ser sobrinho do diretor, logo no primeiro número da revista tece uma ode a “Lamentos” (já acrescido do “s”), numa gravação “de mais de 20 anos”. Próxima, portanto, da execrada pelo mesmo Cordeiro”.

Assim, a Revista da Musica Popular apresentou Cruz Cordeiro em sua estréia, a partir da publicação nº 7, de maio e junho de 1955, “com grande pompa”, “a cavaleiro de uma bela e rara foto do Bando dos Tangarás”, e “por trás de óculos de aros grossos e empertigados terno e gravata”:

“Neste número da REVISTA DA MÚSICA POPULAR apresentamos aos nossos leitores a “discografia da Produção Nacional”, trabalho como nunca se fez outro igual em nosso meio. Organizada por Cruz Cordeiro, romancista, filólogo e crítico musical, a iniciativa está destinada aos mais franco sucesso, possibilitando ao discófilo, aos estudiosos, aos vendedores das lojas especializadas, um completo panorama de tudo que se publicou no Brasil em matéria de discos. Com uma simples referência, com a mais rudimentar informação, o leitor encontrará facilmente todos os detalhes referentes à sua música predileta ou ao seu cantor referido. É um trabalho gigantesco que o nosso novo colaborador vai empreender mensalmente e que temos o maior orgulho em apresentar aos nosso leitores do Brasil”.

Lembro-me que um dia comentei com o meu pai Cruz Cordeiro sobre a pequena foto infeliz afixada na sua seção na Revista da Música Popular, quando ele observou que a foto era a única mais recente que ele tinha naquele momento para ilustrar a seção de sua competência. Entretanto, comentar sobre uma foto infeliz de um colaborador existente em alguns exemplares numa seção da Revista da Música Popular, tem um sentido bastante diverso daquele afirmando de modo depreciativo que o colaborador na foto está “por trás de óculos de aros grossos e empertigados terno e gravada”. E “entre os melhores especialistas no assunto”, lá estará, mais adiante, o referido Cruz Cordeiro, das farpas atiradas em “Carinhoso e “Lamento”, apresentado “como romancista, filólogo e crítico musical”, com os dizeres entre aspas lançando farpas irônicas de evidentes sentidos depreciadores, diminuidores, desvalorizadores, demolidores.

O artigo de Sérgio Porto é de setembro de 1954, data de lançamento do primeiro exemplar da Revista da Música Popular, e uma gravação de 20 anos atrás foi feita no ano de 1934, dentre as muitas gravações que Pixinguinha fez dos seus choros preferidos, com arranjos, interpretações, harmonias, sons, improvisos e instrumentos diferentes em cada gravação.

Transcrevo os 3 (três) parágrafos iniciais do artigo de Sérgio Porto sobre a gravação de “Lamentos”:

“Tenho escutado, e cada vez com maior prazer, o disco que a Rádio Record me ofereceu por ocasião do Festival da Velha Guarda, realizado em São Paulo. São dois chorinhos de Pixinguinha, gravados há mais de 20 anos e dos quais a citada emissora tirou cópias em acetato para oferecer aos jornalistas convidados do festival”.

““Lamentos”, de um lado, e “Chorei”, do outro, são dois dos mais autênticos números do famoso flautista de outrora, hoje encantando a todos os que o ouvem soprando o sax-tenor, instrumento a que se dedica atualmente”.

“Gosto, sobretudo, de “Lamentos”, em que se destaca o trompete com surdina executado pelo falecido Bonfiglio de Oliveira. À riqueza melódica do chorinho, junta-se a perfeição com que os músicos tocam, todos eles inspiradíssimos, não fosse das maiores figuras da nossa música popular. A flauta de Pixinguinha, num maravilhoso contracanto, e o ritmo das cordas (provavelmente Nelson, no cavaquinho, e Donga, no violão) emprestam uma tal beleza a “Lamentos”, que – repito – não me canso de ouvir esta gravação, tão antiga e, ao mesmo tempo, tão linda e (porque não?) atual”.

O primoroso livro Coleção Revista da Música Popular, de 775 páginas, contém a coleção completa em fac-símile dos 14 (quatorze) exemplares da revista de setembro de 1954 a setembro de 1956. E sobre a produção e impressão do livro no verso da última página: “Este livro foi produzido na cidade do Rio de Janeiro pela Fundação Nacional de Artes – Funarte, co-editado com a Bem-Te-Vi Produções Literárias, e impresso na Sermograf – Artes Gráficas e Editora, em Petrópolis-RJ, no quarto trimestre de dois mil e seis, com arquivos digitais fornecidos pela Funarte.

As farpas são de Tárik de Souza atiradas em Cruz Cordeiro, e não farpas atiradas por Cruz Cordeiro em “Carinhoso e “Lamentos”, pelas análises justas que o crítico musical fez com carinho às antigas gravações dos dois principais choros de Pixinguinha.

O crítico Tárik de Souza ao enxergar uma diatribe na crítica justa de Cruz Cordeiro, acaba cometendo várias diabruras com seu tridente analítico cheio de pontas afiadas, escrevendo que “a diatribe alveja nada menos que “Carinhoso”, que o crítico “também desceu a lenha em Lamento” e que Cruz Cordeiro atirou farpas em “Carinhoso” e “Lamentos” de “Pexinguinha”.

Na realidade foi Tárik de Souza que desceu a lenha em Cruz Cordeiro e que alvejou o crítico musical da Phono-Arte com paus, farpas, diatribes e diabruras, com o execrado colaborador da Revista da Música Popular “por trás de óculos de aros grossos e empertigados terno e gravata”.

Exceto na transcrição equivocada do crítico Tárik de Souza, nas demais transcrições do famoso trecho “apresenta em seu decorrer combinações da música popular yankee”, não existe a palavra pura antes da expressão música popular yankee, inserida para ressaltar ainda mais uma imaginada diatribe na crítica acertada de Cruz Cordeiro. Também, ao deixar de transcrever todo o texto analítico de Cruz Cordeiro relativo ao choro “Carinhoso” de “Pexinguinha”, o crítico Tárik de Souza reduziu o texto completo ao “pequeno trecho acima, publicado sem assinatura na parte de miniresenhas da revista Phono-Arte”, como se Cruz Cordeiro não assinasse e não assumisse as críticas que fazia em sua época na revista pioneira.

Quer dizer, além de não assinar e assumir as suas “miniresenhas” na Revista Phono-Arte, o crítico Cruz Cordeiro ainda se esconde “por trás de óculos de aros grossos e empertigados terno e gravata” na Revista da Musica Popular. A crítica musical de Cruz Cordeiro à gravação do choro "Carinhoso" de Pixinguinha só se tornou uma lenda para os analistas descuidados que não procuraram pesquisar a autoria da crítica, o texto analítico completo e o contexto jazzístico da época.

No afã leviano de se encontrar uma diatribe, uma injúria, uma violência ou um insulto nas críticas musicais de Cruz Cordeiro aos dois choros de Pixinguinha, quase sempre os dois textos críticos mais conhecidos do analista não são transcritos em sua totalidade, sendo que um crítico se diferencia do outro pela sua postura ética no campo artístico que lhe diz respeito.

Qualquer supressão da parte de um texto crítico, qualquer transcrição incompleta de suas palavras ou qualquer modificação do texto analítico original, impedem a avaliação correta, íntegra, honesta e verdadeira do seu conteúdo.

No caso do choro “Lamentos”, omite-se a parte inicial do texto onde Cruz Cordeiro nota também a influência da música norte-americana no choro “Amigo do povo”, de Donga; e no caso do choro “Carinhoso”, suprime-se o trecho inicial onde o crítico reconhece a excelência, a tipicidade e o sentimentalismo do maxixe “Não diga não” de Peri.

Num dos primeiros números da Phono-Arte, Cruz Cordeiro elogiou a música “Ranchinho Desfeito” de Donga e Castro de Souza: “O popular Donga parece que possui o segredo do sentimento e do ritmo da nossa música popular. Ele é sem dúvida um dos nossos melhores compositores de música típica, sendo um especialista em maxixe e samba. Música delicada, harmoniosa, sentimental, bem ritmada e sumamente típica. É uma composição que agrada facilmente. Cremos mesmo ser “Ranchinho Desfeito” uma das melhores composições do nosso popular autor. Gostamos imensamente”.

Se Cruz Cordeiro considerava Donga e Pixinguinha “dois dos melhores compositores da música típica nacional”, o crítico não iria considerar os choros “Lamentos”, “Amigo do Povo” e “Carinhoso” com influências das melodias e dos ritmos da música norte-americana, se não tivesse sólidos fundamentos artísticos-musicais para embasar as suas mais conhecidas críticas . Se assim não fosse, Cruz Cordeiro estaria cometendo um triplo erro de crítica leviana no campo da música popular brasileira. Como sabemos, o choro é um dos gêneros mais típicos de nossa complexa música popular brasileira, tanto do ponto de vista melódico, rítmico, harmônico, instrumental e interpretativo.

Afora o fato de que a primeira crítica complementa a segunda, devendo ambas serem analisadas juntas com os seus textos completos, para o objetivo entendimento de cada análise separada da outra, pois na segunda crítica há termos relativos ao tempo e à repetição, referindo-se de novo à influência da música de jazz desta vez no choro “Carinhoso”: “E o que temos notado desde algum tempo, mais de uma vez.”

Da mesma maneira que os demais críticos em suas áreas específicas de atuação, Cruz Cordeiro também cometeu erros de avaliação crítica no campo da música popular brasileira, como ocorreu no caso em que “ele espinafrou “A Voz do Violão”, de Francisco Alves e Horácio Campos”.

“Francisco Aves, nosso cantor, não foi muito feliz em sua peça, pois a música nos parece pobre. Música sem grande interesse, com introdução e duas partes, sendo a primeira melhor, pois a segunda é um tanto forçada. Letra apenas interessante”.

Entretanto, com humildade, Cruz Cordeiro reconsiderou a sua crítica musical na entrevista dada ao jornalista Sérgio Cabral:

“Cruz Cordeiro justifica a crítica dizendo que tinha se baseado apenas na edição da música, mas que mudou de opinião depois que ouviu em disco”.

Os leitores internautas podem observar a maneira como Cruz Cordeiro escreveu sobre os compositores e cantores que foram objetos de suas análises musicais a favor ou contra. O modo de escrever do crítico expressa em seus textos muito bem escritos a delicadeza, o carinho, o respeito e a admiração pelos valores da sua época no campo da música popular nativa.

Vindos de quem vieram e da maneira que foram feitos, os comentários desabonadores de Tárik de Souza em relação ao crítico Cruz Cordeiro causaram-me sentimentos de indignação, surpresa e decepção. Em nosso ambiente musical, o jornalista, poeta e competente crítico musical Tárik de Souza goza do maior prestígio pessoal e profissional , tanto que foi o escolhido para escrever o texto introdutório de apresentação do importante livro Coleção – Revista da Música Popular. Como é que o competente crítico atual Tárik de Souza vem a público para execrar um crítico pioneiro da importância de Cruz Cordeiro, que em sua estréia na Revista da Música Popular foi apresentado aos leitores do Brasil com o maior orgulho como um novo colaborador? Se para Tárik de Souza o crítico Cruz Cordeiro e a Revista Phono-Arte não davam só bola fora, o crítico Tárik de Souza pisou feio na bola em relação ao crítico Cruz Cordeiro e à Revista Phono-Arte.

Até no movimentado, bonito e caprichado site romântico de Dárcio Fragoso na Internet, aparece de novo incompleta, desta vez a meu ver num local inadequado, a crítica de Cruz Cordeiro ao choro Carinhoso de Pixinguinha, onde a letra de Braguinha por seu romantismo aparece com destaque em letras maiores no site em movimento: “Sobre essa gravação, um crítico pouco versado em jazz publicou o seguinte comentário na revista Phono-Arte (nº 11, de 15.01.1929):” “Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos ritmos e melodias do jazz. É o que temos notado, desde algum tempo, e mais uma vez neste seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações de música popular yankee. Não nos agradou”.

Parece que enquanto escreverem sobre o nosso genial compositor Pixinguinha e o seu bonito choro “Carinhoso”, quase sempre lá estará a inolvidável análise incompreendida do crítico musical Cruz Cordeiro, para todo o sempre sendo transcrita incompleta e para todo o sempre fora do contexto em que foi escrita.

Embora não tenha identificado o nome do autor da crítica musical, o criador do site se referiu ao crítico não mencionado como “um crítico pouco versado em jazz”, donde se conclui que o autor do site romântico é um crítico muito versado em jazz.

Não sei se meu pai era um crítico muito ou pouco versado em jazz, mas como crítico de música popular brasileira Cruz Cordeiro tinha conhecimento, sensibilidade e percepção musicais suficientes para discernir entre um ritmo de choro e um ritmo de fox-trot, e também para notar as influências da música norte-americana nas obras de Pixinguinha e Donga naquela época.

Mas como declarou Cruz Cordeiro, na entrevista dada a Sérgio Cabral:

“- Mas foi uma influência muito eventual, ocasional – justifica o jornalista”.

E como em nossa sociedade negativista o erro se alastra mais do que o acerto, “um crítico pouco versado em jazz” ressurge no excelente site MPB- CIFRANTIGA, no estudo referente ao samba-choro “Carinhoso”, tendo como fonte a obra A Canção no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34”.

“Assim, composto na mesma época de Sofres Porque Queres (um choro em três partes) e a valsa Rosa – gravados na Casa Edison em 1917 -, Carinhoso só chegaria ao disco em dezembro de 1928, interpretado pela orquestra Típica Pixinguinha-Donga, na Parlophon. Sobre essa gravação, um crítico pouco versado em jazz publicou o seguinte comentário na revista Phono-Arte (nº 11, de 15.01.29). “Parece que o nosso popular compositor anda sendo influenciado pelos ritmos e melodias do jazz. É o que temos notado, desde algum tempo e mais uma vez neste seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot e que, no seu decorrer, apresenta combinações da musica popular yankee. Não nos agradou”

E, ainda no mesmo site MPB-CIFRANTINGA, num enriquecedor ensaio sobre a origem do gênero Choro, sendo a fonte a obra Choro – Uma música sentimental, sofisticada e muito brasileira, de Carlos Calado, referindo-se aos “dois inovadores choros de Pixinguinha”: “O fato de ambos terem sido feitos em duas partes, em vez de três, foi interpretado pelo preconceituoso crítico Cruz Cordeiro como uma inaceitável influência do jazz”.

Em suas críticas contrárias às gravações jazzificadas dos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha, Cruz Cordeiro não fez quaisquer comentários sobre a estrutura dos dois choros em duas partes ao invés de três, quanto mais perceber em tal “inovação” na estrutura do gênero choro “uma inaceitável influência do jazz”. Tanto no choro “Lamentos”, quanto no choro “Carinhoso”, se lermos as duas análises com a necessária atenção, o crítico notou as influências dos ritmos e das melodias da música norte-americana nos dois choros, e nunca nos elementos formativos dos choros em suas partes tradicionais ou “inovadoras”. O crítico musical ao afirmar que a introdução de “Carinhoso” “é um verdadeiro fox-trot”, não estava se referindo ao formato musical do choro em suas partes constituintes, mas sim à influência rítmica da música yankee na introdução do mais conhecido choro de Pixinguinha.

Luís Antônio Giron, musicólogo, jornalista, escritor, pesquisador e crítico, em seu ensaio na Internet com o título “As cifras improvisadas de Pixinguinha”, discorre sobre a escrita musical de Pixinguinha em suas partituras: “Pixinguinha levou à náusea o método de variação, típico também do jazz (nesse sentido sua obra é uma resposta brasileira à prática de New Orleans). Era um autor intuitivo e grafou suas partituras com descuido. Muitos de suas indicações harmônicas são esquemáticas, quando não equivocadas. Examinar uma obra escrita do compositor pode causar constrangimento naquele interessado que passou a vida ouvindo que Pixinguinha foi “o primeiro arranjador brasileiro” ou coisas como “canonizá-lo é um dever do Vaticano” (Hermínio Bello de Carvalho). A escritura do músico é de um aluno de iniciação à música: as indicações são as mais simples possíveis, como compassos, ligaduras e claves. Não existem dinâmicas ou marcações expressivas. Alguma coisa se perdeu no translado da execução ao pentagrama. Como uma partitura barroca, porém, sua riqueza está em outra parte, no domínio do improviso e da interpretação. Não há como julgá-lo pelo aspecto exclusivamente formal. Quem o fizer e tentar defini-lo como grande mestre ao lado de Vila-Lobos, por exemplo, comete uma improcedência. Perfilá-lo com Radamés Gnatalli, então, seria injustiça para com o grande metódico que foi o músico gaúcho”.

No início de um parágrafo, o musicólogo ainda observa que “Pixinguinha foi um homem modesto, de educação autodidata”, e no início de outro afirma que sua obra “não contempla as aquisições da linguagem musical moderna”. E em continuidade escreve: “Vinculada à arte improvisatória do choro, move-se por quadraturas rudimentares. Os maestros que o sucederam no comando de orquestras de rádio e gravadoras, como Radamés Gnatalli, Fon-Fon, Lyrio Panicalli e Leo Peracchi, consideram-no ultrapassado, seguidor dos procedimentos do século XIX”.

Do seu lado, Sérgio Cabral, na obra já citada, no capítulo O Músico, expõe a sua visão sobre o mesmo assunto: “A posição que sempre ocupou em nossa música popular também o destacou como pioneiro de outro campo: o da orquestração. O grande passo tecnológico dado pelas fábricas de discos com o advento da gravação elétrica fez com que surgisse a figura do arranjador. Contratado por uma das nossas gravadoras, em 1929, para exercer também esse tipo de atividade, coube a ele a tarefa de encontrar harmonias e sons para vários gêneros musicais apresentados, até então, da maneira mais primitiva. Dizer-se que Pixinguinha foi o “fundador” do arranjo de música brasileira não é nenhum exagero, é apenas a constatação de uma verdade histórica. Sem o seu trabalho como orquestrador, a evolução da música popular em nosso país teria sido processada de outra maneira. Certamente, com mais vagar”.

Pelo que é escrito e reescrito sobre as duas famosas críticas de Cruz Cordeiro, parece que os estudiosos e pesquisadores não ouviram as duas antigas gravações da Parlophon que lançaram na época os choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha.

Pesquisando na discoteca do Museu da Imagem e do Som, no acervo da Rádio Nacional e no Instituto Moreira Salles, na coleção impressionante de José Ramos Tinhorão, não localizei os discos 12.867/A e 12.877 com as gravações dos dois choros, da gravadora Parlophon, ambos executados pela Orquestra Pixinguinha-Donga no ano de 1928.

Pelo escrito em seu ensaio esclarecedor, o musicólogo Luís Antônio Giron ouviu a antiga gravação em disco do choro “Carinhoso” de 1928, permanecendo a curiosidade em saber onde o estudioso obteve o antigo registro musical, que podia ser revelado pela Internet ao público interessado no assunto:

“Apesar do caráter “naif” da escritura, não há como negar o talento contrapontístico de Pixinguinha. Escreveu também arranjos completos, como o da “Protofonia”, de “O Guarani” (partitura datada de 25 de julho de 1949) e quase transforma em rapsódia a peça folclórica “Macumba Canomblé” (1938). Realizou dois arranjos definitivos para sua obra-prima, o samba-choro “Carinhoso”, pensada genuinamente como obra instrumental (só em 1937 o compositor João de Barro, mais tarde conhecido como Braguinha, colocou-lhe letra ). A prova da afirmação pode ser obtida na gravação original da música, pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga (Parlophon, matriz 12.877b, gravada em 1928 e lançada dois anos depois). O balanço instrumental, o intercâmbio dos timbres, o uso de harmonias do jazz americano, tudo faz de “Carinhoso” um tour de force, aliás apontada na época como fruto da “americanização” do compositor. A observação foi do crítico Cruz Cordeiro, em artigo publicado na revista Phono-Arte. Escreveu: “Nesse seu choro, cuja introdução é um verdadeiro fox-trot, apresenta em seu decorrer combinações da música popular yankee. Não nos agradou”. O crítico estava certo, embora a música tivesse agradado e assinado uma das melhores incorporações orgânicas da harmonia do jazz à música brasileira. O músico se gabava: “Eu compus também músicas japonesas e outras”. Dez anos depois da gravação de “Carinhoso”, faria um arranjo sinfônico da música para a rádio Mayring Veiga. Ele trai o esforço inútil de Pixinguinha em se parecer a um erudito alemão. Soa bem mais estereotipado que o arranjo original”.

Giron transcreveu as duas últimas frases do texto crítico de Cruz Cordeiro, como se as duas frases fossem suficientes para expressar o que ele tinha ouvido na gravação. E iniciou a transcrição com aquele trecho considerado por alguns o mais imperdoável de toda a crítica, ou seja aquele em que o articulista comenta que a introdução do choro “Carinhoso” “é um verdadeiro fox-trot”. E finalizando a transcrição com o trecho “em seu decorrer, apresenta combinações da música popular yankee”, logo em seguida o pesquisador afirmou que “o crítico estava certo”. E com a sua autoridade de musicólogo que estudou as partituras de Pixinguinha e ouviu a histórica gravação jazzística do choro “Carinhoso”, ao contrário de estudiosos e pesquisadores que execraram a críticas de Cruz Cordeiro sem ao menos terem ouvido a gravação original.

Cruz Cordeiro registrou a influência dos ritmos e das melodias da música de jazz no choro “Carinhoso”, e Luiz Giron observou a utilização de harmonias do jazz americano no mesmo choro. Os termos “combinações da música popular yankee” podem ser as combinações harmônicas, melódicas ou instrumentais nas orquestrações originais de Pixinguinha, ou nos possíveis improvisos jazzísticos dos músicos durante a execução do choro. Se hoje a inspirada melodia do choro “Carinhoso” de Pixinguinha nos parece sem dúvida nenhuma como uma genuína melodia brasileira, na época a melodia teve ter soado como uma melodia americana devido às antigas execuções de estilo jazzístico.

O crítico Cruz Cordeiro se referiu ao choro “Carinhoso” como “obra essencialmente flautística e instrumental”, e o musicólogo Luís Giron se referiu ao mesmo choro como "obra-prima pensada genuinamente como obra instrumental”. Só mesmo um musicólogo sério que teve o interesse de estudar as partituras de Pixinguinha, e a responsabilidade de escutar a antiga gravação jazzística do choro “Carinhoso”, poderia trazer as informações ausentes para o entendimento correto das críticas de Cruz Cordeiro à gravação primeira do choro de Pixinguinha. No arranjo original, Pixinguinha quis parecer um músico americano, e no arranjo sinfônico quis parecer um erudito alemão, dentro do nosso tremendo complexo de inferioridade cultural que nos faz querer imitar as coisas estrangeiras.


Percebo contradições nas análises de Giron no parágrafo acima sobre o arranjo original do choro “Carinhoso” de Pixinguinha, pois em contraposição ao “não nos agradou” de Cruz Cordeiro, e depois da afirmação de que “o crítico estava certo”, logo em continuidade a ressalva contraditória do musicólogo: “embora a música tivesse agradado e assinado uma das melhores incorporações orgânicas da harmonia do jazz à música brasileira”. E comparando com o arranjo sinfônico de Pixinguinha do mesmo Carinhoso para a rádio Mayring Veiga, Luís Antônio afirma que este arranjo ao imprimir o estilo erudito alemão “soa bem mais estereotipado que o arranjo original”. Ora, se o arranjo sinfônico que foi feito por Pixinguinha dez anos depois para o mesmo choro Carinhoso “soa bem mais estereotipado que o arranjo original”, e que “ele trai o esforço inútil de Pixinguinha em se parecer a um erudito alemão”, como é que a música no arranjo original estereotipado do choro pode ter “agradado e assinado uma das melhores incorporações orgânicas da harmonia do jazz à musica brasileira” ?

O musicólogo Giron não fez menção aos instrumentos que fizeram parte da execução do choro “Carinhoso” na gravação de 1928, para esclarecer entre quais instrumentos musicais se processou o “intercâmbio dos timbres”. A palavra timbre, segundo o Dicionário Musical de Frei Pedro Sinzig, significa: “A “cor” dos sons ou da voz; a qualidade que faz ser diferente uma voz da outra, a flauta do violino, a tromba do oboé, etc.”. E no Dicionário Aurélio, timbre no sentido musical: “Qualidade distintiva de sons da mesma altura e intensidade, e que resulta dos harmônicos coexistentes com o som principal.”

Pelo Dicionário Aurélio, no sentido musical, arranjo quer dizer “versão diferente da original, de obra ou fragmento de obra musical, feita pelo próprio compositor ou por outra pessoa”, e “no jazz processo de criação que procura substituir a improvisação pela anotação prévia”. E orquestração, segundo o mesmo Dicionário, significa “cunho, feição, maneira por que um compositor combina e justapõe os diversos instrumentos de uma orquestra”. Ou seja, há muitas diferenças de sentidos entre arranjo e orquestração, embora na maioria das vezes os dois termos sejam usados com se tivessem os mesmos sentidos e fossem palavras sinônimas.

E logo no parágrafo seguinte, no final do seu luminoso ensaio, Luís Antônio Giron conclui: “A prova dos nove do legado do músico está nas execuções, nos improvisos que realizou no bafo do choro à flauta e ao saxofone. Este ele adotou durante a temporada do grupo Oito Batutas no Dancing Schéhéarazade em Paris no inverno de 1922. A maioria das suas improvisações se perdeu nas sessões de choro do passado. Foram lembradas por seus contemporâneos como imbatíveis, cifras descobertas ao acaso da execução. Algumas delas foram fixadas em disco em 1946 para Victor, com Pixinguinha ao sax-tenor e Benedito Lacerda à flauta. A dupla gravou 34 discos entre 1946 e 1951. Nesse período, ele vivia a tragédia da falta de embocadura na flauta. Por falta de fôlego e pavor de errar, tinha largado o instrumento em que se criara. O sax, de sopro mais fácil, o obrigou a tramar contrapontos na região grave de suas composições. Com a perda do princípio do prazer originário que lhe era proporcionado pela flauta, tornou-se mais racional. Conforme declarou, as sessões de improviso consistiam em catarses, eliminação dos sentimentos por efeito do conhecimento material. O grande legado de sua arte está nessa tentativa de produzir saber sonoro por força do raciocínio instantâneo”.

Sérgio Cabral, no capítulo Influência do Jazz, esclarece que a intenção de Donga e Pixinguinha, ao criarem “uma orquestra típica”, “um conjunto de choro bem ampliado”, "era nacionalista". E, referindo-se às duas famosas críticas de Cruz Cordeiro, inseridas com a devida contextualização no capítulo Influência do Jazz, o historiador Sérgio Cabral observou : “Portanto, segundo o crítico, eles não foram brasileiros exatamente nas gravações dos dois mais famosos choros de Pixinguinha”.

Cruz Cordeiro, na entrevista concedida a Sérgio Cabral, afirmou “que não se arrepende das críticas que fez a Pixinguinha, pois o próprio músico reconheceu em conversa com ele que, realmente, andava na época influenciado pela música norte-americana, principalmente nas orquestrações (grifei)”.

As orquestrações de Pixinguinha com a influencia da música norte-americana devem ter transformado os dois choros em produtos musicais híbridos, nem de genuíno caráter brasileiro e nem de autêntico caráter americano, mescla estranha de harmonias nacionais e estrangeiras, mistura artificial de instrumentos brasileiros e americanos, amálgama esquisita do ritmo de choro e do ritmo de jazz. Talvez misturando fox-trot e choro, ritmo nacional e internacional, harmonia brasileira e estrangeira, instrumental típico e atípico, os compositores Donda e Pixinguinha quisessem inovar em termos rítmicos, harmônicos, melódicos e instrumentais no gênero choro, tentando fazer uma síntese universal não bem sucedida da música americana e brasileira populares.

De fato, nos lançamentos de dois choros numa época bem afastada de épocas mais recentes, sem que existam outros arranjos, improvisos e interpretações dos mesmos choros para fins comparativos, torna-se difícil para um crítico perceber a brasilidade de dois choros inéditos da nossa música popular genuína, envolvidos por uma embalagem orquestral com harmonias, ritmos, sons, balanços e instrumentos de uma famosa música estrangeira.

Quando o musicólogo Luís Antônio Giron em seu ensaio fala sobre “ o balanço orquestral”, “o intercâmbio dos timbres” e “o uso de harmonias do jazz americano”, com certeza está se referindo ao modo jazzístico com que o próprio Pixinguinha arranjou e interpretou o seu choro “Carinhoso”, tão influenciado que estava na época pela música norte-americana e pela formação orquestral de uma metálica jazz-band yankee.

E relembrar que Cruz Cordeiro em suas críticas contrárias às gravações jazzísticas dos choros “Lamentos” de Pixinguinha e “Amigo do Povo” de Donga, afirmou: “A influência das melodias e mesmo do ritmo das músicas norte-americanas é, nesses dois choros, bem evidente”. E reafirmou as suas críticas com referência às orquestrações jazzísticas do choro Carinhoso, não havendo dúvidas musicais por parte do crítico Cruz Cordeiro quanto à influência da música norte-americana nas orquestrações dos dois belos choros brasileiros.

O crítico Cruz Cordeiro de modo CARINHOSO em suas críticas musicais foi contrário à antigas gravações jazzificadas dos dois famosos choros, e o músico Pixinguinha sem LAMENTOS aceitou as críticas ao reconhecer na época a influência da música norte-americana na sua obra. Demonstrando que não restaram mágoas e ressentimentos em relação ao competente crítico musical na alma do genial artista criticado, mais tarde Cruz Cordeiro e Pixinguinha juntos em harmonia estarão lançando com sucesso estrondoso a marcha “O Teu Cabelo não Nega” de Lamartine Babo nos salões do Clube Fluminense, no Rio de Janeiro.

As duas famosas críticas acertadas de Cruz Cordeiro, as declarações do próprio músico Pixinguinha em conversa com crítico, o capítulo Influência do Jazz no premiado livro ´do historiador Sérgio Cabral, e o brilhante o ensaio do musicólogo Luís Antônio Giron, desdizem aquela afirmação no editorial de apresentação da Revista da Música Popular, de Pérsio de Moraes e Lúcio Rangel, que Pixinguinha “nunca se deixou influenciar pelas modas efêmeras ou pelos ritmos estranhos ao nosso populário”. E o próprio brasileiríssimo compositor Pixinguinha ainda se gabava: “Eu compus também músicas japonesas e outras”.

Alguns criaram uma santificação absurda em torno da figura mitificada de Pixinguinha, tanto do ponto de vista humano, quanto do ponto de vista artístico, enquanto o próprio Alfredo da Rocha Viana Filho, com seu jeito humilde, autêntico, franco, honesto e espontâneo, não fazia nenhuma questão em cultivar as santificações irreais criadas em torno da sua pessoa simples. Mito, no sentido de uma “Idéia falsa, sem correspondente na realidade”, conforme o Dicionário Aurélio.

E revelando uma percepção artística-musical muito além do seu tempo, o crítico Cruz Cordeiro soube entender com sua fina sensibilidade logo no primeiro disco o estilo inédito de cantar de Mário Reis com sua voz pequena , numa época em que dominavam as grandes vozes masculinas nos intérpretes de nossa música popular brasileira:

“Esse é o primeiro disco de Mário Reis, o simpático amador, que canta a primeira peça de modo muito original. Dono de uma interpretação digna de nota, o artista realiza uma espécie de canto sincopado muito expressivo que, se à primeira vista nos impressiona mal, pouco depois agrada-nos imensamente. O acompanhamento ao violão de Donga e Sinhô muito brilho dá ao conjunto. Gravação excelente”.

Sérgio Cabral, no seu livro ABC – um desfile dos craques da MPB, no capítulo referente à Mário Reis, na entrevista concedida pelo artista aos 70 anos, observa que o cantor “foi o iniciador de uma nova era para a interpretação de nossa música, num estilo que marcou época até hoje”, e que “não deve ser esquecido que João Gilberto foi saudado como “um novo Mário Reis”.

O crítico Cruz Cordeiro também soube perceber logo no começo a beleza do delicioso samba “Com que Roupa ?”, de Noel Rosa, e o estilo gracioso e saboroso do autor de cantar o próprio samba. A imorredoura crítica elogiosa de Cruz Cordeiro aparece no numero 46, da Phono-Arte, de dezembro de 1930:

“Noel Rosa, que pertence ao já popular Bando dos Tangarás, aparece como autor do samba “Com que roupa”, cantado por ele, com acompanhamento de regional, na primeira faixa do disco nº 13.245, da Parlophon”.

“Esse samba desde logo projetou-se como um dos grandes sucessos, apresentando-se como um dos prováveis êxitos do carnaval que aí vem. Ao nosso ver, esse samba que todo o Rio já sabe de cor, é excelente pela originalidade da letra e o sabor esquisito do ritmo, dentro do qual a letra está magnificamente bem enquadrada. Reparem os amadores como caem bem dentro da música e do ritmo as rimas conduta, luta, fruta, sopa, roupa, estopa. Enviamos daqui os nossos parabéns a Noel Rosa pela originalidade do seu samba, que ele próprio canta com graça e especial sabor, acompanhado por adestrado regional. No complemento, aparece o samba “Malandro medroso”, peça que não se mostra digna companheira do que está gravado no outro lado”.

Parece que alguns estudiosos e pesquisadores de nossa música popular brasileira não vão esquecer nunca e não vão perdoar jamais as críticas desfavoráveis de Cruz Cordeiro às gravações dos choros “Lamentos” e “Carinhoso” de Pixinguinha, realizadas no ano de 1928.

A entrevista do jornalista Sérgio Cabral feita com Cruz Cordeiro em sua residência, publicada com bastante destaque no Jornal O Globo em 22/7/76, com o título CRUZ CORDEIRO – O primeiro colunista de discos do Brasil -, ressalta a inegável importância crítica, instrutiva, histórica, cultural e informativa da Revista Phono-Arte, de Sérgio Vasconcellos e de Cruz Cordeiro, que foi o pioneiro em nosso país da crítica de nossa rica música popular brasileira. Na Revista Phono-Arte, por exemplo, na edição nº 11, de janeiro de 1929, na seção “A Linguagem da Música”, há um glossário de termos musicais para “facilitar o conhecimento dos termos mais usados em música”.

E, com referência ao tão comentado criador Pixinguinha, mais adiante na reportagem, Sérgio Cabral registrou as declarações do entrevistado illustre:

“Apesar das críticas contrárias às gravações de “Carinhoso” e “Lamentos”, outra grande admiração de Cruz Cordeiro é por Pixinguinha:”

“ - Nossa mãe, que músico !”

“Cruz Cordeiro o tem em alta conta como compositor, instrumentista, arranjador e regente”.

Pixinguinha com seu saxofone, e demais músicos com instrumentos de uma típica jazz band americana (1927).

As fotos acima foram extraídas do já mencionado livro de Sérgio Cabral.
Pixinguinha com a sua flauta, e demais músicos com instrumentos de um típico conjunto brasileiro (1922).

Guapimirim, Município do Dedo de Deus, Bairro da Barreira, Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2008. - Antonio José Silva da Cruz Cordeiro (63 anos) – filho da terça-idade de Cruz Cordeiro, autor do artigo acima e organizador do presente site. Para contactos: telefone (021) 2632-5092 (Guapimirim) ou e-mail tonival@ig.com.br

 

Sobre o Crítico Tárik de Souza


Não pretendo cometer com o crítico Tárik de Souza a mesma injustiça que ele cometeu com o crítico Cruz Cordeiro, sendo que este atuou muito antes na mesma área crítica da música popular que aquele atua agora.

Os pioneiros em qualquer campo da nossa música popular brasileira devem ser lembrados, respeitados e divulgados, pois contribuiram na sua época para o engrandecimento de nossa desmemoriada cultural nacional, da mesma maneira que todos os críticos, estudiosos e pesquisadores atuais da nossa música popular estão contribuindo.

“Tárik de Souza Farhat, jornalista, crítico musical e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, em 19.11.1946”.

Ainda, conforme informações existentes no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, “iniciou sua atividade profissional em 1968 como repórter, redator e editor de música da Revista Veja.”

“Trabalhou para outras publicações, como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Isto É, Vogue, Elle, Jornal do Comércio (RJ), Show Bizz, Opinião, Pasquim, Som 3, Revista do CD, Coo-Jornal, Movimento, Playboy e Jornal da República”.

“Atuou como consultor das 3 (três) séries de fascículos História da Musica Popular Brasileira (Editora Abril). Fundou e editou a revista Rock/Jornal de Música. Entre 1981 e 1989, apresentou os programas Os Músicos, O Show é a Música, e Os Repórteres (TVE)”.

“Desde 1994, vem dirigindo a coleção de livros sobre música Todos os Cantos (Editora 34), iniciada com o título Ouvido Musical. Compilou faixas e redigiu textos das séries de discos Mestres da MPB e Enciclopédia Musica Brasileira (Continental/Warner) e das caixas Apoteose ao Samba (2 vols.-EMI), Jorge Ben, Nara Leão e Caetano Veloso (Universal), entre outras. Atuou como editor do site Clique Music, especializado em música popular produzida no Brasil. Apresentou inúmeros discos editados no Brasil”.

O crítico Tárik de Souza teve 41 (quarenta e um) artigos seus editados em um livro pela Editora L&PM de Porto Alegre, RGS, intitulado O Som Nosso de Cada Dia. As análises, editadas no livro, antes foram publicadas em vários órgãos da imprensa: Revista Veja (1977), Revista Som Três (1979/1980), Jornal da República (1979), Revista Playboy (1979), Pasquim (1980), Jornal do Brasil (1980 a 1983) e Fascículo História da MPB – Editora Abril Cultural (82 e 83). Transferi para o final deste site democrático a capa, a contracapa e a orelha do livro, impresso no Brasil, no inverno de 1983. O livro raro, com edição esgotada e sem previsão de reedição, segundo a própria editora L&PM, encontrei-o na Academia do Saber, Livraria & Sebo, na Rua Luiz de Camões, 43, Centro – RJ (tel. 2232-5583), através do site www.estantevirtual.com.br.

E, ainda, conforme registro no site acima , as demais obras de Tárik de Souza publicadas, com edições esgotadas, são as seguintes : Autópsia em Corpo Vivo (Poesias), O Baú do Raul (Kika Seixas e Tárik de Souza), Tem Mais Samba – das Raízes à Eletrônica, Brasil Musical – Viagem pelos Sons e Ritmos... (Tárik de Souza e Ary Vasconcelos), Rostos e Gostos da Música Popular Brasileira (Tárik de Souza e Elifas Andreato), O Som do Pasquim- Grandes Entrevistas (Jaguar e Tárik de Souza), Tons Sobre Tom (Márcia Cezimbra/Tessy Callado e Tárik de Souza).

Atualmente, o crítico Tárik de Souza faz comentários sobre música popular brasileira no programa Comentário Geral da nossa TV Educativa (TVE), ainda escreve no Jornal do Brasil às sextas-feiras na sua coluna intitulada Supersônicas e, recentemente, apareceu no elogiado documentário de Décio Matos Júnior, intitulado Fabricando Tom Zé, onde o competente crítico tece considerações sobre a obra do fantástico compositor. E é o Editor do Jornal Musical, no atualizado, completo e informativo site do Instituto Memória Musical Brasileira, “com informação e pesquisa de discos da música popular do Brasil”. O Fundador e Presidente de Honra é Andreas Pavel, o Presidente João Carlos Carino, e o Diretor de Pesquisa e Acervo Fonográfico é Silvio Julio Ribeiro.

Logo na abertura do espaçoso site informativo com um caprichado visual, o próprio Tárik de Souza apresenta o seu Jornal Musical, no pequeno texto intitulado “Abram alas para o Jornal Musical”. O crítico Tárik de Souza faz de novo referências à Revista Phono-Arte e aos seus dois fundadores, mais uma vez querendo diminuir já no primeiro parágrafo a indiscutível importância da revista pioneira, como se a perseguisse:

“Queremos ser simplesmente e sem pretensões, um intermediário entre o amador e o editor de discos. Escolher um disco pela simples indicação de um catálogo ou suplemento, conduz quase sempre a decepções. Procuraremos facilitar essa escolha, apresentando aos leitores uma crítica absolutamente desinteressada e imparcial das diferentes gravações”. A promessa era da Phono-Arte, publicação bi-mensal, dirigida por J. Cruz Cordeiro Filho e Sérgio Alencar Vasconcellos, que se intitulava, na estréia em 15 de agosto de 1928, “a primeira revista brasileira do phonographo”, com os dois phs devidos, embora ela tenha sido precedida por folhetos ou catálogos como O Phonographo (1878) ou Echo Phonográfico, diferentes jornais de modinha e, como lembra o pesquisador e estudioso Flávio Silva, entre 1923 e 1928, a Revista Musical”.

“Sem esquecer estes e antepassados mais recentes, o Jornal Musical nasce com objetivos mais abrangentes.Queremos tornar acessível o maior número de informações sobre a música popular produzida no país, para que o próprio leitor faça suas escolhas. Para tanto, sem abdicar das nossas, contamos com diferentes abordagens da atividade musical, através de reportagens, entrevistas, resenhas, noticiário, ensaios, em permanente renovação e armazenamento no site. O maior banco de dados do setor permitirá vários tipos de consultas sobre a discografia da música popular do Brasil nos suportes 78 rotações, compacto, LP, CD e mais adiante DVD e livros. Um projeto em aberto e constante aperfeiçoamento que se completa com a disponibilização de downloads e emissoras de rádios exclusivas”.

Pelo fato de Cruz Cordeiro querer facilitar as escolhas dos consumidores de discos com as suas críticas, comentando e recomendando as melhores gravações do ponto de vista técnico e artístico, não quer dizer que os leitores da Revista Phono-Arte não pudessem fazer as suas próprias escolhas.

A fundação da Revista Phono-Arte, em 15 de agosto de 1928, ou seja, há quase 79 (setenta e anos) atrás agora no próximo dia 15 de agosto de 2007, numa época em que “as gravadoras haviam trocado o antigo processo mecânico de gravação de disco pelo processo elétrico”, não pode deixar de ser vista no tempo através de uma ampla perspectiva sócio-histórica-cultural-tecnológica. Os estudiosos, pesquisadores e analistas antepassados da nossa inspirada música popular produzida no Brasil, naquele tempo remoto ainda não possuíam o televisor, o celular, o fax, o telex, o computador, o e-mail, o site e o download, para tornarem acessíveis o maior número de informações possíveis sobre os discos gravados pela indústria brasileira e, atualmente, sobre as muitas produções fonográficas independentes. E em outros tempos distantes ainda existiam o LP, o 78 Rotações e o Compacto, e hoje em dia ainda existem o CD e o DVD , que num futuro muito breve serão considerados ultrapassados com o rápido avanço das impressionantes tecnologias modernas.

E os pesquisadores interessados em uma discografia mais abrangente possível de nossa antiga industria brasileira fonográfica, mesmo que quisessem não poderiam ter naquela época atrasada os mesmos “objetivos mais abrangentes” da atualidade, pois ainda não possuíam os fantásticos recursos adiantados da poderosa tecnologia hodierna mundial presente.

Ao se observar as extensas, detalhadas, meticulosas e informativas Discografias Mensais da Indústria Brasileira feitas por Cruz Cordeiro, publicadas em vários exemplares da Revista da Música Popular, “trabalho como nunca se fez outro igual em nosso meio”, “um completo panorama de tudo que se publicou no Brasil em matéria de discos” e “um trabalho gigantesco que o nosso colaborador vai empreender mensalmente”, também deve se considerar os limitados recursos de comunicação, transmissão, divulgação, impressão e de armazenamento de 1954 a 1956, ou seja, há 53 (cinqüenta e três) anos atrás. E pelo exposto na Revista da Música Popular o colaborador Cruz Cordeiro trabalhava quase sozinho, sem as grandes equipes atuais dos Institutos de pesquisa discográfica. Embora a quantidade de produtos fonográficos lançados no mercado atual seja muito maior, incluídas as produções independentes modernas de excelente qualidade cada vez mais numerosas.

No texto de abertura da primeira grande discografia da Industria Brasileira feita por Cruz Cordeiro, o próprio autor escreveu: “Esta seção inaugura a discografia mensal da indústria brasileira, resultante dos lançamentos periódicos das nossas Emprêsas de discos, sendo grátis nosso registro e tanto mais completo quando forem as informações fornecidas. Iniciamos com marcas de discos das Emprêsas que, com mais presteza, nos deram o necessário material informativo, esperando, com o tempo e a indispensável colaboração das mesmas Emprêsas, darmos tôdas as nossas marcas de disco, de modo mais completo e pontual possível”.

O crítico Tárik de Souza se referiu a abrangente, trabalhosa e competente discografia mensal da indústria brasileira inicial de Cruz Cordeiro, com um comentário muito passageiro sem a seriedade de uma análise mais detida como “uma alentada Discografia da produção nacional”, o que nada diz sobre a qualidade, o conteúdo e a abrangência da discografia primeira.

 

8 de Novembro de 2006.

As declarações ao lado de Ricardo Cravo Albin foram retiradas do artigo de Marco Antônio Barbosa sobre o lançamento do Dicionário acima, publicado no Site do Instituto Memória Musical Brasileira. Marco Antônio Barbosa é o Editor Executivo da equipe do referido Instituto.

Critérios adotados por Ricardo Cravo Albin, para a inclusão no Dicionário Houaiss Ilustrado – Música Popular Brasileira.

“Pensamos em três blocos de itens: a classe A, reservada para os grandes nomes da história da nossa música; a B, para personagens importantes, mas menos conhecidos; e a C, para nomes de menor destaque. E a orientação era para reduzir o mínimo possível de cada verbete de acordo com a importância da figura destacada. Quem estava no grupo A deveria ter verbetes maiores que os artistas do B e daí por diante”.

“O trabalho para a próxima edição já começou hoje, no dia seguinte ao lançamento. É difícil achar informações precisas sobre música popular, algo muito dinâmico e sobre o qual não existe um cuidado historiográfico. De forma humilde, contamos sempre com o apoio dos próprios artistas, aos quais procuramos e que também nos procuram para corrigir erros e complementar informações. Estamos sempre indo pelas beiradas”.

“Poderia citar dezenas de casos, o Elomar, por exemplo. Estamos há mais de três anos tentando entrar em contato com ele, para tirar dúvidas sobre sua biografia. Mas ele nunca nos respondeu”..

 


IN MEMORIAN
Cruz Cordeiro, aos 79 anos, ao lado do seu filho Antônio José, algum tempo antes do seu falecimento, em 16.07.1984.
Poemas de Cruz Cordeiro

Luz e Sombra

E essas gaivotas tão lindas,
Acima desse mar tão azul,
Voando por esse céu tão radioso:
Onde elas morrem e se enterram?
Por onde passam os seus coches?
Onde estão seus cemitérios ?

Indagação sobre a morte

E quando eu fechar os olhos para sempre,
Através da imagem banal da vela que se apaga,
Ficarei na terra morto ou
Coches terei que me conduzam pelo eterno,
Pelo universo sem cemitérios ?

 

 

P R E C E

Estou cansado de presenciar fatos consumados,
De ter notícia de desgraças ou de vitórias,
Acabei por detestar os acontecimentos.
Queria que Deus me desse a pré-ciência
O dom divinatório e a mais absoluta vidência,
Que me fizesse entrar no espírito de todas as coisas,
Que me coordenasse com a essência universal e
Me concedesse desde logo,
A paz imensa que pressinto no infinito.

 

 

FIM