1 – A Primeira Esposa e Filho

José da Cruz Cordeiro Filho nasceu na cidade de Recife, Estado de Pernambuco, em 12.03.1905, sendo filho de José da Cruz Cordeiro e de Carolina Sabóia de Albuquerque Cordeiro. Vindo aos 7 anos para o Rio de Janeiro com a família, Cruz Cordeiro faleceu em l6.07.1984 na sua residência no Bairro de Botafogo, na Rua General Góis Monteiro, nº 88, aptº 303, aos 79 anos.
Cruz Cordeiro tinha 5 (cinco) irmãs e 1 (um) irmão: Lourdes, Augusta, Carmem, Carozinha, Bernadete e Humberto.

“O pai gastara fortuna na sua instrução, à moda do tempo, internando-o em um dos mais famosos colégios de padres do país. Arrancado pequeno e para muito longe de casa, Jorge pouco ou nada aprendera. Desde então não gozara mais saúde. A comida era de inferior qualidade. Não nutria. Feita como si fosse para cachorro. E depois das frugalíssimas refeições seria castigado todo aquele que não participasse do futebol, da barra-bandeira, ou de qualquer outra brincadeira assim congestionante imposta àquelas crianças afastadas do convívio e da responsabilidade de quem as botou no mundo. Do colégio não podia se queixar. As cartas eram censuradas e a vergonha de uma expulsão tolhia os mais audazes. Aos domingos, em dias de visitação, a bóia era atacada de súbita melhora. O ardil surtia o efeito desejado: eram os alunos que reclamavam sem base, meninos vadios que inventavam tramas para dar o fora do colégio... Nas férias, diante da alegria de rever a casa paterna, esquecia-se de reagir, dizer o que não podia fazer por carta, do internato. E voltava no ano seguinte para continuar a estudar sem se alimentar. Foi se enfraquecendo. Sarampo, caxumba, e um violento tifo, devolveram-no, afinal, aos seus. A sua educação se completara...”
Do último capítulo XXIX, intitulado Solidão, do romance Uma Sombra que Desce, de Cruz Cordeiro. No romance, o personagem relativo ao escritor recebe o nome de Jorge.
Cruz Cordeiro casou-se com Dora Alencar Vasconcellos, nascendo da união o único filho José Roberto Cordeiro, falecido aos 31 anos nos Estados Unidos, em 1969.
A Embaixadora Dora Alencar Vasconcellos faleceu aos 62 anos, em 1973, como representante do Brasil junto à República de Trinidad-Tobago, sendo sepultada com honras de estado no Cemitério de São João Batista.
Conforme reportagem abaixo do Jornal O Globo sobre o velório, “os principais amigos de Dora Vasconcelos disseram que ela preferia ser considerada como uma poetisa a uma “simples funcionária do Itamarati”. Ainda, segunda a reportagem, “Dora deixou três livros publicados: O Grande Caminho do Branco, Palavra Sem Eco e Surdina do Contemplado”.
Esclarecimento:
Embora a reportagem acima registre que Dora era viúva quando faleceu, o seu ex-marido Cruz Cordeiro ainda estava vivo no ano da sua lamentável morte, tendo inclusive comparecido no velório, enterro e sepultamento de sua inesquecível ex-esposa.
O irmão de Dora e ex-cunhado Sergio Alencar Vasconcellos, com o qual Cruz Cordeiro criou a pioneira Revista Phono-Arte, estava presente no velório e recebeu os pêsames de todos em nome da família.
Em sua primeira permanência nos Estados Unidos em 1952, Dora iniciou uma estreita amizade com Heitor Villa-Lobos (1887-1959), realizando várias parcerias com o compositor brasileiro. Dora escreveu inspiradas letras românticas, em perfeito acordo com o espírito e a natureza da música do genial compositor.

Dora criou letras para as belas canções da suíte Floresta do Amazonas (1958), feita sob encomenda para a trilha sonora do filme de mesmo nome, baseado na novela de William Henry Hudson, “Green Mansions”. O filme, uma produção da Metro Goldwyn Mayer, foi estrelado por Audrey Hepburn e Anthony Perkins, sendo dirigido por Mel Ferrer.

As letras de Dora foram transcritas do catálogo da gravação do CD, da Emi Classics, Floresta do Amazonas, com Villa-Lobos regendo a Symphony of the Air & Chorus, sendo as canções interpretadas pela inesquecível soprano brasileira Bidu Sayão. A suíte é composta de 19 (dezenove) partes, contendo em algumas partes as canções com as letras de Dora Alencar Vasconcellos.

Parte 9 – Veleiros

Velas no mar/Vão deixando passar/A tarde anil,/E outras ondas/Vêm levar. Ah !
Sempre existe na mágoa/Doce murmúrio/ De um triste amor. Ah!
Quanta tristeza! Ondas do mar.../Neste vaivém/Sem me levar...
Pois sempre eu fiz/ Muita atenção/ Em não pisar/Teu coração. Ah!
Longe no céu/Vai a onda jogar/ Tudo que é meu,/Dentro do mar/Sem me esperar! Ah!
Lua, branquinha,/Lua crescente,/Vem devagar. Ah !

Parte 12 – Cair da Tarde

A garça voou,/A sombra ficou,/A noite desceu/Levando brancor! Ah!
A mata dormiu,/O vento acabou,/A folha caiu/Fazendo rumor ao tocar.Ah!
O ramo gemeu,/O ninho vibrou,/O rio bebeu/As nuvens do céu. Ah!
O eco passou/Bem perto daqui,/As vozes levou/Rompendo manhãs ao morrer. Ah!

Parte 16 – Tarde Azul (Canção do Amor)

Sonhar na tarde azul/Do teu amor ausente,/Suportar a dor cruel/Com esta mágoa crescente./O tempo em mim, agrava/O meu tormento, amor!
Tão longe assim de ti/Vencida pela dor,/Na triste solidão/Procuro ainda te encontrar,/Amor, meu amor!
Tão bom é saber calar/E deixar-se vencer/Pela realidade.
Vivo triste a soluçar,/Quando, quando virás! Em fim.../Sinto ardor dos beijos/Teus em mim. Ah!
Qualquer pequeno sinal/É fremente surpresa/Vem me amargurar.../
Tão doce aquela hora/Em que de amor sonhei,/Infeliz a sós agora/Apaixonada fiquei/Sentindo aqui fremente/O teu reclamo, amor.
Tão longe assim de ti,/Ausente do teu calor,/Meu pobre coração/Anseia sempre a suplicar: Amor, meu amor!

Parte 17 – Canção do Amor (Melodia Sentimental)

Acorda, vem ver a lua/Que dorme na noite escura,/Que fulge tão bela e branca/Derramando doçura./Clara chama silente/Ardendo o meu sonhar!
As asas da noite que surgem/E correm no espaço profundo.../Ó doce amada desperta!/ Vem dar teu calor ao luar.
Quizera saber-te minha/Na hora serena e calma./A sombra confia ao vento/O limite da espera.../Quando dentro da noite/Reclama o teu amor...
Acorda, vem olhar a lua/Que brilha na noite escura./Querida, és linda e meiga,/Sentir meu amor é sonhar. Ah!


POESIAS DE DORA

Do livro: “Surdina do Contemplado”, José Olympio Editora, 1958, 1ª edição, RJ.

ME DÁ UM BEIJO !

Me dá um beijo/Que passa/Esta desgraça
Ânsias de beber luar/De morrer na praia/Antes do mar/De contar segredos no bar
Fazer um ato de bravura/Cometer qualquer loucura/Fazer discurso na praça/E provocar arruaça
Depois de confraternizar/Se suicidar/Sem bilhete de adeus/Para intrigar filisteus
Pelas ruas vagar/Bater em todas as janelas/Almas vivas encontrar/Ver lanternas a boiar
Noite acabada/Cara arrumada/Vida aceitada/Marcha trotada
Ah! Me dá um beijo
Para eu chorar!

JOGO DE DAMAS

Quadrado preto/Quadrado branco/Onde ponho minha pedra/Chegou a vez de jogar
Se é o branco a escolha/Se quero o quadrado preto/Que sorte vai ser a minha/Em qual dos dois vou ganhar
Quadrado branco/Quadrado preto/Que coisa grande é escolher/Tendo o preto e tendo o branco
O preto pode dar sorte/O branco muita aflição/A pedra queima entre os dedos/Na grande preocupação.
Quadrado de duas cores/Em que branco/Em que preto/Vou jogar ?
O mundo todo aguarda/Minha fatal decisão/Será o preto/Ou o branco?
Que dirão os entendidos/Se o grande engano eu sofrer/Teve branco teve preto/E nunca soube escolher.

DE COMO PROCEDER

Não é necessário apelar/Para o consultório sentimental/De Dona Possidônia/Para saber que amor perdido/Perdido vai
Inútil se torna perturbar/Os astros influentes do zodíaco/Para aprender/Que é preciso esquecer/Sem tardar/Sem tardar
Acaso o manual dos desiludidos/Do amor/No capítulo dez/Dirá a fórmula eficiente/Para transformar o coração/Em pedra ou mar
Não adianta invocar/O valete de ouro do Mago Aryman/Nem aguardar o rei de copas/Em oportuna aparição/Para saber que outro amor virá/Em tempo hora e lugar
Basta dizer
tá quieto
tá quieto
E o amor fica quietinho
esperando.

“Jorge passa a se lembrar do nascimento do filho. Ficara muito contente. Sempre desejou que seu primeiro rebento fosse homem. Rira quando Elza, ainda na Maternidade, observara-lhe:
“- Só estou vendo... Babado pelo filho... Nem se incomodou com a força que fiz... Nem um beijo para sua mulherzinha, heim !”

Trecho retirado do único romance “Uma Sombra que Desce”, de Cruz Cordeiro.
No romance, o personagem do marido Cruz Cordeiro se chama Jorge, e a personagem da esposa Dora se chama Elza.

Cordeiro e José Roberto
Cordeiro, José Roberto e Dora, no Passeio Público, RJ.
Dora e José Roberto
José Roberto e Cordeiro
Dora, José Roberto e familiares.
José Roberto, ainda menino.
Cruz Cordeiro
e José Roberto.
Tia Bernadete, irmã de Cruz Cordeiro, ao lado do sobrinho José Roberto, ainda menino.
 
 
José Roberto garoto.
José Roberto adolescente.